Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Bastidores do impeachment: ‘O processo’ e a função de documentar a história

Por Carol Braga

É difícil não se deixar envolver com o documentário O processo, de Maria Augusta Ramos. Seja como for, isso independe de seu posicionamento político. É um filme cansativo, denso e tenso.

Se você for de esquerda, ou tiver tendências, vai se incomodar mais. Muito mais. Dá arrepio rever políticos, eleitos, justificando seus votos em nome da família, de Deus e até de torturador.

É essa cena lamentável da história recente do Brasil que domina os primeiros 15 minutos do longa. De fato,  se trata de uma obra bastante complexa que poderá despertar olhares variados. O meu, por exemplo, centrou-se menos no político propriamente dito e mais em dois aspectos: como é triste – e prejudicial – a polarização política e social que vivemos. Além disso, como há um excesso de midiatização em nossa sociedade. Claro que a política perpassa o filme inteiro, mas esta análise deixo para os entendedores desse jogo.

 

Foto: Still Berlim / Divulgação

Polarização

O documentário começa com um plano aéreo e aberto de Brasília onde se pode ver duas partes bastante separadas. Do lado esquerdo, predomina o vermelho. Do direito, os tons de verde amarelo. No meio, tapumes, carros do corpo de bombeiro. Uma distância considerável.

A primeira cena do importante filme de Maria Augusta Ramos diz muito do que se verá ao longo de 137 minutos. É emblemática. Não há como negar a polarização. São lados bem marcados. Enquanto isso, dentro da Câmara dos Deputados a divisão também existe. Internamente, eles chegam no corpo a corpo. Partem para o combate, inclusive físico, com aparente ausência de racionalidade.

A todo momento a documentarista recupera esta informação. Para mim, cada vez que os lados opostos aparecem penso na necessidade de uma voz razoável, alguém que conseguisse dominar a passionalidade, o partidarismo e apresentasse uma análise razoável. Como sabemos, isso não aconteceu.

O filme de Maria Augusta Ramos acompanha o processo do impeachment desde o dia da votação na Câmara, passando pelo processo na Comissão do Senado e, por fim, a votação que destituiu a presidenta Dilma Rousseff. Não é a primeira vez que o tema Justiça aparece na obra de Maria Augusta. O processo é uma continuidade às abordagens desenvolvidas a partir do sistema judiciário do país na trilogia formada por Justiça (2004), Juízo (2013) e Morro dos Prazeres (2013).

A medida em que acompanha principalmente parlamentares petistas como Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias e o advogado José Eduardo Cardozo o longa assume seu lado. Advogada de acusação, Janaína Paschoal assim como o relator do processo de culminou no Impeachment, senador Antônio Anastasia são alguns dos antagonistas observados com mais distanciamento.

No fim, todos partem para a guerra. Porém, com em intensidades e estratégias variadas.

 

Foto: Still Berlim / Divulgação

Midiatização

Ao mesmo tempo em que a polarização aparece como um aspecto determinante na reflexão que Maria Augusta Ramos faz daquele histórico momento político brasileiro, a diretora acrescenta mais uma camada de análise crítica. Essa mais social do que propriamente política.

No campo da comunicação, Muniz Sodré chama de midiatização “o funcionamento articulado das tradicionais instituições sociais com a mídia”. É um conceito que permeia todo o filme de Maria Augusta.

Ao registrar deputados fazendo suas próprias transmissões ao vivo, cidadãos à caça de selfies, um excesso de câmeras jornalística de todos os portes, vê-se o que Guy Debord chamou de “sociedade do espetáculo”. Ele entende como espetáculo o conjunto das relações sociais mediadas pelas imagens.

É o que também se vê em O processo. Dá tristeza. Somos governados por políticos extremamente polarizados, pouco razoáveis, que operam segundo as regras da sociedade do espetáculo. Está difícil ser otimista.

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