fbpx
Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Curadoria: qual o papel nas artes cênicas?

Curadora Italiana Piersandra Di Matteo ministra curso In-Betweennes – Reciprocidade e dramaturgia urbana na curadoria de artes cênicas em BH

Por Jaiane Souza *

10/12/2019 às 15:50 | * Escreveu com a supervisão de Carolina Braga

Publicidade - Portal UAI
Foto: Guido Mencari

Definir práticas de pensamento, produzir contextos, temporalidades. São estes alguns dos desafios de quem se dedica à curadoria. São características que podem se aplicar, por exemplo, às artes visuais, à música, mas foram usadas para descrever especialmente a tarefa do curador de artes cênicas. Ou seja, aquela figura que, atuando dentro de um festival de teatro, por exemplo, escolhe as peças e demais ações que vão compor a parte artística do evento. Esta semana a curadora italiana Piersandra Di Matteo participa em Belo Horizonte do 2º Encontro sobre Curadoria em Artes Cênicas, uma ação extraordinária promovida pela Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp.

Para quem não conhece, o evento é hoje um dos mais interessantes da área realizados no Brasil.  E sempre interessou aos organizadores da MITsp arejar o pensamento sobre a curadoria. Piersandra é diretora do mestrado de curadoria em artes cênicas da Universidade de Veneza (IUAV), teórica da área e reconhecida internacionalmente pelas publicações sobre o assunto.

Ela ministra o curso In-Betweennes – Reciprocidade e dramaturgia urbana na curadoria de artes cênicas. No encontro, compartilha experiências de projetos submetidos à curadoria e fala sobre o assunto como um todo.

Como podemos conceituar curadoria atualmente? O conceito mudou ou tem mudado nos últimos anos?

Na última década, é fato que a figura do curador de artes performáticas se estabeleceu internacionalmente como junção fundamental na afirmação de novos paradigmas para a cena, na definição de práticas de pensamento, produção de contextos, espacialidade antropológica e temporalidade fora do esquema clássico da programação exclusiva de espetáculos. Isso gerou novas posturas do espectador, diferentes relações com as instituições e outras dinâmicas possíveis de relação com a vida urbana.

Você entende a prática da curadoria como um gesto descolonial. Como é isso?

Vejo uma urgência na prática curatorial que atua no campo das artes, que é a de promover ações, contextos e ambientes capazes de desmantelar as barreiras que mantêm os sujeitos divididos e reféns da lógica da subordinação (racial, sexual, econômica). As artes cênicas devem ser capazes de pensar e trabalhar para romper as fronteiras que isolam os indivíduos em esquemas hierárquicos. Além disso, promover ações de comunhão, táticas de reciprocidade, tornando a arte do tempo e do corpo um domínio que pertence concretamente à multidão.

No cuidado de um programa, em um festival, na construção de uma exposição, trata-se de contemplar o urbano e suas complexidades. Também de descarregar sempre um problema, o relacionamento interno e atual de alguém com o poder. Ademais, se perguntar como é possível questionar formas expressivas e cognitivas que remontam às formas neocoloniais e patriarcais que se combinam para moldar subjetividades de acordo com o princípio da competição, tomando como modelo, a empresa.

Piersandra, a curadoria feita nas artes em geral e nas artes cênicas tem um papel social? Qual é ele e como é possível dialogar esse trabalho com a sociedade e com o espaço que ele ocupa?

Eu respondo com uma citação de Elke Van Campenhout: “A curadoria não é uma declaração, mas uma redistribuição de poder que nos faz repensar a estrutura de nossos corpos e pertences sociais”. Sendo assim, acredito que não é possível pensar na prática curatorial nas artes do espetáculo sem uma leitura cuidadosa da morfologia social em que operamos. Hoje, o “teatro” não pode ser inscrito na consciência de que esse tecido social deve ser tomado como elemento político. Trata-se de relacionar-se com os conflitos que atuam na materialidade da crise econômica, migratória e ecológica e, portanto, articular operações, discursos, pesquisas, processos e práticas artísticas. Tudo isso, a fim de promover polos relacionais, genealogias excêntricas, trajetórias dramatúrgicas urbanas que nos permitam recusar outras formas do possível e do desejável, dar substância à visão de um “presente alternativo”, nas palavras de Donna Haraway. 

