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Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

A moral e suas dores no filme iraniano ‘O apartamento’

Por Carol Braga

06/01/2017 às 16:15

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Os atores Taraneh Alidoosti e Shahab Hosseini em 'O apartamento'. Crédito: Pandora Filmes/Divulgação.
Os atores Taraneh Alidoosti e Shahab Hosseini em 'O apartamento'. Crédito: Pandora Filmes/Divulgação.

Os atores Taraneh Alidoosti e Shahab Hosseini em ‘O apartamento’. Crédito: Pandora Filmes/Divulgação.

Nem sempre um desmoronamento é algo físico. É um sentido mais alargado do termo que o cineasta iraniano Asghar Farhadi persegue em O apartamento (2016). O longa sucede os incensados A separação (2011), que rendeu ao diretor uma indicação ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira e O passado (2013).

Na primeira sequencia de O apartamento um prédio ameaça desabar por causa de escavações – provavelmente irregulares – no terreno vizinho. Asghar Farhadi filma a correria pela sobrevivência com objetividade e maestria.

O foco está na história que pretende construir. Ou seria o homem que pretende desconstruir? Ali interessa contar como protagonista era um cidadão de bem, porém passível de rachaduras.

O ator e professor Emad Etesami (papel do ótimo e contido Shahab Hosseini que também fez A separação com o diretor) é solidário, capaz de colocar a própria vida em risco para salvar o outro. Mas o trincar de paredes e janelas acaba gerando também fendas inesperadas na vida dele.

Emad e a mulher Rama (Taraneh Alidoosti), que também é atriz e assim como o marido faz parte do elenco da montagem de A morte do caixeiro viajante, clássico de Arthur Miller, são obrigados procurar outra morada. Aceitam a ajuda de um colega de elenco sem saber o que o passado do imóvel afetaria tanto o presente deles.

Rama é atacada dentro de casa. Em geral, o subentendido tem mais força.

Asghar Farhadi não precisou mostrar o ato de violência e nem mesmo detalhar a agressão para trazer ao filme discussão sobre machismo, sobre o que representa em uma sociedade baseada em valores religiosos rígidos e o que bastaria para ferir a moral de um homem iraniano que convive com a revolução Islâmica.

Mesmo focando em um personagem, Asghar Farhadi constrói uma narrativa em camadas que prende a atenção do espectador, em especial os 30 minutos finais.

A relação entre a jornada de Emad e Willy, o Caixeiro Viajante na peça de Arthur Miller tem paralelos. Os dois convivem com dramas que unem passado e presente trazendo à tona conflitos sociais e familiares capazes de destruí-los pouco a pouco.

Os silêncios são longos e dizem muito em O apartamento. A partir do momento em que o conflito é dado, o não dizer demonstra uma dificuldade – até mesmo cultural – em lidar com temas de ordem íntima.

Asghar Farhadi explora o vazio de diversas formas. O não ter onde morar, não ter o que falar e não saber como agir. São esses outros desmoronamentos, talvez os de alma, que fazem de O apartamento um filme instigante, profundo e atual.

Em tempo: O apartamento concorre ao Globo de Ouro de Melhor Filme em língua estrangeira e está na finalíssima para uma das vagas do Oscar, na mesma categoria.

 

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