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Conheça RAPadura Xique-Chico, artista que enaltece a cultura nordestina no rap

Artista cearense foi indicado ao Grammy Latino em 2020 e tem um trabalho de enaltecimento e projeção da cultura nordestina.
Por Jaiane Souza
RAPadura
Foto: Eddie Silva

“Matuto do ceará é muito ar pra seus pulmões / Não podem me azedar com esses caminhões de limões / Há muito tempo eles dizem que não há rap em sertões / Por que temos vozes violões e eles só têm os botões”, diz um trecho de Fita embolada do engenho, música que dá título ao primeiro disco de RAPadura, lançado em 2010.

O álbum marca a estreia do rapper, compositor e produtor RAPadura Xique-Chico na música, que une o rap a referências e expressões tipicamente nordestinas para dar a tônica ao seu trabalho ímpar. Algumas delas são embolada, coco, repente, maracatu, cantigas de roda, baião e forró. Entretanto, tudo fica ainda mais interessante porque ele também caminha por outros ritmos como jazz, soul, funk e samba rock. Resultado: um trabalho fiel às raízes do artista, que projeta o Nordeste para o mundo, mas, ao mesmo tempo, é crítico, de protesto e inconformado. 

Para entender mais sobre a singularidade do trabalho de RAPadura e a contribuição que vem dando para a música brasileira, destacamos alguns dos principais pontos da sua história. Confira!

Origens e relação com a arte

RAPadura nasceu Francisco Igor Almeida do Santos em Lagoa Seca, em Fortaleza, em 1984, e aos 13 anos se mudou com a família para Brasília. Desde sempre esteve envolvido com a arte, já que o pai fazia parte de uma dupla de brega com os amigos e a mãe o balançava na rede enquanto cantava cirandas ou outras cantigas. Em Brasília, por meio da break dance, conheceu o hip hop de Thaíde, GOG e Câmbio Negro e se apaixonou. A partir daí, começou a fazer as próprias composições. Com a mesma idade ganhou o primeiro concurso de rap sendo a única criança em meio a adultos. 

Em 2006, foi notado nacionalmente após um período trabalhando com o rapper GOG e da participação na música A quem possa interessar, do disco Aviso às gerações. No ano seguinte seguiu carreira solo. Ah! O nome artístico veio da infância, já que era viciado em comer rapadura.

Primeiro disco

A origem cearense e a experiência em diversos cantos do Brasil foram peças-chave para o primeiro trabalho de RAPadura. Em Brasília ele teve contato com a catira, dança típica do cerrado, com a Folia de Reis e com o hip hop. Depois, conviveu com ritmos afro-brasileiros, como o samba de roda e a capoeira, em Salvador. Sendo assim, na capital baiana começou a surgir, em 2009, Fita embolada do engenho. O disco é composto por oito faixas plurais, mas que formam uma unidade que resume as referências, talento nas rimas e a facilidade de transitar entre estilos do rapper. Vale destacar, ainda, que o rap cantado por ele lembra o repente, manifestação artística de improviso de versos nordestina. Ele inclusive se autointitula rapentista, uma união das duas coisas. 

Temáticas

O Nordeste sempre esteve em uma caixinha que unifica os estados e impede que o restante do Brasil veja a sua diversidade. Muito disso se deve à mídia, à indústria cultural e à própria ignorância e preconceito que muitos de nós carregamos. Dessa forma, o que RAPadura faz é trazer esse universo colorido e multifacetado para a sua música, tanto na letra como nas melodia. Só para exemplificar, um trecho da música Eu e meu fole, de Luiz Gonzaga é utilizado na abertura de Amor popular. A canção fala de amor, mas usa a dança, a zabumba, o sertão e a linguagem local para contar a história. 

O mesmo ocorre com outras faixas do disco. Em Rima junina, a temática se contextualiza nas celebrações da festa junina nordestina, falando dos costumes, comidas e da dança.

Segundo disco e indicação ao Grammy Latino

Se o primeiro disco contém rimas intensas, rápidas e é mais enxuto instrumentalmente falando, o segundo, Universo da canto falado, aposta em um RAPadura cantor. Em entrevista ao Correio Brasiliense ele detalhou sobre o processo de produção de disco, que conta com músicas mais melódicas, nas quais cantar mais e rimar menos foi um grande desafio. Dessa forma, Universo do canto falado passa pelo baião, maracatu, reggae e tem até psicodelia, tendo como essência o rap. 

Como resultado deste trabalho RAPadura recebeu indicação, em 2020, ao Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa em Língua Portuguesa. Ele não venceu, mas a indicação ajudou ainda mais na projeção do artista para o cenário brasileiro e internacional. Ele disputou com Emicida (vencedor), Suricato, Letrux e Ana Frango Elétrico. Então, curtiu o artista? Todo o trabalho está disponível nas plataformas de streaming, confira no Spotify, e no YouTube.

RAPadura
Foto: Paola Vianna

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