Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Cinco razões para assistir à minissérie “Eric”

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No catálogo Netflix, “Eric” traz excelentes performances do elenco, em particular, de Benedict Cumberbatch e McKinley Belcher III 

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Após presenciar uma briga dos pais, Edgard (Ivan Morris Howe), um garoto de 9 anos, desaparece no trajeto da casa da família à escola. Na verdade, naquele dia, o pai – Vincent Anderson (Benedict Cumberbatch) estava incumbido de levá-lo à aula, mas, por estar em meio à citada discussão com a mulher – Cassie (Gaby Hoffmann) -, entende que o menino já tem idade para fazer o curto trajeto sozinho. Bem, só que Edgard não chega à instituição de ensino. E, assim, a polícia de Nova York dá início às investigações do sumiço da criança. Muito sinteticamente, esta é a sinopse de “Eric”, série de Abi Morgan que estreou no último dia 30 de maio no catálogo Netflix.

Benedict Cumberbatch acerta no tom e mostra uma interpretação soberba em "Eric" (Fotos: Netflix/Divulgação)
Benedict Cumberbatch acerta no tom e mostra uma interpretação soberba em "Eric" (Fotos: Netflix/Divulgação)

Na trama, que se passa na Nova York dos anos 1980, o “Eric” do título diz respeito ao boneco de grandes dimensões criado por Vincent para “Good Day Sunshine”, o programa infantil que ele comanda em uma emissora de TV. Trata-se, na verdade, de um monstro. No início da série, as cenas do atração televisiva ainda não traz o personagem inserido na atração, justamente por estar sendo desenvolvido por Vincent, a partir inclusive de conversas com o filho. No curso da narrativa, aliás, o pai entende que, se porventura o garoto ainda estiver vivo, a isca perfeita para atrai-lo (e, desse modo, fazer com que volte para casa) seria colocar o boneco o mais rapidamente possível no programa. Mas, claro, as coisas não são tão simples assim.

Racismo/homofobia

Como pontuamos, a sinopse dada no primeiro capítulo é bem sintética. Para localizar mais aqueles que querem se arriscar a ver “Eric”, seria necessário listar outros pormenores que caracterizam a empreitada Netflix. Por exemplo, há, neste caldeirão, um destemido policial, Michael Ledroit (McKinley Belcher III) – que pretende resolver não só este, mas outro caso recente de um menor desaparecido. Melhor dizendo, um adolescente. No entanto, a polícia, num espectro mais amplo, não está muito empenhada em resolvê-lo assim como se esforça por Edgard (foto abaixo). Principalmente, por um “detalhe” que diz respeito a uma mazela que segue mais que presente na sociedade: o racismo. Marlon, o outro garoto, é negro.

Mas não só. Do mesmo modo, para além do racismo, a trama de “Eric” trabalha com a homofobia vigente em instituições como a polícia, lembrando, novamente, que estamos falando dos anos 1980 (não que a coisa tenha mudado tanto de lá para cá). E, bem, Ledroit, o citado detetive, é gay, o que precisa disfarçar para seus pares. No curso dos capítulos, outros temas, dos mais variados matizes, disputam espaço.

Drogas e prostituição

E, para um deles, é preciso, pela terceira vez, reforçar o parâmetro temporal de “Eric”, já que a Nova York daquele período pouco tinha a ver com a atual, dita mais segura. Assim, havia uma significativa população marginal, vivendo nas ruas em regiões como Hell’s Kitchen, que, como se sabe, hoje foi revitalizada. Anos atrás, por lá, a prostituição e o consumo de drogas grassavam, como já mostrava a série “The Deuce”. Também havia pessoas em situação de rua alojadas nos subterrâneos do metrô.

Naqueles anos 1980, o mundo também vivia o advento de uma nova doença: a Aids, que, naquele momento, carregava o estigma de “câncer gay”. Na trama, há um personagem terminal, William Elliot (Mark Gillis), foto abaixo. E, assim, é na encruzilhada de várias dessas situações que a trama de “Eric” transcorre. Ah, sim: ainda há um elemento fantástico a permear a narrativa. Algo tão ousado que faz com que o espectador tenha a nítida sensação de que por pouco, por muito pouco, a receita poderia desandar e a série cair no ridículo, não fosse a habilidade da direção e, principalmente, dos atores.

