Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Os temas imigração e família norteiam estreia literária de Érica Sarsur

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“Uma Casa com Cheiro de Pão”, da mineira Érica Sarsur, narra a imigração de uma família síria para o Brasil no início do século XX

Patrícia Cassese | Editora Assistente

No processo de escrita de seu primeiro romance, o recém-lançado “Uma Casa com Cheiro de Pão” (Editora Pontes, 210 páginas), a escritora Érica Sarsur evitou usar os termos “autobiográfico” ou “história de família”. O objetivo foi claro: não criar, no leitor, a expectativa de que estava fazendo um trabalho de viés jornalístico, envolvendo pesquisa histórica e documental. “Assim, o que o leitor encontra no livro são relatos, que colhi de três gerações da minha família. Porém, mesclados ou complementados por personagens fictícios e cenas imaginadas, que dialogam com a realidade”, explica.

"Uma Casa com Cheiro de Pão", de Érica Sarsur: resgate de uma história que pode se assemelhar à de vários outros imigrantes (Editora Pontes/Divulgação)
"Uma Casa com Cheiro de Pão", de Érica Sarsur: resgate de uma história que pode se assemelhar à de vários outros imigrantes (Editora Pontes/Divulgação)

O romance – cujo lançamento oficial, com sessão de autógrafos, aconteceu no dia 29 de junho, na Livraria da Rua, conta a imigração de uma família síria para o Brasil no início do século XX. A história abrange três gerações e é narrada por três diferentes vozes – a primeira, vinda da Síria, enquanto as duas outras, nascidas no Brasil. O cheiro do pão sírio é um elemento que atravessa toda a narrativa, ligando os personagens.

Processo

Érica compartilha que a ideia do livro nasceu de uma conversa com o tio-avô, hoje com 92 anos. “Ele estava me contando histórias do meu avô, bem como de outros sírios e, instintivamente, propus que escrevêssemos as memórias dele. Daí, a ideia evoluiu para um romance. Assim, escrever o livro foi a minha forma de entregar um presente para a minha família”, situa ela, que é professora no Departamento de Letras Modernas da Universidade de São Paulo (USP). Tal qual, Érica Sarsur pesquisa línguas e culturas de herança, plurilinguismo e diversidade linguística.

Ainda no processo que precedeu a escrita, Érica tratou de fazer um cronograma de visitas às pessoas mais velhas da família: no caso, tios-avós. “No caso dos que já se foram, procurei os filhos mais velhos. Desse modo, ouvia os relatos, chegava em casa e transformava aquele material em história escrita”. Nessa primeira etapa, ela reconstruiu a vinda da Síria e os primeiros anos de vida no Brasil. Depois, Érica procurou os primos da geração da mãe. “A partir desses depoimentos, construí a Parte 2, que mostra a infância e juventude dessa geração e a força dos laços familiares”.

Por fim, com os primos da terceira geração (a dela), traçou “perfis” das pessoas da primeira geração, agora exercendo o papel de avôs e avós. “E assim nasceu a Parte 3, na voz de uma neta que conta sua relação com os primos, tios e avós, bem como os esforços da avó pela preservação das tradições”, explana Érica.

Narrativa

“Um Casa com Cheiro de Pão” começa com a história de Moyzes, uma criança de 3 anos que imigra com a mãe, irmã e meios-irmãos para o Brasil. Na voz dele, o leitor faz a travessia de navio e, daí, pega o trem do Rio de Janeiro para Belo Horizonte. Assim, chega à primeira casa em terras brasileiras. Depois acompanha o nascimento dos irmãos e as lutas e alegrias da família. Em determinado ponto da narrativa, comenta Érica, a voz de Moyzes é substituída pela de Rosemeiry, ou Mêra, a filha mais velha dele.

“Ela conta suas memórias, como o dia em que aprendeu a fazer pão sírio com a avó. E faz reflexões acerca do papel e da condição da mulher na sociedade e na família árabe. Também reflete sobre como as relações familiares eram no passado e especula como serão no futuro”. Por fim, prossegue Érica, uma terceira voz se apresenta. “No caso, sem nome, que representa toda a terceira geração. A narradora reúne as vivências de muitos jovens adultos da minha geração, e seus avós são personagens criadas a partir das características de todos os representantes da primeira geração da minha família”.

Érica: “Uma Casa com Cheiro de Pão” traz um relato poético baseado em entrevistas realizadas pela autora (Miriam Sarsur/Divulgação)
Érica: “Uma Casa com Cheiro de Pão” traz um relato poético baseado em entrevistas realizadas pela autora (Miriam Sarsur/Divulgação)

Reflexão sobre o deslocamento humano

Ao longo da história, pois, o leitor encontra a língua árabe – segundo Érica, com mais força no início e mais pontualmente ao final. “Também identifica traços e hábitos muito marcantes da cultura árabe”. Ao fim, o desejo da autora é que a história toque as pessoas pelo seu caráter universal. “O livro é uma história de imigração e de família. A imigração é a realidade de um número muito significativo de famílias no Brasil, assim como no mundo todo. Trazer à tona a temática da imigração é uma semente para a reflexão sobre a condição do deslocamento humano, do encontro de culturas e línguas e de questões relacionadas à nossa identidade”, entende.

Érica complementa: “As memórias familiares das personagens da história são um convite a que o leitor mergulhe na sua própria história, assim como as diferentes comunidades de imigrantes me levaram ao mergulho na minha, no fim do ano de 2023. Para além do mergulho histórico, o livro chama o leitor a pensar e sentir o valor da família”.

Línguas e culturas de herança

Desafiada a falar sobre a pesquisa que desenvolve em línguas e culturas de herança, plurilinguismo e diversidade linguística, Érica comenta. “O Brasil é um país marcado pelas ondas imigratórias, que fazem parte da nossa história e da identidade de muitos de nós. Na década de 1930, durante a Era Vargas, o governo adotou uma forte política de repressão linguística, e isso impactou diretamente na transmissão das línguas das famílias imigrantes e das tradições de uma geração para a outra. Estudar as línguas e culturas de herança é uma forma de jogar luz nessas questões, que são, na essência, a identidade das pessoas, das famílias e das comunidades de imigrantes”.

Junto com as questões da herança, trabalhar com plurilinguismo e diversidade linguística é, na visão dela, levantar a bandeira da diversidade humana. “Bem como da importância de se abrir, tolerar e respeitar o diferente. Pelo prisma das línguas, isso significa dar visibilidade às línguas indígenas, de sinais, de imigração, de fronteira e línguas que nasceram no Brasil devido ao contato linguístico. E, ao mesmo tempo, dar visibilidade aos falantes dessas línguas, muitas vezes discriminados ou marginalizados”.

Érica frisa que, ao todo, no Brasil, são faladas cerca de 250 línguas, mas, tal qual, lamenta que nas escolas não estudemos mais do que o inglês. “Também não falamos sobre direitos linguísticos, políticas linguísticas… e todos esses assuntos são objetos de trabalho do plurilinguismo. Levar essas reflexões para a sala de aula é uma forma de contribuir para que os estudantes desenvolvam autonomia intelectual e consciência (meta)linguística, além de uma postura mais humana e inclusiva diante da diversidade”.

Serviço

“Uma Casa com Cheiro de Pão” (Editora Pontes, 210 páginas)

Ilustrações: André Sarsur
A obra traz um QRcode que leva ao audiolivro
Em BH, o livro pode ser encontrado na Livraria Scriptum e na Livraria da Rua, ambas na Savassi. E, pela internet, no site da Editoras Pontes

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