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No mundo de Efe Godoy

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Em entrevista, Efe Godoy fala sobre arte, sonhos, passado, perspectivas de futuro e transformações

Por Helena Tomaz | Assistente de Conteúdo

No papel ou na tela, Efe Godoy elabora seus hibridismos – e, assim, plantas se mesclam a formas animais e pessoas se unem a flores, para citar alguns exemplos. Na verdade, os traços da artista – que ganham vida por meio da técnica da aquarela – são, também, um reflexo de quem ela é – e vice e versa. Não é à toa que Efe diz considerar um grande elogio quando escuta que ela própria se parece com um desenho – o que, diga-se, acontece com frequência.

Efe Godoy posa em frente a um mural pintado por ela mesma. Na pintura, folhas saem de um tronco humano com os braços cruzados. Ela é uma mulher transsexual, parda, com tatuagens e cabelo inteiramente rosa. Também usa roupas no mesmo tom do cabelo.
Efe Godoy posa em frente a uma pintura própria. Foto: Mariana Caldas.

Prestes a completar 35 anos (idade que, segundo pesquisas, marca a expectativa de vida de mulheres trans, como ela), Efe Godoy vem expandindo cada dia mais os horizontes de sua vida profissional e pessoal. Recentemente, realizou uma exposição – que foi sucesso de público – na Galeria Celma Albuquerque (atual Albuquerque Contemporânea). Também assinou a identidade visual do Festival ELAS e, não bastasse, lançou uma coleção de cadernos em parceria com a conhecida marca de papelaria Cícero.

Em entrevista ao Culturadoria, Efe adianta que está para realizar outros grandes sonhos no próximo ano – entre eles, morar em Paris. E confessa, ainda, que está contente com o que conquistou até aqui. Confira, a seguir, outros trechos do bate-papo.

Me conta um pouquinho sobre a sua história com a arte? Li que as coisas começaram com uma leitura de mãos na sua infância e fiquei super curiosa!

Com sete anos de idade, eu tive uma leitura de mãos, com uma senhora chamada Carmen, no Rio de Janeiro. Ela pegou a minha mão, leu e disse: “Está escrito aqui: você vai ser artista.” E eu acreditei. É muito mágico quando isso acontece na infância, né? A gente ganha um empurrãozinho e as coisas vão acontecendo. Todo o meu trabalho tem uma força grande vinda da infância. Eu adoro ler Clarice Lispector, [porque] ela também traz referências da infância para o trabalho dela.

Bom, e aí foi isso. Desde criança, eu sempre desenhei, desde antes dessa leitura. A minha mãe é professora do estado – hoje aposentada -, então, sempre tive muitos materiais em casa, como folhas coloridas e canetinhas. Quando ela saía para trabalhar, eu pegava essas coisas e ficava criando. Até que um dia ela comprou um armário com chave para guardar as coisas que usava em sala de aula, porque eu estava acabando com tudo. E aí aprendi a abrir esse armário, você acredita? [risos] Eu usava tudo e fingia que nada tinha acontecido. Hoje em dia, a gente ri disso, mas ela ficava desesperada, porque eu acabava com os materiais dela. Eu e a minha mãe temos uma relação muito boa, então, sinto que ela é uma grande incentivadora da minha carreira.

Depois disso, no Ensino Médio, não tinha mais dúvidas de que queria fazer arte, que queria fazer UFMG. Eu não conhecia a Escola Guignard, minha madrinha que me apresentou. Eu me apaixonei pela Escola e comecei lá. Mudei para BH em 2011, para começar o curso de Artes Visuais, e acabei ficando.

Depois disso, no Ensino Médio, não tinha mais dúvidas de que queria fazer arte, que queria fazer UFMG. Eu não conhecia a Escola Guignard, minha madrinha que me apresentou. Eu me apaixonei pela Escola e comecei lá. Mudei para BH em 2011, para começar o curso de Artes Visuais, e acabei ficando.

Você falou um pouco sobre a sua infância, que dialoga com a sua arte. Pode falar mais sobre isso?

Bom, a minha família por parte de pai é uma família de artistas. A minha avó era pianista para aulas de ballet, mas, na verdade, não a conheci. Queria muito ter conhecido. Essas histórias da infância foram carregadas, do tipo: “Ah, você vai ser artista, sua avó também foi artista”. E, por parte de mãe, o meu avô desenhava croquis para casa. Engenheiro, né? Mas eu também não o conheci. Tive contato com essas coisas, mas não conheci meus avós, ficava sempre aquela “nuvem”.

Na infância, eu passava muito tempo desenhando – eu sou uma pessoa que desenha todo dia -, até achei que fosse ser cartunista ou algo do tipo, que fosse só dar vazão ao desenho. Só quando conheci a Escola Guignard é que entendi que também poderia fazer performance e outras coisas ligadas à arte contemporânea. Coisas que eu nem fazia ideia.

E como funciona o seu processo criativo? Você é mais disciplinada ou mais espontânea? Você disse que você desenha todos os dias…

Eu sou muito disciplinada. Se eu não desenhar no dia, fica faltando alguma coisa. Diariamente, tento pegar um caderninho e ficar rabiscando, ou pegar algumas folhas e fazer uma aquarela. Hoje mesmo, eu dei uma aquareladinha, mas ainda vou acabar esse desenho. É isso: eu tento separar pelo menos uma hora do dia para fazer alguma coisa nesse sentido. Bem analógica mesmo! Hoje em dia, eu até tenho feito alguns desenhos mais digitais, mas o que amo mesmo é pegar no lápis e no pincel. É uma coisa religiosa, quase.

