Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Filme e disco recuperam legado do compositor “Il Boemo”

Gostou? Compartilhe!

Nascido nos anos 1730, o profícuo compositor tcheco ganhou fama pelas “óperas-sérias”, mas, após morte, acabou caindo no ostracismo

Patrícia Cassese | Editora Assistente

No curso da história, não foram poucos os nomes no campo da música que, após terem experimentado o sucesso, acabaram, por motivos diversos, caindo no ostracismo. Mas um caso em particular chamou a atenção do diretor e roteirista tcheco Petr Václav: o do compositor Josef Myslivecek (1737 – 1781). O conterrâneo do cineasta viveu dias de considerável glória na Itália, para onde migrou em busca de reconhecimento, tendo se tornado um dos mais profícuos compositores daquele tempo. Sendo assim, por que o nome dele, tal como a obra, não atravessaram os tempos como tantos outros contemporâneos?

Cena de "Il Boemo", filme que recupera a obra e a trajetória do compositor checo (Ópera na Teal/Divulgação)
Cena de "Il Boemo", filme que recupera a obra e a trajetória do compositor checo (Ópera na Teal/Divulgação)

Ao se aprofundar na vida de Il Boemo, que foi como Myslivecek se tornou conhecido, Václav acabou por não só assinar um documentário (“Confessione di un Dimencato”) como um filme ficcional (“Il Boemo”). Não bastasse, contribuiu para o lançamento de um CD que trata de fazer a música do compositor tcheco chegar aos ouvidos do público dos dias de hoje. “Il Boemo”, o filme, foi exibido no Brasil no mês passado, dentro da iniciativa “Ópera na Tela”, edição 2023. Por ora, infelizmente, o longa-metragem não está disponível em nenhum streaming, mas a música pode ser localizada em plataformas como Spotify ou Apple.

No limbo

De passagem pelo Brasil, Petr Václav, 56. conversou com a reportagem do Culturadoria (em um italiano perfeito) sobre o interesse pela trajetória do compositor Josef Myslivecek (na produção, vivido pelo ator e músico Vojtech Dyk), os vários obstáculos que enfrentou para levar a vida dele às telas e, do mesmo modo, os motivos que o levaram a mergulhar no esquecimento.

Cena do filme “Il Boemo”, sobre o compositor tcheco Josef Myslivecek (Ópera na Tela/Divulgação)

Cumpre frisar que o filme “Il Boemo” integrou a seleção oficial do Festival de San Sebastian de 2022. Também foi o filme representante da República Tcheca no Oscar. No país natal, recebeu seis Leões (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Figurino, Melhor Cenografia, Melhor Maquiagem e Melhor Som)

Confira, a seguir, a entrevista com o diretor e procure a música de Myslivecek no streaming.


Interesse pela trajetória de Myslivecek

Digamos que eu estava curioso em saber quem exatamente foi este homem que se tornou muito conhecido à época, mas que, depois, foi completamente esquecido. Movido por este interesse, comecei a pesquisar (obra e vida) e, assim, constatei que, de fato, ele foi o mais prolífico compositor da chamada ópera-séria (termo musical que se refere a um estilo “nobre” e “sério” de ópera italiana, que predominou na Europa da década de 1710 até por volta de 1770) do seu tempo. Este personagem me fascinou, porque deixou tudo para trás e foi se aventurar, indo sozinho atrás do desejo de se tornar um musicista.

Encontro com Mozart

Curiosamente, Boemo encontra (Wolfgang Amadeus) Mozart (1756 – 1791) quando tinha 33 anos. Mozart, então, tinha apenas 13 anos, e fazia uma grande viagem pela Itália com o pai, Leopold, já com o objetivo de permanecer naquele país. Ou seja, disposto a não voltar para Salzburgo, porque a Itália, para todo musicista, era o paraíso. E assim acontece uma coisa difícil de explicar. Quer dizer, tem algumas explicações, mas o fato é que Myslivecek conseguiu construir a sonhada carreira italiana, enquanto Mozart, não. Só que, depois, foi esquecido, ao contrário de Mozart.

