Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Elis & Tom: uma experiência cinematográfica que celebra a música brasileira

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Elis & Tom, Só tinha de ser com você, mostra como a paixão pela arte pode superar diferenças e desafios, e como a música tem o poder de unir as pessoas de maneira profunda e emocional

Por Carol Braga | Editora

Diz muito quando um filme, em sessão comercial, em plena segunda-feira, recebe aplausos do público presente à medida em que a ficha técnica sobe. Vale ressaltar: não se tratava de nenhuma pré-estreia com presença de qualquer integrante da equipe. A reação espontânea é um sinal de que houve conexão e, mais que isso, emoção. Ou seja, algo digno de Elis & Tom. 

discos Capa do disco Elis e Tom
Capa do disco Elis e Tom Crédito: Gravadora Polygram

O álbum, lançado em 1974, é um marco cultural do mundo – não apenas no Brasil. A beleza da voz de Elis se entrelaçando com a maestria de Tom ao piano é uma das experiências musicais mais comoventes da história. Sendo assim, realmente é um tanto estranho que até hoje, quase 50 anos depois, ainda não tivessem feito um filme para narrar os bastidores daquela gravação. 

Processo

É interessante como Elis & Tom, Só tinha de ser com você, o documentário dirigido por Roberto de Oliveira e Jon Tob Azulay, consegue revelar o processo criativo em torno do disco. Mas vai além: também materializa a importância do distanciamento histórico para a compreensão de certos fenômenos. Inclusive os artísticos.

Elis Regina e Tom Jobim, dois gigantes da música brasileira, uniram talentos e sensibilidades em um estúdio de Los Angeles, criando um álbum que transcende fronteiras e gerações. Mas até o álbum ficar pronto, pelo que se vê na tela, foram dias de embates e, por fim, acordos.

A tensão no estúdio, as risadas nos intervalos, e até mesmo os desentendimentos artísticos são apresentados de maneira autêntica, sem romantização. Assim, o filme é uma celebração da arte, mas também uma janela para a complexidade das personalidades envolvidas.

Roteiro

O roteiro assinado por Nelson Motta, em parceria com Roberto de Oliveira, contextualiza a envergadura de cada um dos artistas antes do encontro. Como André Midani (a quem o filme é dedicado) conta, o disco foi um presente que a gravadora Polygram ofereceu a Elis Regina na ocasião dos dez anos de contrato. Ou seja, era um disco dela e não dele.

A filha de Tom, Beth Jobim, foi a principal porta-voz da história dele. Já do lado de Elis, além de vários integrantes da banda participantes do projeto (por exemplo, Paulinho Braga, Hélio Delmiro), também falam César Camargo Mariano, responsável pelos arranjos do álbum e João Marcelo Bôscoli. André Midani, Roberto Menescal, Nelson Motta e o próprio diretor Roberto de Oliveira aparecem como testemunhas oculares dos bastidores da gravação. 

Elis & Tom. Foto: O2 Filmes
Elis & Tom. Foto: O2 Filmes

Complexidades 

Entre os muitos pontos que chamam a atenção, o depoimento de César Camargo Mariano, toca de maneira particular. Tom Jobim era mais do que apenas um músico talentoso; ele era uma lenda viva, um ícone da música brasileira que transcendeu fronteiras e influenciou gerações. 

Lidar com alguém dessa magnitude é uma experiência única (especialmente para um jovem de vinte e poucos anos), mas também pode ser intimidante e desafiadora. O depoimento do pianista, quase 50 anos depois, nos lembra que por trás da genialidade musical de Tom havia um ser humano com as próprias idiossincrasias, expectativas e exigências.

A narrativa nos mostra como Tom era perfeccionista, comprometido com a própria visão artística e muitas vezes intransigente em relação aos arranjos e composições. Isso criou um ambiente tenso e desafiador no início do processo. A história de Elis & Tom nos lembra que as tensões e os conflitos podem coexistir com a criação de obras-primas. 

Sendo assim, o depoimento de César Camargo Mariano nos faz apreciar não apenas a música de Elis & Tom, mas também a humanidade por trás dela. É uma lembrança de que as histórias por trás da música são tão fascinantes e valiosas quanto as próprias canções, e que a verdadeira potência da música está nas relações e nas emoções que ela evoca.

Memória

Mas, emoções colocadas à parte, o documentário sobre Elis & Tom é também um importante trabalho de recuperação e preservação audiovisual. Isso é fundamental na conservação da memória cultural de um país. As imagens inéditas recuperadas, gravadas em 16mm, não apenas nos oferecem um vislumbre dos bastidores desse encontro musical histórico, mas também nos lembram da urgência de preservar e proteger nosso patrimônio.

A montagem cuidadosa dessas imagens, os depoimentos e a narrativa coesa do documentário não apenas nos entretêm, mas também nos educam sobre nosso legado cultural. O filme nos lembra que a história da música brasileira não é apenas sobre os artistas de destaque, mas também sobre todas as pessoas envolvidas na produção e na criação artística.

Assim, Elis & Tom é mais do que apenas um registro dos bastidores de um álbum icônico. É um documento histórico em formato audiovisual, um lembrete de que, mesmo após 50 anos, a música de Elis & Tom continua viva e inspiradora.

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