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Documentários da 15ª CineOP exploram imagens na contramão das narrativas midiáticas

Diretores de "Cadê Edson?" e "Wilsinho Galileia" falaram sobre o processo de produção dos filmes e abordagens que tentam ir contra o discurso tradicional da mídia

Por Jaiane Souza *

05/09/2020 às 11:54 | *Colaborador

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Filme "Cadê Edson?", de Dácia Ibiapina. Crédito: Trotoar Serviços Audiovisuais Ltda ME

Os documentários são presença forte em toda CineOP. Dácia Ibiapina, diretora do filme Cadê Edson?, usou em seu filme imagens que a mídia fez para desconstruir e contrapor o próprio discurso que ela mesma construiu. O longa está disponível na programação ao lado de Wilsinho Galiléia, de João Batista de Andrade, e de vários outros títulos, até o dia 7 de setembro no site da CineOP. Os dois documentários são completamente diferentes, mas têm algo em comum: uma narrativa inquieta sobre questões caras ao Brasil e que merecem profunda reflexão para uma tentativa de mudar a realidade

Para discutir o assunto, ambos os diretores, mediados pelo curador Francis Vogner dos Reis, participaram do debate “Imagens na contramão das narrativas midiáticas”, que também fez parte da programação da mostra. Eles contaram sobre o processo de produção dos longas, responderam perguntas e deram recados importantes.

Cadê Edson?

Cadê Edson? é fruto de Ressurgentes: um filme de ação direta. Enquanto a cineasta filma, em 2012, no Distrito Federal, acompanhando os movimentos políticos autônomos, foi convidada a conhecer uma ocupação urbana do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). “Então, nós fomos para Ceilândia à noite, na véspera do aniversário de Brasília, e lá eu conheci o Edson, naquela lida de coordenar a ocupação”, relembra Dácia. “Eu fiquei muito impactada com a energia que ele apresentou em um momento como aquele, um destemor. A presença física dele me tocou muito”.

E é justamente esse destemor que nós vemos no filme. No meio tempo em que conheceu Edson e o reencontrou novamente para rodar o filme, ele foi preso, bem como a esposa e os companheiros de movimento. “A imagem que fizeram dele na mídia me chocou muito. Fizeram como se fosse um bandido, alguém perigoso, mal encarado, e eu sabia que não era assim. Então propus a ele de fazermos um documentário”, revelou Ibiapina.

Dessa forma, um dos episódios retratados foi a desocupação da Torre Palace, um prédio vazio que foi ocupado pelo MTST. As imagens da retomada do edifício e da violência da Polícia Militar são algumas cenas mais forte do filme que também foi construído com arquivos de noticiário recolhidos por Dácia (aquelas que construíram a imagem do homem violento) e filmagens da própria polícia.

Veja o filme aqui. 

Filme “Wilsinho Galileia”, de João Batista de Andrade. Crédito: Raiz Produções Cinematográficas, TV Globo: o  n

Wilsinho da Galiléia

Por outro lado, João Batista de Andrade esteve literalmente dentro da mídia. Ele foi repórter especial do Globo Repórter na década de 1970. Nesses anos, produziu trabalhos importantes, como, por exemplo, Caso Norte, filme que aborda a migração nordestina para o Sudeste brasileiro. A produção se destacou pela união entre ficção e realidade, já que o diretor uniu relatos e depoimentos reais com atuação.

Por outro lado, Wilsinho da Galiléia (1978), em debate ao lado de Cadê Edson?, foi censurado pela diretoria do programa por causa do teor crítico da abordagem do protagonista. O filme é a reconstrução da vida de Wilsinho, que, desde os 14 anos estava envolvido com a criminalidade e na mira da polícia. Por fim, foi fuzilado pela polícia na casa da namorada. 

“Uma coisa permanente na minha vida como cineasta é tentar tirar a névoa e ver o que está por trás dela”, destacou João Batista. A proibição da exibição do especial na televisão vai de encontro com a reflexão que Dácia fez ao construir o seu filme também. “A mídia constrói figuras que ela considera como bandidos e depois essas pessoas são mortas”, contou Andrade. 

O papel da sociedade e da política

João Batista contou que percebeu ao longo das suas produções que a sociedade também constrói imagens e preconceitos difíceis de quebrar. O famoso e velado racismo e a falta de consciência de classe está tão presente nas camadas cognitivas individuais e coletivas de cada um que uma pessoa negra e pobre sempre vai ser vista sob uma perspectiva marginalizada. 

“Se tivesse política real de interesse da sociedade esses homens, esses garotos teriam chance de pegar a sua revolta e colocar em transformadores. Como não têm eles entram em movimentos de violência ou engolem tudo aquilo e passam a viver com essa humilhação a vida inteira, até a morte”, concluiu Andrade.

Outras produções de destaque do cineasta são Doramundo, que foi premiado em Gramado com o Kikito de melhor diretor em 1978, e O homem que virou suco, que levou melhor roteiro em 1981. 

Veja Wilsinho da Galileia na 15ª CineOP aqui. 

Veja o bate-papo completo sobre os documentários na 15ª CineOP.

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