Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

“A Estrela Cadente” e o estilo do casal Dominique Abel e Fiona Gordon

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Os atores belgas Dominique Abel e Fiona Gordon, que são um casal na vida real, voltam ao insólito e burlesco, em filme que, infelizmente, não deve fazer sucesso no Brasil

Patrícia Cassese | Editora Assistente

É provável que “A Estrela Cadente” (L’Étoile Filante, 2023), filme que está em cartaz na cidade, não obtenha êxito de bilheteria por aqui, tampouco agrade a todos que se dispuserem a assisti-lo. E isso é uma pena. O motivo que pode levar a essa reação é claro: para entender as opções narrativas e estéticas do longa, me parece ser necessário já ter uma certa familiaridade com a obra do casal de atores belgas Dominique Abel e Fiona Gordon. Isso porque os dois se valem de características muito peculiares, que fazem mais sentido dentro de uma contextualização.

Cena da produção franco-belga "A Estrela Cadente", em cartaz na cidade (Pandora/Sinny/Divulgação)
Cena da produção franco-belga "A Estrela Cadente", em cartaz na cidade (Pandora/Sinny/Divulgação)

Mescla

Primeiramente, é preciso dizer que ambos vêm do universo do teatro, cuja linguagem optaram por incorporar ao cinema. Em ambas as searas, também mostram apreço particular por uma mescla de linguagens, que incluem o burlesco e o clown. Não bastasse, adotam um visual bem peculiar no écran, marcado principalmente por um jogo de cores, que se revela principalmente nas cenas passadas em ambientes internos. No entanto, que ninguém pense em Pedro Almodóvar, outro cineasta que se vale deste recurso de modo marcante.

No caso do espanhol, há um acento kitsch, inclusive com estampas coloridas. No caso do casal Dominique e Fiona, os jogos cromáticos lembram mais a Escola de Bauhaus, por exemplo. Ou, em alguns momentos, o universo de Jacques Tati, que é uma influência da dupla. Um outro ponto notável é a economia de falas. Em cena, há mais movimentos corporais, muitas vezes divertidamente sincronizados com a música.

“Perdidos em Paris”

Vale dizer que, na edição de 2017 do Festival Varilux de Cinema, Fiona e Dominique estiveram presentes com “Perdidos em Paris” (“Paris pieds nus”). O filme é simplesmente uma graça, e, sinceramente, poderia ter sido um novo Amélie Poulain. Além disso, foi o último papel de Emmanuelle Riva, que faleceu no ano seguinte ao lançamento.

No Varilux, o material informativo dos filmes trazia uma descrição bem apropriada para o casal, lembrando a sintonia com o universo de Buster Keaton, Chaplin, Jacques Tati e da série de humor francesa Deschiens. Há mais um componente a ser notado. Os dois se jogam em cena sem medo de incorrer no ridículo, se apresentando “feios”, destituídos de vaidade, principalmente por conta das expressões faciais das quais se utilizam.

O passado retorna à cena

Todo este preâmbulo é para dizer que “Estrela Cadente” é bom divertido e provoca muitas risadas. Mas precisaria, como dissemos, de um público conhecedor do universo de Fiona e Dominique. Aliás, não só conhecedor, mas apreciador. Em cena, há um barman – Boris (Dominique) – que, no passado, participou de um atentado – desde então, vive na clandestinidade. Porém, certo dia, um homem invade o local para disparar tiros em direção a ele.

Trata-se de um sobrevivente do tal atentado, que, porém, perdeu um braço. O acerto de contas é frustrado, mas Boris sabe que é só uma questão de tempo. Daí, quando, junto a um amigo, Tim (a cara do Gérard Depardieu), encontra um sósia, Dom (também vivido pelo ator), não pensa duas vezes em enganá-lo, colocando detrás do balcão do bar. Boris, por sua vez, vai assumir a vida do homem.

Elementos

Ocorre que, na cabeça dos dois, o homem é sozinho na vida, o que, na verdade, não procede. Além de um cão fiel, ele tem uma ex-mulher, Fiona (Fiona Gordon) que aparece no caminho, atrapalhando o plano. Ela, por sua vez, atua como detetive particular de modo bem peculiar. No curso do filme, investiga o sumiço de um cachorro. Há muitos detalhes no filme que poderiam ser, aqui, citados. Há elementos poéticos, há boa música, cenas engraçadas, movimentos coordenados, boas atuações, exageros estilísticos propositais…

Em suma, não alcança o brilhantismo de “Perdidos em Paris”, mas, por meio da comédia, garante boa diversão. Ao menos, para aqueles enfronhados no universo do casal – e fãs dele, como a autora dessas linhas. Ah, sim! O filme foi exibido no Festival de Locarno e ganhador do Prêmio do Júri no Beaujolais Meetings of French-speaking Cinema. No Brasil, a distribuição é da Pandora Filmes.

Confira, a seguir, o trailer

Serviço

Cinema do Centro Cultural Unimed-BH Minas – Sala 1 | 16h10 

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