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Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Cinco pontos sobre Roma, filme de Alfoso Cuarón

Filme produzido pela Netflix está indicado ao Globo de Ouro 2019

Por Carol Braga

18/12/2018 às 08:21

Publicidade - Portal UAI
Foto: Netflix/Divulgação

Quando penso no nome de Alfonso Cuarón, algumas referências são quase que automáticas para mim. Uma delas, é a cena do personagem de George Clooney em Gravidade, literalmente perdido no espaço. Tem um silêncio naquela cena que dá uma agonia. Esse talento que o diretor mexicano tem em passar sensações aparece de maneiras muito distintas em Roma, disponível na Netflix.

No novo projeto, apenas uma remota imagem do homem no espaço é a única semelhança com o longa ganhador do Oscar em 2014. A pegada é totalmente outra, mais poética, pessoal e, portanto, bastante autoral.

A carreira de Alfonso Cuarón tem diferenças bem marcadas se compararmos as produções que ele fez no México, como E sua mãe também (2001), com as investidas mais comerciais, tipo Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban (2004) e mesmo Gravidade, que lhe rendeu o prêmio mais cobiçado de Hollywood.

 

O que é cinema?

 

Roma venceu o principal prêmio do Festival de Veneza, o Leão de Ouro. Para além das qualidades estéticas, o reconhecimento mudou uma chave na ideia do que é cinema. Isso porque o longa é uma produção da Netflix, ou seja, não teve uma estreia tradicional no circuito das salas de exibição. Chegou direto na sua casa ou no seu bolso (para quem consome pelo celular). Para muitos cineastas, inclusive Pedro Almodóvar, cinema é somente o que estreia na telona. Acho essa ideia questionável.

O longa dirigido por Alfonso Cuarón também recebeu três indicações ao Globo de Ouro: roteiro, direção e melhor filme em língua estrangeira. As duas primeiras categorias chamam mais minha atenção por colocar Roma, de fato, no hall das produções mais incensadas do ano, do ponto de vista da crítica. Merece mesmo, principalmente por se tratar daquele tipo de produção que cresce a medida em que você pensa sobre ela.

 

Temporalidade narrativa

 

Se você gosta da vertente mais comercial de Cuarón, certamente achará Roma lento. Sim, a narrativa é mesmo mais alargada mas dê uma chance a ela. O diretor domina a sutileza de cada quadro. Foque sua experiência nisso. Veja procurando sempre refletir o que ele quer dizer por trás de cada imagem.

Roma tem fragmentos autobiográficos da vida do diretor. Fala, portanto, sobre memórias. Se passa nos anos 70, no bairro homônimo na Cidade do México. Narra a vida de uma família de classe média, com quatro filhos. As experiências da empregada Cleo, papel de Yalitza Aparicio, norteiam maior parte da trama.

 

A atriz Yalitza Aparicio estreia como atriz em Roma. Foto: Netflix/Divulgação

 

Água como metáfora

 

O primeiro plano do longa mostra um chão. Logo ele é invadido por água e assim se revela Cleo. Observe que este elemento natural aparecerá em diversos momentos do filme e ele desperta reflexões. Curiosamente, a cena final também tem água em destaque.

Para muitas religiões, água é sinônimo de origem da vida, transformação, força. Ou seja, se Roma fala das raízes de Cuarón, ao nos aproximarmos de alguns desses significados, há uma relação metafórica sobre os significados de família. Vale ressaltar: Roma, ao contrário, é amor.

 

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Preto e branco

 

Como se trata de um longa sobre memórias, sobretudo sobre as lembranças que marcaram a infância do cineasta, a escolha pela fotografia em preto e branco é muito pertinente. Tem um ‘q’ de nostalgia. Não deixa de ser, também, uma ousadia se pensarmos que se trata de uma produção Netflix, feita para ser consumida em qualquer tamanho de tela.

Alfonso Cuarón usa diversos tipos de planos, mas os abertos são os que chamam mais atenção. Esse tipo de enquadramento corre sério risco de extinção à medida em que as telas diminuem. Roma, visto no cinema, deve ter outro impacto.

De todo modo, mesmo visto em TV ou celular, não deixe de observar a maneira como o cineasta trabalha os tons de cinza e o uso do grande plano geral. É como se o diretor observasse a própria história (ou a de Cleo) com respeitoso distanciamento.

 

Um dos belos planos abertos de Roma. Foto: Netflix/Divulgação

 

Críticas sociais (tem spoilers)

 

O roteiro de Roma é muito elegante ao fazer críticas sociais. E faz muitas. Além de falar de memória e família, Cuarón critica, por exemplo, a diferença de classes, a força do patriarcado e a resistência de mulheres como a mãe da casa, Sofia (Marina de Tavira) e, obviamente, a de Cleo (Yalitza Aparicio), por exemplo.

O diretor aborda esses temas por tangentes. Por exemplo, para falar sobre um relacionamento falido, que não cabe mais naquela casa, usa como metáfora um carro grande que quase não entra na garagem. Já a discussão sobre o patriarcado aparece quando Sofia tem dificuldade em assumir para a própria família que foi abandonada pelo marido. Ela faz questão de manter as aparências até o limite.

Em relação à Cleo, então, são diversos momentos em que o diretor registra suas críticas. São todas muito fortes que, abordadas de maneira tão sutis, correm o risco de passarem despercebidas. Um simples caminhar dela em meio a uma multidão sem ser notada diz muito sobre a personagem. A forma subjugada que ela se coloca no mundo é um desses pontos, obviamente fruto de uma sociedade fundada em uma cultura patriarcal, com desigualdades sociais gritantes.

Embora muito diferente de Gravidade, Roma também é um filme de sensações. Mais que isso: ele desperta emoções. Muitas vezes incômodas, mas necessárias.

 

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