Escassez de registros

Então, este era o primeiro momento que me interessava. Assim, dei início a uma imersão na vida de Myslivecek. Só que tive uma grande dificuldade em descobrir a música dele. Fui a arquivos, li alguns livros etc, mas a verdade é que havia poucos registros, sobretudo em relação a este autor. Então, foi necessário extrapolar. Assim, tive que procurar, por exemplo, as literaturas de viagem, correspondências, como, por exemplo, a de Mozart. Isso foi muito importante para mim, porque, quando ele viajava, escrevia tanto para a mãe quanto para o pai. Logo, a vida dele foi muito documentada. Através destes registros, era possível saber como era a vida de um musicista à época. Porém, como conhecer a música de Josef Myslivecek? Ele fez 26 óperas líricas, mas elas não foram mais apresentadas após a morte do compositor.

Recuperação de repertório

Há apenas dois registros, no entanto, muito ruins, dos anos 1970, 80, porque não se entendia a qualidade (necessária para a execução da obra de Myslivecek). Il Boemo escrevia para as maiores vozes do tempo dele, para os castrati. Era uma música muito difícil de cantar. Neste ponto (do projeto), me liguei a Václav Luks, que é diretor artístico da orquestra barroca de Praga Collegium 1704, muito conhecida e muito apreciada na Europa. Assim, juntos, pesquisamos em arquivos, em Paris, fizemos fotocópias e, depois, fomos ao piano e ele tocava e cantava, e me explicava as orquestrações. Ficamos assim, não sei bem, talvez três, quatro anos, antes de poder escutar a música do compositor.

CD Il Boemo

Então, descobrir a música foi realmente uma coisa impactante. E foi interessante porque, depois, lançamos o CD “Il Boemo” (Warner Classics), e vendeu muito bem. Portanto, vê-se que as pessoas se interessam pela música de Myslivecek, querem descobrir um compositor “desconhecido”. Para este CD, gravamos músicas que nunca havia sido registradas, assim, foi uma descoberta inclusive para nós. Aliás, para fazer o filme, descobri tanta coisa…

Documentário

Na verdade, o documentário “Confessione di un Dimencato”, foi, pra mim, uma forma de me preparar para o filme “Il Boemo”. Tudo surgiu a partir da possibilidade de montar a ópera “L’Olimpiade”, no Teatro Nacional de Praga, e depois, ir para Dijon, na França, e ainda, Luxemburgo. Eu estava já no projeto de “Il Boemo”, mas disse: “Se apresentarem esta ópera, farei um documentário”. Porque queria estar com eles, saber como trabalhavam os cantores, os diretores de orquestra. Na verdade, sabia que tudo aquilo, ao fim, me serviria para fazer o meu filme. Ao mesmo tempo, eu estava com dificuldades para realizar “Il Boemo” – gastei dez anos para conseguir a verba -, e de algum modo, pensei que, se não conseguisse fazer o filme de ficção, ao menos teria feito o documentário. Assim, não são duas coisas separadas, mas, sim, digamos, complementares.

Condição feminina

Creio que este filme fala de música, mas, sobretudo, fala de uma pessoa que quer dar sentido à sua vida, e que está procurando a liberdade, a viver como ele entende ser certo, sem obedecer às leis sociais, às convenções. Uma pessoa que se joga na água para alcançar o objetivo, no caso, virar musicista. Porque um provinciano como ele era não poderia ser o que se transformou no seu próprio país. Enfim, um imigrante que teve que fazer todo este trajeto para se tornar a pessoa na qual, ao fim, se tornou.
E também quis falar da condição feminina da época. Porque, no filme, o espectador vê mulheres socialmente diversas. Tem a burguesa que deve obedecer ao pai, tem a nobre que é muito libertina, tem a baronesa que vive um inferno com o marido, mas que não consegue escapar, porque nem havia alternativa naquele tempo.

Status

E quis, por meio do filme, descobrir a Itália daquele tempo. Também queria falar destes níveis sociais, porque também Myslivecek era, num certo sentido, escravo do poder. Naquele tempo, os artistas não eram livres, adorados. Isso só vai acontecer depois, com o romantismo, o poder de um artista. Naquele tempo, um compositor era apenas um servo, como um carpinteiro, um marceneiro. Certo, de um outro nível, porém, continuava servo. O filme mostra, por exemplo, um servo negro (cujo status) era muito, muito, muito mais baixo do que os outros. Então, quis mostrar toda essa, digamos assim, brutalidade social, essa injustiça social. E, assim, a que ponto o mundo é verdadeiramente uma luta para achar o lugar ao sol.

