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Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

‘Animais Noturnos’: obsessão pelos contrastes humanos

Por Carol Braga

11/01/2017 às 22:49

Publicidade - Portal UAI

 

Adams

Amy Adams é dona de uma galeria de arte em ‘Animais Noturnos’ , filme de Tom Ford

Saí da sessão de Animais Noturnos com vontade de bater um papo com o diretor – e estilista – Tom Ford. Imagina? Uma vez um professor me disse que tudo, absolutamente tudo, que está em um filme tem razão de estar ali e, claro, é invenção do diretor.

Pois Tom Ford, formado no universo da moda, da criação de significado por meio das roupas, em um mundo onde o contraste entre o belo e o feio está delimitado socialmente, discute esses conceitos. Virou uma característica do cinema dele, ainda em início de carreira, já que esta é a segunda experiência atrás das câmeras.

Animais Noturnos começa com mulheres gordas, muito gordas, se exibindo como se fosse em uma cabine do sexo daquelas de Amsterdã. Na verdade, elas estão em uma galeria de arte, rodeadas de obras que valem milhões. Vide as criações de Jeff Koons espalhadas pelo jardim. Quer contraste mais maravilhoso para discutir o belo e o feio a partir disso? Baita provocação.

No livro Ao mesmo tempo a americana Susan Sontag diz que pensar sobre a “história da beleza significa pôr em foco a sua configuração nas mãos de comunidades específicas”.

O significa ser belo hoje?

É uma das perguntas que Tom Ford me faz com seu filme e eu gostaria de conversar pessoalmente com ele sobre isso (ehehehehe). “A beleza se define como antítese do feio. Obviamente, não se pode dizer que algo é belo quando não se está disposto a dizer que é feio. Mas existem cada vez mais tabus que nos impedem de chamar alguma coisa, seja o que for, de feia”, continua Sontag. Boa ou ruim também se encaixam nisso.

Voltemos ao interessante Animais Noturnos. (“Chamar algo de interessante implica desafiar antigas normas de elogio; tais julgamentos desejam ser insolentes ou pelo menos engenhosos”. Ok, provocação aceita, Susan)

É um suspense com três planos. O presente é a história da dona dessa galeria de arte – Amy Adams em um papel de exigências inversamente proporcionais. Se o esforço físico é mínimo, dar conta do abismo existencial que a personagem se encontra é tarefa para grandes atrizes. O passado são as lembranças de um relacionamento de juventude. Entre os dois há uma ficção literária.

Depressiva, presa em um casamento de aparências, Susan (Amy) recebe o manuscrito de um romance escrito pelo ex (Jake Gyllenhaal). Embarcamos com ela na leitura. A violência da trama desperta memórias do passado. A mulher infeliz se lembra dos julgamentos implacáveis que dedicou ao ex. Violência também.

animais noturnos

Michael Shannon e Aaron Taylor-Johnson roubam a cena em ‘Animais Noturnos’.

Animais Noturnos é um filme prolífero em boas interpretações, principalmente as coadjuvantes. O que é aquilo que Aaron Taylor-Johnson (vencedor do Globo de Ouro pelo papel) faz como Ray? Firme e nem um pouco titubeante na construção de um escroto. Michael Shannon, como o policial Bobby Andes, faz lembrar os antigos xerifes de filme de faroeste, porém cercado de questões éticas da contemporaneidade. Não quer dizer que as respeite.

Independentemente do plano, Tom Ford não abre mão da construção estética. Cada cena carrega o contraste do feio e do bonito, seja de maneira objetiva na escolha dos enquadramentos, conceitual e mesmo temática. Até que ponto pode haver beleza em uma cena de morte? Com Tom Ford pode.

Sontag diz: “Em geral supõe-se que a beleza é, de forma quase tautológica, uma categoria “estética” que a coloca, segundo muitos, em rota de colisão com o ético. Mas a beleza, mesmo a beleza na modalidade amoral, nunca está nua”. É nesse arcabouço conceitual que o diretor maneja que eu localizo Animais Noturnos como um filme sutilmente desconcertante.

Estaria Tom Ford discutindo a natureza humana, com suas fraquezas, talentos, desvios morais, julgamentos? São tantas questões que o filme me despertou que continuo sonhando com aquele papo no tête-à-tête.

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