Você tem um estilo super característico, que eu percebo que vai além do papel, que está na sua forma de vestir, no seu cabelo, na sua identidade. Você parece um desenho feito por você mesma! Como chegou nesse estilo?

Eu acho que foi uma busca mesmo. Mas foi acontecendo muito naturalmente. Já me falaram que eu pareço um desenho meu, e isso não foi uma coisa que busquei tanto, foi acontecendo bem naturalmente. Claro que a gente vai elegendo coisas, cores, mas eu gosto disso, de artistas que se parecem com os próprios trabalhos. Eu me apaixono por isso! E acho que isso foi puxando para que eu me parecesse com meus próprios trabalhos.

Tem uma curiosidade também: eu não costumo assinar os meus trabalhos, porque acho que interfere muito. Como a minha mãe era professora de alfabetização, entendi que a escrita também é um desenho. Geralmente, meus desenhos já estão em um lugar meio vazio, então, penso que colocar uma assinatura ali muda tudo. Se a pessoa ver um desenho, ela vai saber que é meu, mas não vai ter uma assinatura. Entendo que na hora que a gente consegue isso, realmente está atingindo uma identidade visual.

E isso que você disse, para mim, é um super elogio! Quando alguém diz que eu pareço um desenho meu, amo!

Recentemente você também expôs na Galeria Celma Albuquerque, que te representa. Como é preparar um trabalho como esse, em que as obras dialogam entre si? Como foi o processo?

Exposições sempre nascem de processos. Eu moro no meu ateliê, então, acordo e durmo já com coisas acontecendo. Essa mais recente exposição, “Conversas telepáticas sobre assuntos preferidos”, bebe muito do meu contato com algumas plantas, inclusive a ayahuasca e os cogumelos. Todas as pinturas foram feitas sob efeito de plantas, e foi um processo bem intenso. Eu comecei a ver, por exemplo, o meu corpo virando uma orquídea. Tem um processo de entender a própria sexualidade na flor, que tem o órgão feminino e o masculino ao mesmo tempo. Eu comecei a ver isso no corpo trans e virou uma pesquisa. Ali [na exposição] eu mostrei um pedaço, uma parte dessa pesquisa.
Eu já tinha mostrado algumas pinturas para a minha galerista e ela sugeriu mostrar isso lá [na Galeria Celma Albuquerque]. Eu disse que sim, mas que ainda tinha poucas pinturas. Foi nesse processo que comecei a pintar mais. E ainda estou aqui, pintando algumas coisas, para essa exposição continuar em outros espaços.

E como foi a recepção do público?

Nossa, a galeria ficou lotada no dia da abertura, eu fiquei chocada! Foi muito legal, porque as pessoas estão sempre esperando desenhos, porque é o que eu mais faço, e, ali, era uma exposição só de pinturas. Então, muitas pessoas ficaram surpresas, o que foi bom. Acho que mostrou um outro lado, o da Efe pintora mesmo.

Como você disse, você tem dez anos de carreira. Nesse período, já alcançou muitas coisas. Quais são as suas aspirações profissionais para daqui em diante?

Eu estou muito interessada em transformar meus desenhos em esculturas, em crescer esses desenhos e fazer com que eles ocupem espaços. Isso é o que eu almejo. Quero também sair daqui, começar a fazer exposições fora. O que eu mais tenho gostado de fazer são residências. Eu estava vendo o meu portfólio e contei que já fiz 14 residências. Ano que vem, eu vou ficar três meses em Paris. Então, vou concretizar o meu grande sonho de ir para aquela cidade! Estou até fazendo aulas de francês, antes dessa entrevista, aliás, estava acabando um dever!
Alcançar esses lugares com o trabalho de arte tem sido [ gesticula, como a dizer: “incrível!”]. Eu não conheceria muitos países se não fosse a arte na minha vida. Então tem sido uma missão: conhecer pessoas, lugares e espalhar afeto através de criação de imagem.

No site do Prêmio PIPA, tem um texto que fala sobre o seu objetivo de reverberação da palavra afeto. Dentre tantas outras palavras que poderiam ser escolhidas, você escolheu “afeto”. Por quê?

Ai, eu não sei direito. De alguma forma, essa palavra me cativa desde muito cedo. Ela até ficou meio obsoleta por um tempo. E, de tanto as pessoas a usarem, acabei ficando com birra. Mas ela reapareceu no meu processo e eu sinto que, por eu ser, também, um corpo trans, as pessoas, às vezes, acham que nós vamos ser mais agressivas. Claro que o corpo trans já é um corpo calejado e, por isso, as meninas já estão sempre armadas, prontas para se defender. E eu tenho, cada vez mais, achado que o afeto é a chave para resolver questões. Com afeto não haveria guerra, tudo é conversado, tudo é transformado. Afeto é estar aberta para receber e também para doar-se.

Algo que queira acrescentar?

Eu estou nessa fase de me sentir velha. Neste ano eu faço 35 anos e a expectativa de vida de uma pessoa travesti é de 35 anos. Então, eu fico pensando: “Nossa, esse é o ano da morte. O que eu já fiz até hoje? O que poderia ter feito?”. Mas, depois, penso: “Paciência.” As coisas acontecem no tempo das coisas.

Eu também pensava nisso quando entrei na faculdade, pensava em onde gostaria de estar dali a dez anos. E acho que eu estou em um lugar em que gostaria de estar. Produzindo, podendo ter contato com várias áreas, também.

Recentemente, eu fiz a identidade visual do Festival ELAS, que foi super legal. Ilustrar livros, lancei a coleção com a Cícero… São coisas muito legais, que envolvem  a arte, mas, que, ao mesmo tempo, não são propriamente arte. Então, dá para atuar em muitas frentes de trabalho. Eu tenho ficado feliz com isso.

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