Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

EP de Juliette Freire: ela tem voz ou dá voz a muita coisa?

Vencedora do BBB lançou o tão esperado EP com cinco faixas e composições de autores do Nordeste

Depois de muita promessa e espera, setembro começou com o primeiro disco de Juliette na praça. Ou melhor, nos streamings. A campeã do Big Brother Brasil 2021, além de demonstrar personalidade marcante no programa de reality show, também apresentou ao público outra característica que surpreendeu a todos: a voz doce! Claro que isso seria um produto altamente monetarizado ao deixar o programa. Dito e feito. 

Com cinco faixas e canções compostas por nomes do Nordeste, a pergunta que aparece ao longo da audição é: Juliette tem voz para tudo isso ou dá voz a muita coisa?

A segunda pergunta é mais interessante de ser abordada, porque, como sabemos, Juliette não foi forjada nos palcos de música popular brasileira, nem fazia disso seu ganha pão, muito pelo contrário.

Juliette Freire. Foto: Fernando Tomaz/Divulgação

Cantar era estímulo, campo de possibilidades, servindo de suporte para sustentar momentos difíceis. Dentre eles, por exemplo, a morte da irmã mais nova, com quem Juliette estabeleceu uma parceria de cuidado e companheirismo mútuo.

O produto

No lançamento do EP era evidente que não poderíamos esperar um primor de afinação, alcance e técnica vocal, bem como maturidade nas letras.

O disco foi feito para celebrar o momento dela, a conquista particular e sua enorme capacidade de superar obstáculos e engajar pessoas em seus sonhos e seus projetos pessoais. Não é um produto apto a disputar, por exemplo, o Grammy de melhor música. Definitivamente, não parece ser esse o objetivo do projeto.

É do tipo fast food. Se consome fácil porque é uma mercadoria feita justamente para absorção rápida, sem elaboração, para um tipo de sociedade sem muitas exigências. 

Faixa a faixa

A música de abertura do EP, Bença, composição de Dann Costara e Juzé é prêt-à-porter. Nada mais ajustado à história verídica de Juliette Freire, a tagarela. Assinala o tom de sua personalidade e o alcance de sua ousadia. Podemos afirmar, sem medo, que é uma canção autobiográfica, falando da relação dela com a xenofobia e sua forma de encarar as adversidades da vida que, diga-se de passagem, não foram poucas. Como diz a letra da música, “rapadura é doce, mas não é mole, não”.

Outra característica do EP seria a pegada nordestina das canções. Na música popular nordestina, destacam-se ritmos tais como xaxado, martelo agalopado, samba de roda, baião, xote, forró, dentre outros ritmos. Tais referências estão presentes, principalmente, nas músicas Doce, Benzin, Sei Lá e Vixe que Gostoso

Claro que não poderia faltar, nesse coquetel juliettiano, a pegada romântica, requisito alcançado pela canção Diferença Mara, com letra simples, trazendo gírias e expressões populares, da linguagem não formal. Ou seja, um hit plenamente cabível na mente e na boca de adolescentes que escutam e curtem esse tipo de música de balada, seu público mais cativo.  

Música e Poesia

Antes do lançamento oficial do EP, Juliette deu um spoiler e liberou para os cactos, seus fiéis seguidores, um vídeo com imagens cantando em estúdio. Na publicação, a campeã do BBB21 declamou um poema que traduz esse momento inicial como cantora, e convida seus cactos a voarem com ela!

“Cantando, eu me percebo e me encontro nesse encanto. Aqui estou eu, despida pra vocês. Deixo de lado todas as minhas facetas para assumir o que mais quero. Ser Juliette, simples e puramente Juliette. E coloco no meu canto, tudo que sou e quero ser. Ele carrega a minha história e as minhas marcas.” 

“Que as palavras tragam leveza como me cobriram de paz. Me entrego numa estrada que nunca pisei e os primeiros passos dessa caminhada são asas que ganhei junto com vocês. Convido-os a voar junto comigo!”.

Capa e composição

O EP de estreia de Juliette Freire começou a ser pensado e produzido muito antes, enquanto a artista ainda estava disputando o prêmio dentro da casa. Os amigos começaram a desenvolver o projeto inicial com a ajuda da cantora Anitta. Aliás, essa última tem faro apurado para bons negócios, convenhamos!