 

Urban Performance, trabalho exposto no Atlas of Transitions Biennale 2019, com curadoria de Piersandra Di Matteo Foto: Michele Lapini

Atualmente as pessoas têm acesso a multitelas, à internet e também a diversas fontes de informação. Como é fazer curadoria em um momento que todo mundo tem acesso a tudo? Como fica o trabalho de curadores neste contexto?

É uma questão de retornar ao corpo. Artes cênicas e teatro são os espaços em que é possível alimentar novos paradigmas relacionais. Praticar em comum, cultivar táticas imaginativas, para experimentar alternativas aos modelos de poder. A cena performativa, atuando no aqui e agora e através dos corpos pode ser o horizonte operacional capaz de questionar padrões expressivos e cognitivos relacionados às formas de autismo identitário que apaga diferenças. Penso em uma cena capaz de produzir práticas imaginativas e afetivas, que ativam áreas de proximidade corporal, afeto, escuta e políticas de contato. Isso tornaria o relacionamento com o outro o espaço para dar vida a diferentes temporalidades. conectados.

Qual a relação entre a curadoria e criação artística? Algumas pessoas dizem que o trabalho do curador é mais importante do que o do artista. Qual a relação entre os dois pontos?

Não acho interessante colocar a questão nesses termos, pois reafirma uma lógica de oposição, segundo a qual alguém é melhor e/ou mais essencial que outro. Eu gosto de pensar em termos de diálogo, troca, embutimento, hibridação de práticas, entre dois pólos essenciais para a criação de um horizonte de significado.

Você é italiana, está dando o curso no Brasil e já passou por outros países. Há alguma diferença na curadoria entre os países?

Certamente, todo contexto tem suas peculiaridades e precisa de uma análise específica da dinâmica que ocorre na sociedade. A análise também precisa ser feita nos modos de produção, nas linguagens artísticas, nas políticas culturais em relação ao sistema de arte. No entanto, em todos eles é possível traçar um traço comum. Isso ocorre, na minha opinião, quando a curadoria considera seu próprio espaço de ação contra o autismo de identidade que cancela as diferenças, contra qualquer submissão feita pelo biopoder, na atual crise da democracia representativa que abriu o caminho para o surgimento de populismos e a reafirmação de demandas nacionalistas.

 

Continua após a publicidade...

photo

Links para você assistir aos indicados ao Globo de Ouro 2020

Uma prova de que os tempos realmente são outros, quando o assunto é exibição cinematográfica, é que no mesmo dia que sai a lista de indicados ao Globo de Ouro você já pode imediatamente assistir às produções mais badaladas. No caso da cerimônia do dia 05 de janeiro de 2020, Histórias de um casamento, que […]

LEIA MAIS
photo

Culturadoria visita os bastidores de Dogville

Em abril o Culturadoria foi convidado a cobrir o Festival de Teatro de Curitiba e entre as peças escolhidas para a maratona teatral no sul do Brasil estava Dogville. Pois assim como noticiamos na época, o espetáculo dirigido por Zé Henrique de Paula chega a BH para temporada no Centro Cultural Banco do Brasil. Dogville […]

LEIA MAIS
photo

Vendedor de sonhos: motivos para ouvir o álbum em homenagem a Fernando Brant

Há cinco anos nascia a ideia de fazer uma homenagem sonora a um dos maiores nomes da música mineira e brasileira: Fernando Brant. Robertinho Brant, sobrinho do artista e também músico foi quem pensou na iniciativa de gravar O vendedor de sonhos (Selo Biscoito Fino), disco que acaba de sair em todas as plataformas digitais. […]

LEIA MAIS