Código de época

Josef Myslivecek encontra Mozart em 1770, em Bolonha. É neste mesmo ano que nasce (Ludwig van) Beethoven. Myslivecek e Mozart seguem sendo servos que devem escrever as composições. Certo, o fazem bem, inclusive, Mozart, como um gênio. Já Il Boemo não é um revolucionário musical. Ele faz música muito bem, mas como se deveria fazer naquele tempo, para o poder. Enquanto Beethoven, separado 13 anos de Mozart e 33 anos de Josef Myslivecek, é o que vai dizer: “Eu não saúdo o imperador, ele que me saúde, porque eu sou Beethoven”. Ele já era aquele artista romântico que pode dizer “me ne frego(não me importa). Os outros dois, não, daí se vê a fragilidade de um destino.

Destino

O nosso destino não depende de nós. Depende do tempo no qual nascemos, de como nascemos, dentro de qual família. Mas, sobretudo, o ano do nascimento é muito importante. Agora, se Boemo era um cúmplice do estilo musical do seu tempo, na vida privada, já era um precursor da vida romântica, nesta procura pela liberdade. Isso era uma coisa rara, à época. Os compositores nórdicos, todos eram atados a um padrão, digamos. Os de Roma tinham um mecenas. Já Josef Mysliveceke não era ligado a ninguém, isso era raro. Ele foi precursor de Mozart, mas devia obedecer às leis sociais, que eram muito rígidas à época

Viajante

Mysliveceke estava sempre financeiramente debilitado. Ele ia de Nápoles a Veneza, de Veneza a Turim, e as viagens eram muito custosas à época. Assim, ele pagava muito dinheiro para poder ser livre, para poder viajar. Na verdade, também não tinha escolha. Naquele tempo, um cantor permanecia ao menos um ano em uma cidade, fazia duas estações. Já o compositor podia fazer apenas uma só estação. Então, por exemplo se fosse a Nápoles, ficava seis meses e depois, deveria partir. Enquanto isso, fazia outra coisa, música para igreja, uma peça sinfônica. Por isso, estava sempre em trânsito. Isso também explica porque ele foi esquecido.

Amizades descontinuadas

Primeiro, porque Mysliveceke era um forasteiro, assim, não tinha muitos amigos. Conhecia pessoas em Turim, mas, daí, já ia para Veneza, então, não via mais as mesmas pessoas. E depois ia para Parma, e, de lá, para Florença, depois para Nápoles. Assim, as amizades eram muito descontinuadas. Logo, quando morreu, não havia ninguém para dizer: “Ah, não podemos deixar o nome dele cair no esquecimento”. Portanto, no dia da morte dele, já foi esquecido. Inclusive porque morre como sifilítico, assim, era visto como uma pessoa imoral, pouco cristã.

Romantismo

E a terceira coisa é que, com a queda do regime real, a ópera-séria foi esquecida. O romantismo não queria falar disso. Ao mesmo tempo, começa o poderio imenso da produção musical alemã. E há sempre aquela estupidez de: “se formos amar isso, não podemos amar o outro”. Havia essa lógica binária. Enfim, por todas essas razões, o compositor Boemo foi esquecido. E não só ele, mas, infelizmente, outros tantos.

Ligação com o Brasil

Neste momento, estou fazendo um casting para um novo filme, que, desta vez, será falado em francês. E sim, já vim ao Brasil há 20 anos, para participar do Festival de Cinema de São Paulo, com o meu segundo filme. Sobre o cinema brasileiro, assisti aos filmes que ficaram mais conhecidos no exterior, como os do Walter Salles Jr. ou “Cidade de Deus”. Também assisti, e gostei, muito de um filme do Julio Bressane, “O Anjo Nasceu”, de 1969. Um filme em P&B muito bom.

Gostou? Compartilhe!

[ COMENTÁRIOS ]

[ NEWSLETTER ]

Fique por dentro de tudo que acontece no cinema, teatro, tv, música e streaming!

[ RECOMENDADOS ]