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Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Coluna Almasculina #16: O que é almasculina?

Paulo Azevedo, do podcast Almasculina compartilha aprendizados e reflexões sobre o 1º ano do almasculina, além de relembrar temas principais das colunas anteriores.

Especial para o Culturadoria | Por Por Paulo Azevedo, do podcast @almasculina

28/08/2020 às 11:04

Publicidade - Portal UAI

Hoje, me permiti o desafio de compartilhar “O que é almasculina?” pra mim e quais foram os principais aprendizados neste primeiro ano do projeto. Talvez essa seja a coluna mais desafiadora até agora. Até aqui, os temas me deram um norte, amparados por livros (as tais “aspas”), filmes etc. No entanto, agora me sinto como alguém que coloca algo novo no mundo. De repente, quando pensa que já sabe nominá-la, descobre que a impermanência é a fórmula do seu crescimento. Imagino que muitos pais tiveram uma sensação parecida. Provavelmente, antes mesmo de ouvirem o choro seminal, fizeram planos, criaram expectativas, desenharam futuros possíveis. Porém, o tempo é o irmão mais velho das incertezas da vida, não é mesmo?

Pois, a incerteza é a mãe desse projeto. Não imaginava que passaríamos do 10º episódio, como muitos podcast. Antes de tomar o mundo, ainda sem nome, o almasculina era uma sensação. Uma inquietude de alguém com uma infância deslocada de padrões rígidos. Em especial, me chamava a atenção o habitat de certos mamíferos do sexo masculino: os homens. Ao reparar, bem de perto, percebe-se que existe ali um desconforto. Algo como uma herança de privilégios com custo muito alto. Sabe quando alguém compra algo muito caro, um carrão ou uma mansão, mas sofre com a insegurança que essa posse traz? Com isso, a pessoa precisa se cercar tanto de proteção, gerando tamanha tensão! Aos poucos, a ingenuidade cedeu espaço à curiosidade, perguntas, consciência, autoconhecimento… em movimento, fui apresentado ao universo até então inexplorado. O de dentro de mim e seus efeitos.

Fora do (M)ar

Dizem que os muitos “nãos” que recebemos da vida estão relacionados ao nosso pai. Por isso, amadurecemos, repensamos caminhos ou reafirmamos escolhas. Sempre fui um “Fora do (M)ar”. Esse peixe fora d’água, inadequado num sistema, ainda que provocasse certa empatia, afeto e até amor. Aliás, sendo assim, construí laços fortes e duradouros na vida. Como o dos parceiros no almasculina: Conrado Goys, Glaura Santos e Vitor Vieira, que mergulharam junto comigo nesse abstrato que é ser homem hoje. “Fora do (M)ar” é o título do meu espetáculo sobre masculinidades, que encerra uma trilogia de solos iniciada há anos, na qual assino a direção e o texto. A peça retrata as inquietações de um radialista que nasceu e cresceu em seu estúdio, um “aquário” privado. Então, me propus a trilhar o caminho de pesquisa de forma compartilhada por meio do podcast.

Assim, decidi “juntar a fome com a vontade de comer”. Enquanto me colocava como aprendiz nesse desconhecido oceano que são as masculinidades, me exercitava no ofício do meu personagem. Com frio na barriga, precisava de algumas boias nas quais pudesse me apoiar. A primeira, foi apostar em algo que é um dos meus maiores prazeres da vida: conversar e aprender. Retomei minha bagagem da TV.

Atuei numa emissora educativa, a Rede Minas, na qual comecei como estagiário e encerrei a carreira como apresentador de um programa diário de cultura, o “Agenda”. Nele, tive a chance de fazer muitas entrevistas. Entre eles: Paulo Autran, Tom Zé, Fernanda Torres e Pedro Cardoso. Extraí grande conhecimento, prática, ultrapassei a timidez e o nervosismo e, acima de tudo, exercitei uma dádiva para qualquer um: a escuta. Sou mais esperto quando estou nessa posição. Aliás, está aí uma lição importante, em especial, para os homens: escutem.

Vide a bula

Tivemos o púlpito por séculos, milênios. Fomos criados achando que somos o dono do campo e da bola. Digo, os homens brancos. Quer dizer, os homens, brancos, cisgênero e heterossexuais. Um tipo bem específico. Certamente, a minoria, em termos de quantidade. Por outro lado, sem qualquer razão científica, é o que ocupa a maior parte de todas as posições de poder no mundo, público ou privado. São frutos da tal masculinidade hegemônica, o patriarcado. Já falamos disso aqui na coluna #13, lembra? Em resumo: O patriarcado é um sistema social em que homens adultos mantêm o poder primário e predominam em funções de liderança política, autoridade moral, privilégio social e controle das propriedades. No domínio da família, o pai (ou figura paterna) mantém a autoridade sobre as mulheres e as crianças.”

Por exemplo, dentre seus efeitos colaterais estão o machismo (ou misoginia), o racismo e a homofobia. Da mesma forma, já abordei cada um deles aqui. Convido-lhe a dar uma lida depois. A triste notícia é constatar que todos os seres do gênero masculino da espécie humana sofrem desses males em algum grau. Todos. Inevitavelmente. Infelizmente, as mulheres e outras minorias reproduzem esse comportamento inconscientemente. Desde pequenos, somos condicionados por uma série de atitudes e códigos sociais nessa via. No entanto, digamos que há um remédio homeopático: a busca de informação. Ela traz melhorias visíveis, a olho nu, naqueles que dela se apropriam. E mais: naqueles que, pacientemente, assumem-na como uma prática constante, há comprovado aumento da consciência, aprendizado, empatia e senso de coletividade. É um exercício diário.