Passemos, pois, às cinco razões que fazem de “Eric” uma ótima pedida

Debate sobre o tratamento diferenciado a crianças desaparecidas

Um dos episódios mais doloridos de “Eric” é o que traz a conversa entre Cecile (Adepero Oduye) – a mãe de Marlon Rochelle, um garoto negro de 14 anos também desaparecido em Nova York, porém há mais tempo que Edgard; com o detetive Michael Ledroit (McKinley Belcher III). De maneira pungente, ela aponta o quanto a atenção e os esforços que a polícia nova-iorquina dedica ao sumiço de Edgard – que, como já dito, é um menino branco – são desproporcionais aos empenhados na busca por seu filho (no frame abaixo, dá para ver, pelo tamanho das fotos no quadro da polícia, a proporção das forças empenhadas para achar os dois garotos desaparecidos).

Não há como Ledroit contrapor a argumentação que a assimetria deve-se à diferença socioeconômica entre as duas famílias e, principalmente, ao racismo. Ledroit, que também é negro, sai modificado desta conversa e, a partir daí, muda seu modo operante. Desse modo, passa a dedicar ao desaparecimento de Marlon a mesma atenção que ao de Edgard.

Benedict Cumberbatch

Na série, o ator britânico – famoso pela série “Sherlock” e pela atuação em filmes como “Ataque dos Cães” – interpreta Vincent, pai de Edgard, o garoto de nove anos que desaparece. Enquanto procura desesperadamente o filho, Vincent chafurda cada vez mais nas drogas (incluindo a bebida, que não é proibida, mas, em excesso, causa danos imensuráveis), enquanto toma atitudes bem radicais. Só um excelente ator, da estatura de Cumberbatch, para defender com tanto brilho um papel que exige tanto. Principalmente nos capítulos finais. Certamente o desempenho do britânico vai lhe render uma série de indicações nas premiações dedicadas a séries ou que as incluem.

MCKinley Belcher III

Este ator! O que é esse ator? Belcher esteve em filmes como “Meu Amigo Enzo”, “Mapplethorpe” e “História de um Casamento”. Em breve, estará em “Zero Day”, outra minissérie da Netflix, ao lado de um elenco estelar, com direito a Robert DeNiro. Aqui, em “Eric”, ele é o policial Michael Ledroit, que investiga a morte não só de Edgard, mas também de Marlon Rochelle. Ao mesmo tempo, Ledroit tenta esconder a homossexualidade, por conta do ambiente preconceituoso no qual transita. Não bastasse, lida com a iminente perda do marido, que está com a saúde bastante minada pela AIDS.

Aliás, por meio do personagem Ledroit, várias questões são tratadas em “Eric”, mesmo que transversalmente. Caso, por exemplo, da divisão de bens em casamentos que não são heteronormativos (lembrando que a narrativa transcorre nos anos 1980). Por meio de uma atuação propositadamente contida, expressando-se muitas vezes apenas pelo olhar (que espraia tristeza), Belcher III é um dos pontos altos da série. Difícil não assistir e depois ir correndo para o computador pesquisar mais sobre o artista, que, como o personagem, é LGBTQI+ e. em janeiro deste ano, casou-se com o namorado de anos, Blake Fox. Fofos!

Trilha sonora

De volta para o passado. A narrativa de “Eric” se passa na Nova York da década de 1980, como já assinalado. Sendo assim, a trilha sonora está lotada de músicas da época. Entre elas, “Gloria”, de Laura Branigan (1952 – 2004), uma música que, vale dizer, curiosamente consta da trilha sonora de várias produções, incluindo os filmes “Gloria” e “Gloria Bell”, ambos versões da mesma história com a direção de Sebastian Lelio. Outras músicas do túnel do tempo que dão tempero à trama: “I’m Not In Love” (10cc), “These Days” (Nico), “Heroin” (The Velvet Underground), “Meet Me in the Morning” (Bob Dylan), “The Killing Moon” (Echo & the Bunnymen) ou “Tupelo” (Nick Cave). Enjoy it.

A hipocrisia em foco

Não dá para falar muito sobre isso por conta do risco de incorrer em spoilers, mas dá para adiantar que a hipocrisia que rege o mundo – independentemente do país – aparece em várias relações e personagens da trama, como no caso do candidato a prefeito que defende a moral e os bons costumes, e quer gentrificar a cidade. Ou na relação de Vincent com o pai. Tem também a pessoa que, por trás da fachada de cidadão do bem, atua numa organização de fins abomináveis.

Bônus

A presença de Gaby Hoffmann, atriz que dá o ar da graça na telona desde criança, em filmes como “Quem Vê Cara, Não Vê Coração”, com o saudoso John Candy, ou “Campo dos Sonhos”, com Kevin Costner.

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