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11º Fliaraxá – Entrevista com Eliana Alves Cruz: “A literatura tem o poder de congelar o tempo e se aprofundar nele”

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Autora Eliana Alves Cruz homenageada na 11º edição do Festival Literário de Araxá conversou com o Culturadoria sobre sua obra e o Brasil

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Vencedora da última edição do Prêmio Jabuti, a escritora carioca Eliana Alves Cruz foi a grande homenageada do 11º Festival Literário de Araxá – Fliaraxá. A escritora é uma das vozes mais proeminentes da literatura brasileira contemporânea, com obras que transitam pelo romance, pelos contos e pela literatura infantil, por exemplo. Numa ficção marcadamente influenciada pela realidade do país e pelo histórico da população e da cultura afro-brasileira, seus trabalhos refletem sobre temas como o trabalho doméstico, o racismo, as estruturas de poder e a desigualdade social. Autora de livros como “Água de barrela”, “O crime do Cais do Valongo”, “Solitária” [confira aqui a resenha publicada no site sobre o livro] e o volume de contos “A vestida” – vencedor do Prêmio Jabuti nessa categoria em 2022 – Eliana Alves Cruz conversou com a gente durante o Fliaraxá:

Eliana Alves Cruz - Foto Drigo Diniz
Eliana Alves Cruz - Foto Drigo Diniz

O mergulho na sua ancestralidade me parece uma questão importante na sua literatura. Como se dá esse mergulho para reconstruir, recontar essas histórias passadas de geração após geração?

Tem um grande trabalho de pesquisa. Mas antes dessa pesquisa, tem o que a motivação, sabe? Que é uma fome de conhecimento por uma história que eu acho que por muito tempo me foi negada, nos foi negada. Fui uma criança de uma geração que ia para a escola e aprendia coisas sobre o nosso pertencimento – da população negra e da população indígena – que começava a partir do momento de uma violência, ou seja, no caso da população negra, a partir da escravização, no caso da indígena, a partir da invasão no Brasil. 

Então, eu tinha uma fome de saber: O que veio antes, afinal? De onde somos? Essa minha inquietação me fez mergulhar na História e eles estão lá, nossos ancestrais moram nessa História. É uma conexão orgânica, natural e imediata. Há também toda uma questão de afetos, de construções familiares, religiosas e de redes de apoio e amizade que passam por aí também. Mas há principalmente uma fome de conhecimento e um direito de fabular sobre este passado não dito. Eu acho isso está na raiz desses livros e dessas histórias que eu tento construir.

Em “Solitária”, o real invade de maneira bem pungente a ficção. É possível reconhecer ali um acontecimento traumático. Mas, na verdade, há toda uma estrutura social bem característica do Brasil. Me fala sobre o processo de escrita dessa história?

A origem deste livro se dá em meu “Água de barrela”, na personagem Dodô – para quem eu até dedico o “Solitária” – que foi uma ancestral minha. Ela foi aquele caso clássico no Brasil: a menina que sai muito novinha de casa, na adolescência ou pré-adolescência, para trabalhar em outra casa e passa a vida sendo escravizada ali. Esses casos continuam enchendo o noticiário contemporâneo, né? O aqui, o agora. Então isso estava no meu horizonte.

Desde a publicação do “Água de barrela”, essa personagem, em especial, emociona um público específico que tem essa história de trabalho doméstico dentro da própria família. Ou porque são empregadas domésticas ou porque a mãe foi ou a tia, a avó, enfim, né? Então, já estava no meu radar escrever essa personagem. Até que veio a pandemia. Todo mundo foi para uma espécie de prisão, de “solitária” e, nesse processo, muita coisa veio à tona. Inclusive nosso passado escravocrata. Muita gente se confinou, mas não se confinou sozinho. Se confinou com o cozinheiro, a babá, o porteiro, toda uma estrutura foi mantida para continuar servindo essas pessoas. Eu pensei, olha como o Brasil ainda é muito colonial. Decidi que precisava escrever esse livro naquele momento.

