Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Daniel Moreira apresenta exposição “Bordas Não Brotam do Nada”

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Até 30 de junho, o fotógrafo e artista visual Daniel Moreira expõe 44 fotografias, em formatos variados, no Centro Cultural Unimed-BH Minas

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Em cartaz no Centro Cultural Unimed-BH Minas, a mostra “Bordas não Brotam do Nada”, com obras do artista visual Daniel Moreira, abre o calendário 2024 da galeria do referido espaço. Assim, estão sendo exibidas 44 fotografias, coloridas e P&B, em formatos variados, retiradas do livro homônimo do fotógrafo. Tal qual, algumas nunca antes apresentadas. Não bastasse, há uma videoinstalação inédita. A exposição tem curadoria do fotógrafo, mestre em comunicação e curador independente Eder Chiodetto. A visitação prosseguirá até o dia 30 de junho. A classificação é livre e a entrada é franca.

“Bordas não brotam do nada” é o nome da primeira exposição em 2024 da Galeria de Arte do Centro Cultural Unimed-BH Minas (Foto: Patrícia Cassese)
“Bordas não brotam do nada” é o nome da primeira exposição em 2024 da Galeria de Arte do Centro Cultural Unimed-BH Minas (Foto: Patrícia Cassese)

Pesquisa em torno de periferias

Ao Culturadoria, Daniel Moreira revela que os trabalhos que compõem a exposição “Bordas não Brotam do Nada” foram extraídos das várias séries fotográficas que desenvolveu ao longo de 15 anos. “Período no qual o meu interesse foram as construções – sociais, poéticas, visuais – que englobam as periferias das grandes, médias e pequenas cidades brasileiras”. O artista pontua que a exposição em si não foca um determinado recorte de produção. “Percebemos (referindo-se a ele e ao curador) que, mesmo vindo de séries diferentes, as fotos expostas conversam visualmente e conceitualmente entre si”.

Foto de Daniel Moreira presente na mostra "Bordas Não Brotam do Nada" (foto do artista/MTC/Divulgação)

Sendo assim, há obras de 2009 a 2024. “Porém, o objetivo central é o mesmo, que é essa pesquisa visual em torno das periferias das cidades brasileiras. Como se formam as relações sociais e familiares, a convivência, como se dá a relação entre centro e periferia…”, elenca.

Outra foto de Daniel Moreira, que também está em exposição (MTC/Divulgação)
Outra foto de Daniel Moreira, que também está em exposição (MTC/Divulgação)

Desacelerando processos

Perguntado sobre o que, por meio do olhar de fotógrafo, procura, Daniel Moreira é certeiro. “Bom, tecnicamente, é cada vez mais desacelerar o meu processo de produção. Essa estética que a gente vem vivenciando já algum tempo, da imagem digital, isso tem me incomodado muito. A quantidade de imagens geradas sobre um determinado assunto não dá tempo para se refletir sobre o que tem sido produzido. Então, como artista visual, fotógrafo, não me interessa chegar em um espaço e tirar 500 mil fotos numa manhã, que geralmente é o que as pessoas fazem”.

Ou seja, as fotos que estão ali, na exposição, prossegue Daniel, por vezes são fruto de dois, três cliques no máximo. “Mas, claro, isso (essa dinâmica) leva um tempo para se conseguir. Eu fui trabalhando isso internamente, na minha pesquisa. Assim, fui percebendo que não é a quantidade que vai fazer o trabalho reverberar. Na verdade é a reflexão. Ou seja, a foto é só o resultado de uma reflexão e de um processo que foi gerado”.

O processo, e não o resultado

Na parte conceitual, Daniel diz que, hoje, se importa menos com o resultado final da foto e mais com o processo que precede o clique, ou seja, a convivência e de diálogo com as pessoas que vai fotografar. “Mesmo que o foco seja paisagens ou objetos, tenho buscado cada vez mais pensar e refletir. Volto ao que já disse. Cada vez mais, percebo que a foto em si, a matéria física, é o resultado final de algo muito maior, de algo que foi construído”.

Já se o que está em foco for uma pessoa, prossegue Daniel Moreira, o uso da câmara se dá apenas após um período de convivência e diálogo. “Ou seja, procuro fazer com que o ato fotográfico, a captura da imagem, seja a finalização desse processo”.

