Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Crítica em Diálogo: provocações sobre o Tiradentes em Cena 2018

Por Carol Braga*

11/05/2018 às 10:17

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Tiradentes em Cena 2018. Crédito: Divulgação

O exercício da crítica, assim como a busca de novas possibilidades para este gênero jornalístico é um dos desafios do Culturadoria. Acredito na possibilidade de construção de diálogos sobre as obras e os eventos artísticos. O convidado da vez é o Tiradentes em Cena.

A dinâmica é a seguinte: registramos aqui as impressões que ficaram depois de quatro dias explorando o festival. Convidamos os organizadores do Tiradentes em Cena, Aline Garcia e Fábio Amaral para comentar e/ou responder nossas considerações.

 

Tiradentes em Cena 2018. Crédito: Divulgação

Tiradentes em Cena: quando o menos pode ser mais

Por Carolina Braga

Todas as vezes que participo da cobertura de um festival de teatro volto para casa pensando no papel que esse tipo de evento tem hoje. Também sobre sua relevância.

Tiradentes em Cena começou em 2013 e tem missão muito nobre: fazer o teatro também ter vez no calendário sempre movimentado da cidade. No entanto, a recíproca precisa ser verdadeira.

Ao acompanhar quatro dias da edição de 2018, desconfio que o evento ainda não conseguiu entender todas as suas potencialidades assim como o município não lhe confere a importância devida. E olha, se trata da sexta edição, ou seja, já não estamos falando de iniciantes.

Não pode, por exemplo, ao mesmo tempo em que apoia o evento a prefeitura promover uma festa popular com show ao ar livre e som altíssimo como ocorreu no sábado (05/05). É claro que interfere, prejudica. Estamos falando de teatro. Faltou cuidado do poder público.

 

Espaços Alternativos

Os principais méritos do Tiradentes em Cena são as ousadias que felizmente comete. Por exemplo: colocar Zezé Motta para cantar dentro da igreja e ver o público se entregar ao samba ali dentro. Goste ou não do estilo de música dela, o momento foi único para todo mundo. Quebra de paradigmas. O mesmo aconteceu em 2016 quando Matheus Nachtergaele fez da mesma igreja palco para o monólogo ‘Processo de conscerto do Desejo’.

Esse é o tipo de coisa que pode fazer o Tiradentes em Cena bastante singular inclusive dentro do próprio calendário de festivais da cidade. Onde mais você vai ver uma mulher negra, poderosa, lotar uma igreja que em sua história registra a triste informação de era recinto proibido para pessoas de pele preta. E mais: fazer ali dentro uma celebração da música popular brasileira? É claro que em nenhum momento faltou o respeito com os símbolos e significados do lugar que ocupou.

Embora Tiradentes não seja uma cidade com estrutura para espetáculos teatrais, tem a seu favor espaços alternativos inusitados. Que a exploração destes, em busca de proporcionar aos espectadores experiências completamente diferentes daquilo que já viveram com o teatro, seja um desafio tomado pela equipe de produção. E que seja tomado a sério, com rigor técnico.

Curadoria

Outra consideração importante a se fazer é sobre a programação. A mostra de espetáculos em si, obviamente, não é a única coisa que um festival faz. Seu legado deve superar isso e acredito que o Tiradentes em Cena esteja neste caminho. Tem algo a oferecer para a cidade.

Propõe residências artísticas, oferece oficinas para diferentes públicos. Essa parte está ok. Mas, mesmo que a peças não devam receber todos os holofotes, é inegável que se trata do carro chefe de qualquer festival de teatro. Aí é preciso cuidado.

O trabalho de curadoria envolve pesquisa, participação na cena teatral do país, conhecimento, sobretudo quando a escolha deve estar mais atenta a peças que sejam adaptáveis aos “palcos” disponíveis. Montar uma grade de programação – inclusive com limitações de orçamento – é uma tarefa hercúlea. Vale pensar na máxima: e se o menos for mais?

É preciso avaliar o custo artístico de se apostar em reprises ou montagens muito antigas. Em 2018 algumas das peças da programação se encaixaram nisso. Foi ótimo rever A descoberta das américas, de Júlio Adrião. Mas ele já havia se apresentado por aqui. Qual a razão de trazê-lo de volta? A resposta a esta pergunta precisa ser argumentada pelo eixo curatorial.

A dinâmica do Tiradentes em Cena de abrir um edital para que grupos do país inteiro se inscrevam é louvável. Mas, ao mesmo tempo em que é um ato democrático, pode ser também uma armadilha. E se entre os inscritos o nível estético e cênico das montagens não for satisfatório? Vale pensar sobre isso. Volto à pergunta: e se o menos for mais?

 

Tiradentes em Cena 2018. Crédito: Divulgação

Resposta do Tiradentes em Cena

Ficamos muito felizes com a presença do site Culturadoria na sexta edição do evento, pois achamos importante aliar o olhar da crítica com o público, que tem comparecido em massa ao evento.

A proposta do Tiradentes em Cena de transformar os mais variados espaços da cidade em palco para os artistas é de fato arriscada, mas desde a primeira edição se tornou uma marca do evento que cada vez mais ganha apoio da cidade, por meio dos moradores, turistas, rede hoteleira e gastronômica.

Ver Zezé Motta apresentar seu espetáculo dentro da Matriz Santo Antônio e Tonico Pereira ocupar um teatro secular até então abandando é motivo de grande orgulho para nós organizadores. Apresentar espetáculos em espaços alternativos requer um trabalho muito maior do que apenas a escolha do local. O processo se inicia em convencer o artista a sair da caixa preta até o momento em que ele precisa adptar a sua técnica à realidade da apresentação. Um trabalho de muito confiança e entrega e sempre sujeito a intempéris.

Esperamos que o Culturadoria retorne à mostra no próximo ano e possa acompanhar um número maior de apresentações, principalmente nos espaços mais alternativos e projetos especiais, como a residência artística.

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