Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Dois filmes, uma juíza e a importância das mulheres na justiça

A juíza Ruth Bader Ginsburg foi personagem de um filme de ficção e um documentário. A carreira dela serve de inspiração para a luta por mais igualdade nos tribunais.
A Juíza Ruth Barber Ginsburg na justiça americana. Foto: Steve Petteway /Suprema Corte dos EUA

A primeira cena de Suprema (2018) não sai da minha cabeça toda vez que eu penso na relação entre as mulheres e a justiça. Claro que ela voltou com toda a força depois do caso absurdo do “estupro culposo” que tomou as redes sociais nesta terça, 3 de novembro. Estupro sem dolo foi a tese defendida por um promotor branco e acatada por um juiz, também branco, para julgar um caso de estupro de uma mulher no Brasil. Acontece que “estupro culposo” não existe.

A surrealidade do caso faz pensar como ainda em 2020 a pouca representatividade e igualdade nos tribunais – tanto de gênero como de raça – ainda gera esse tipo de erro. A juíza norte-americana Ruth Bader Ginsburg, personagem retratada em Suprema (disponível na Prime Vídeo) e que também teve a vida contada no documentário A Juíza (disponível no Telecine Play) se tornou um símbolo de luta pela equidade. Ela morreu em setembro de 2020.

A ficção

O primeiro filme, protagonizado por Felicity Jones, começa assim: homens, muitos homens – muitos mesmo – caminham em direção à Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, em 1956. Todos impecavelmente de terno para o primeiro dia de aula. No meio deles, os cabelos saltitantes de uma moça de vestido de azul. Ela é Ruth Bader Ginsburg, personagem real que inspira o filme da diretora Mimi Leder (The Leftovers).

No Brasil, a produção ganhou o título de Suprema mas o nome original condiz mais: On the Basis of Sex, ou seja, Na base do sexo. Homens, brancos e héteros dominam a justiça. Desde sempre. Então, algumas sentenças são mesmo decididas na base do gênero. Quem sai dessa norma, tem feito história. É exatamente o que o longa conta a partir da história de Ruth. 

Ela foi uma das pouquíssimas nove alunas do curso de direito de Harvard em 1956. Batalhou para se formar. Depois, para conseguir atuar na área, assumiu casos importantíssimos que lidavam justamente com a busca de justiça e igualdade para as mulheres. Bill Clinton a escolheu para uma das vagas na Suprema Corte dos Estados Unidos em 1993. 

O filme de ficção mostra a jovem apaixonada pelo trabalho, o apoio do marido e dos filhos na construção de uma carreira íntegra. A trama termina depois da primeira experiência dela em um tribunal. É uma jornada sobre uma mulher de fibra, que não desistiu de seus sonhos, não abriu mão de seus valores, mas teve que desenvolver muita resiliência para chegar onde chegou e fazer história.

A atriz Felicity Jones no filme sobre Ruth Bader Ginsburg. Foto: Prime Video/Divulgação

O documentário

Já o documentário A Juíza (2018) nos apresenta não só Ruth Bader Ginsburg real, mas a mulher madura, equilibrada, séria e com um aguçado senso de humor que virou celebridade nos Estados Unidos. Sim, Notorious RGB, como passou a ser chamada pelos jovens, foi transformada até em meme

A dupla de mulheres Julie Cohen e Betsy West dirigiu o longa. O objetivo delas é mostrar como a atuação de Ruth Bader Ginsburg na justiça foi peça importante para atualização de normas, leis e afins relacionada a igualdade de direitos entre homens e mulheres. A sociedade mudou e a justiça precisava mudar também. Ruth esteve lá para isso. Lutou para isso.

Indicado ao Oscar em 2019, o documentário tem estrutura tradicional. Reúne diversas entrevistas de pessoas do convívio da personagem. A medida em que a própria Ruth vai aparecendo em entrevistas, fui refletindo sobre como uma mulher aparentemente de corpo tão frágil pode ser tão forte. Pensei também sobre o estereótipo traçado para as pessoas que lutam e são combativas. Ruth prova que para fazer diferença na história não precisa falar alto e nem partir para a briga. Construiu uma carreira brilhante sustentada pelo trabalho e a discrição. Enfim, é uma mulher inspiradora. 

Quando vi a notícia seguida da polêmica sobre o “estupro culposo” imediatamente me lembrei de Ruth Bader Ginsburg. Tenho certeza que na justiça brasileira tem mulheres fazendo trabalho semelhante. Eu gostaria de conhecê-las. E mais: gostaria que o julgamento de casos como o de Mariana Ferrer fosse julgado por elas. Talvez assim não precisaríamos de sair por aí lembrando que “estupro culposo” não existe.

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