Videoinstalação

A exposição traz uma videoinstalação inédita, “Almoçando com Dona Januária”. “Na verdade, eu já tinha essa ideia há algum tempo e essa oportunidade da exposição me possibilitou produzi-la. O vídeo traz a Dona Januária almoçando e olhando para o espectador”. Daniel Moreira conta que conheceu Januária alguns anos atrás, enquanto fotografava a Ocupação Vila Joana d’Arc. “Ela foi uma das primeiras moradoras, e ajudou a alimentar muita gente. Primeiramente, vendendo comida para os que chegavam. No entanto, mesmo quem não podia pagar, ela não deixava de alimentar. E assim até hoje faz”, revela Daniel.

Aliás, ele conta esteve recentemente na casa dela, já para fazer o vídeo. “Na ocasião, ela tinha feito um monte de comida, porque várias pessoas chegam, almoçam com ela. E ela costuma falar para as pessoas levarem para os filhos, levar pra casa, enfim. Então, a história da Dona Januária em si me emocionou muito. Fiquei pensando: ‘Poxa, como que uma pessoa que já alimentou tantas outras não é conhecida? As pessoas não sabem dessa história”, indigna-se Daniel.

Almoço com Dona Januária

Na cabeça do artista, veio o inconformismo de perceber que, em um país como o Brasil, com tanta desigualdade, se uma pessoa como Januária consegue fazer tanto, porque os governos não conseguem acabar com a fome. “Algo que é tão primordial!” Assim, o vídeo traz a Dona Januária almoçando, olhando para o espectador em frente ao vídeo, há uma mesa. “Que a mesa que a gente gravou, com o paninho dela e tudo que ela põe em cima da mesa, bem como a cadeira na qual ela estava sentada”.

Desse modo, o espectador é convidado “a almoçar” com ela. “Ou seja, está do outro lado da mesa almoçando com a Dona Januária. Como ela é moradora de uma ocupação, e geralmente os frequentadores do Minas são pessoas de classe média/classe média alta, com o vídeo, a proposta é criar um diálogo entre esses mundos tão distantes, ainda que as pessoas, na verdade, morem perto. Porque à periferia de Belo Horizonte é possível chegar em 20 minutos. Então, é uma obra que, acho, leva a uma reflexão”.

Andarilhos

Imagens de um série sobre andarilhos também marcam presença na mostra. “Foi um trabalho que desenvolvi ao longo de cinco anos, na BR 381, trecho conhecido como Rodovia da Morte, na saída de Minas Gerais para a Bahia e Espírito Santo. Passei esse tempo todo fotografando a dinâmica dessa rodovia. E daí surgiram esses ‘profetas’, posso dizer assim, das rodovias”, conta Daniel.

O artista conta que já vinha pensando em trabalhar essa linha entre as técnicas do fazer artístico. “São fotografias, mas os andarilhos se assemelham a esculturas, e mais precisamente, a esculturas relacionadas aos profetas do Mestre Aleijadinho, de Congonhas. Então, as obras estão dispostas no chão como esculturas mesmo. Veja, a estrada é o limite da borda, então, ali, você está no limbo, porque está na estrada que interliga as cidades”.

Catadores

A mostra também traz dois dípticos. “São parte de um trabalho que fiz em 2014, onde fotografo catadores de resíduos para reciclagem e, tal qual, cavalos de carroceiros. Nele, busco uma reflexão entre a força humana como tração animal, e indago como pode tudo ter evoluído tanto, mas ainda existir essas pessoas que vivem da força bruta como forma de sobrevivência”.

No material enviado à imprensa, sobre a mostra, Eder Chiodetto, curador da exposição, diz: “Daniel consegue algo muito importante na produção fotográfica. “Em suas imagens há empatia, doçura e o olho no olho. As pessoas abrem e mostram suas casas para Daniel, ficam entregues, inteiras. Dessa forma, ele quebra a fronteira entre o documental e o experimental, transformando suas fotos em documentos/arte”.

Serviço

Bordas Não Brotam do Nada”, de Daniel Moreira

Onde. Centro Cultural Unimed-BH Minas (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes)

Quando. Até 30 de junho de 2024, de terça a sábado, das 10h às 20h. Domingos e feriados, das 11h às 19h.

Quanto. Entrada franca

Classificação: livre

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