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Até que veio também o caso do menino Miguel [Miguel Otávio Santana da Silva, de 5 anos, que morreu após cair do 9º andar de um prédio de luxo no Centro do Recife]. Aquilo ali foi a gota d’água para que eu decidisse escrever o livro. Acho que a literatura, para além da fabulação, tem o papel de testemunhar o tempo. Senti a necessidade de ali, naquele momento, fazer uma espécie de fotografia de determinadas coisas para que elas não ficassem soterradas nos noticiários. O noticiário é isso: uma sucessão de acontecimentos, de tragédias, até que a gente vai naturalizando uma certa dor, naturalizando o inominável, o indefensável. A literatura tem o poder de congelar o tempo e se aprofundar nele.

O livro, como você disse, tem uma conexão com o agora, mas ele também tenta imaginar um futuro diferente para essas personagens. Foi assim que “Solitária” nasceu e se desenvolveu. Eu quis, por exemplo, que fosse um livro curto, pois eu queria que ele se comunicasse com todas essas pessoas, todas essas vozes. E ele tem comunicado justamente com esse público. Um público que eu queria que o lesse e pensasse sobre a própria existência. 

Acho a construção narrativa de “Solitária” bem especial. Esses dois pontos de vista, mãe e filha, duas gerações de mulheres negras, com suas especificidades e seus pontos de contato. Mas, ainda, temos uma terceira voz que me surpreendeu. É um desafio, encontrar novas formas, novas maneiras de contar uma história?

Eu sempre fico pensando em quem pode contar a história de um ângulo, senão novo, pelo menos pouco visto, sabe? Assim, eu fiquei pensando sobre esses cômodos de uma casa. Engraçado como a arquitetura me ajudou muito nesse livro. Essa coisa do “quartinho de empregada”. Quando se fala em empregada doméstica, sua cabeça vai direto para esse cômodo. Pessoas que trabalham e habitam um espaço muito reduzido da casa. Não teve como não pensar nesse espaço e não pensar na arquitetura toda da casa. 

Em minhas pesquisas, encontrei alguns trabalhos muito interessantes e um deles analisa apartamentos de classe média alta de São Paulo. É um trabalho incrível, porque a pesquisa começou descrevendo um engenho, a organização de um engenho de cana-de-açúcar na época da escravidão e da colonização. Aqui era a capela, aqui a casa grande, ali a plantação e ali a senzala. Quando você vira a página, a pesquisa mostra a planta de um apartamento. E, uau, é a mesma lógica. Onde ficava a senzala, fica o cômodo dos empregados, na sala era a casa grande. Então, é uma atualização daquilo, sabe? 

Se esses cômodos falassem, o que eles diriam? Me vieram várias situações e decidi colocá-los para falar. Tentei olhar com profundidade essa espécie de sujeito oculto, como se fosse um fantasma que ninguém vê. As paredes têm ouvidos e também têm bocas. Elas falam muito. Elas me falam da organização de uma casa, de quem a habita. Esses cômodos são testemunhas de toda uma estrutura que precisa mudar.

Para você, a literatura é uma possibilidade de, digamos, um “desapagamento”? De ouvir e projetar vozes constantemente silenciadas pela história oficial desde o início do nosso projeto de país?

Eu acho que é mais uma ferramenta pra isso. Como se tivessem jogado um manto

de invisibilidade sobre uma parcela gigantesca da nossa população. O Brasil é um continente. Eu acho que é uma forma de trazer de volta essas pessoas, esse coletivo. Voz essas pessoas sempre sempre tiveram, né? Elas não tinham microfone. Então, se eu estou aqui hoje no Fliaraxá sendo homenageada e escrevendo, se você está aqui me entrevistando é porque alguém em algum momento falou alguma coisa.  Não se contentou em ficar num cantinho do incômodo, no cantinho do silêncio. Há preços a serem pagos quando você tem essa estrutura opressora e não se contenta em ficar nesse cantinho do silêncio. E eu sou muito grata à essas pessoas. Somos tributários de muita gente, somos fruto de uma grande fileira da humanidade. Nada mais natural que isso esteja dentro da nossa literatura.

Encontre os livros da autora Eliana Alves Cruz aqui

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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