Foi Anitta quem gravou todas as demos nos Estados Unidos, para que Freire, quando saísse da casa, ouvisse o produto gravado com voz feminina. Então, ao sair do reality, Juliette simplesmente abraçou o projeto, colocando nele sua própria tonalidade.

O EP de Juliette Freire foi lançado oficialmente no dia 02 de setembro de 2021. O disco inicialmente teria outra capa. A primeira mostrava Juliette ao centro, em tons amarelados, com o rosto replicado ao redor da imagem, fazendo uso do filtro em formato prisma. Como era uma arte muito parecida com a capa do single “Indestrutível” de Pabllo Vittar e com uma das versões da capa do último álbum de Demi Lovato, Dancing with the evil – The art of starting over (2021), resolveram, então, pela modificação. Em resumo: evitaram uma treta envolvendo plágio, claro!

As composições das letras ficaram a cargo de autores paraibanos, Dann Costara e Zé Neto (Juzé), autores de Bença e Diferença Mara. Já Doce traz as assinaturas de Anitta, Jefferson Jr. e Umberto Tavares. A canção Sei lá foi composta por Carlitos, Isabelle Fernandes e Juzé. Benzin trouxe como compositores Jefferson Junior, Rapha Lucas e Tavares e Vixe que Gostoso, Diego Barão, Lucas Medeiros, Shylton Fernandes. Todas são músicas de composições bem simples, sendo a voz de Juliette claramente trabalhada em estúdio.

Na verdade, a que Juliette dá voz?

Muito mais que uma cantora que inicia sua carreira, Juliette Freire é um produto múltiplo, atrativo porque opina, discute, canta, dança, dialoga com as pessoas e com suas próprias dores. É a descoberta do ano de 2021. A força bruta que, antes invisível, em apenas 100 dias ganhou visibilidade através de um programa de reality show, assistido por milhões de pessoas. 

Seríamos injustos se disséssemos que nasceu uma estrela. Não nasceu: revelou-se uma estrela. Isso é o correto a se afirmar, no caso dela. Juliette sempre brilhou naquele espaço minúsculo da Paraíba. O que a TV deu a Juliette foi lente de aumento.

Aquela personalidade inabitada, como uma praia deserta e exuberante, agora foi entregue à plena exploração. Juliette foi aberta ao público, de forma geral. Ela vende tanto produtos para cabelo como ideal de superação, por isso ela cabe em tantos discursos prontos instalados pelo mercado de consumo.  

O fenômeno

Ao final do BBB 21, Tiago Leifert, apresentador do reality, fez uma profecia, ele disse: “Você não vai se sentir mais sozinha, Ju. E não sou eu que estou dizendo isso…são os mais de 24 milhões de seguidores que você tem. Juliette, você é um fenômeno. No palco montado pelo público, você nunca saiu do primeiro lugar! Você é a vencedora do Big Brother Brasil“.

Sim, tinha razão. Juliette Freire é um fenômeno e, como tal, vai oferecer e vender tudo que lhe for proposto. Dessa maneira, acaba sendo um bálsamo de consolo para muita gente que não consegue realizar as tarefas mínimas de sua rotina ordinária. Por isso ela é projeção também. 

Juliette é fantástica porque, de certa forma, nos assegura que o mundo lá fora, apesar de hostil, é um campo de possibilidades. É cabível sonhar, ainda que pareça algo tão inimaginável, a princípio.

Termino esse espaço lembrando do que dizia Nietzsche em seu livro, a Genalogia da Moral: “A vida sem a música é simplesmente um erro, uma tarefa cansativa, um exílio”. Essa é, resumidamente, a importância da música para o pensamento e para a vida de Juliette Freire.

Por Karina Braga | Culturadora

@karinalibraga, mineira de Ouro Preto, interessada em humanidades, advogada por formação e estudiosa de filosofia, zen budismo e psicanálise. Gosta de discussões políticas e é uma crítica fervorosa do neoliberalismo, com seus instrumentos de manejo de corpos e mentes.

Juliette Freire Foto Fernando Tomaz/Divulgação
Juliette Freire Foto Fernando Tomaz/Divulgação

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