Lugares Comuns

Com isso, ampliam ainda o vocabulário, corrigindo termos e conceitos que deveriam ter aprendido na escola e na família, ainda pequenos. Fica a dica aos pais. Desta maneira, seriamos poupados de inúmeros constrangimentos, rejeições, violências (contra si e os outros), além de entendermos o afeto e os próprios sentimentos como nossa prova maior de força e integridade. Soma-se a isso, a compreensão de que TODAS as partes do nosso corpo são únicas e fundamentais. Dizem que os resultados na melhoria da saúde, dos relacionamentos em todos os ambientes, do prazer e da sexualidade são notáveis! O humor sempre foi meu aliado precioso para dizer coisas profundas… Um escape para a violência na educação e imposição forçada das minhas ideias. Ao longo desse primeiro ano do almasculina, foram vários os momentos nos quais tive a sensação de estar correndo atrás do prejuízo.

Certamente, quando mais jovem, esse conhecimento teria me poupado tantas frustrações e muitas horas de terapia. Foram muitos os insights enquanto escutava um convidado ou um psicólogo no nosso “Lugares Comuns”, quadro que dá voz a especialistas, gente que pesquisa e entende muito do assunto, explicando termos, conceitos e ampliando a nossa visão sobre tópicos mais específicos. De alguma forma, sentia muitas lacunas em mim. Como se algumas peças do quebra-cabeça que sou, faltassem pra encaixar. Perguntas desconhecidas, não feitas ou caladas pela vergonha de uma pretensa obviedade do que é “ser homem”.

O feminismo é para todos

Ainda hoje, em pleno 2020, encontramos quem afirme: “Homem é forte, não chora, nem demonstra fraquezas”. Ou seja, a própria noção se baseia “em oposição a”. Repare bem: ser homem é tudo que é contrário ao tido como exclusivo do universo das feminilidades. Escrevendo isso, parece tão óbvio essa farsa, não? Como compramos essa ideia? Cadê o menino que vai revelar que o Rei está nu? Aliás, a história nos mostrou, que foram elas, as mulheres, que elevaram a voz dessa denúncia, enquanto o tal menino foi calado. Aceitando ou não, “o feminismo é para todos”, como citei na coluna #2.

Se você, homem, olhar ao redor, vai compreender que são pouquíssimos os que, de fato, vivem algum benefício com essa estrutura social. Mire e veja. É tão óbvio que as mulheres, os negros e outras minorias políticas são as principais vítimas. Porém, são muitas as pesquisas que destacam os homens no pódio dos que mais matam e morrem, vivem sete anos a menos que as mulheres, cuidam menos da saúde e por aí vai… Não seria o suficiente saber disso para construirmos um “novo normal” pós-pandêmico?

Inquietações como essa, me fizeram olhar não só pra dentro de mim, como para minha aldeia. Por isso, quis saber mais sobre os homens do meu clã. Não bastaria questionar tantos convidados sobre suas vivências, senão levasse o almasculina para os meus. E foi assim que, menos de um mês depois, embarcava com meus pais e a cineasta Janaína Patrocínio (outra parceira de anos!) para o Piauí. De volta à terra natal paterna, iríamos refazer uma viagem de 30 anos atrás até a fazenda do meu bisavô. Sentia necessidade de rever minhas raízes de perto. Pelo menos, uma parte delas.

Abrindo os baús

Ao chegarmos lá, nos deparamos com o vazio. Uma das primeiras casas do Piauí havia sido destruída. Já comentei isso aqui na coluna #11. A outra parte, estava em Minas. Entre os cerca de 2.200 Km que separam essas capitais, sem mar, encontrei homens com suas potências e fragilidades. Meus tios paternos e maternos. Reprodutores de comportamentos adotados por herança, simples aprendizado por repetição. Troquei julgamento por compaixão. Juntos, abrimos os baús da família. Alguns momentos doloridos, outros de muita emoção. Nunca indiferentes. Tudo era muito novo. Infelizmente, falar de si, refletir sobre sua condição no mundo, ainda é muito novo.

Dizem que a mudança efetiva começa no seu entorno. Hoje, já sinto essa microrrevolução bem perto. O tema das masculinidades, ao menos a cada semana com esta coluna, ou, quinzenalmente, com o podcast sempre surge nas nossas conversas. Há uma naturalidade maior para discutir sobre isso. Novas referências surgem para nos ajudar a rever comportamentos, desconstruir certos paradigmas, preconceitos e posturas.

A alma é grande demais para ter sexo. O mundo também. Afinal, ser humano é o que mais importa. Independente de classe, etnia ou gênero. Pelo menos, essa utopia deveria ser óbvia, um senso comum. A matriz de toda e qualquer formação. Portanto, cada um conseguiria, com excelência, ser único em sua breve passagem por aqui. Seriam bilhões de peças exclusivas, assinadas uma a uma, por um artista único com várias denominações e crenças. Algo tão original e tão imenso que não cabem rótulos ou “caixas”. Tão plural como as nossas vivências. Não há como impor à essas obras-primas um “formatar-se”. Essa é uma utopia que ainda sustenta o almasculina como um lugar de aprendizado permanente por encontros mais viáveis para todo mundo. Em constante aprendizado e descoberta. Bem-vindo, bem-vinda, bem-vinde… Sempre que quiser entrar.

arte @glaurasantos

PS:

Por tudo isso, não posso deixar de agradecer aos convidados, convidadas e convidades que participaram do nosso 1º ano de existência: o ator Mateus Solano; o estilista Ronaldo Fraga; o diretor artístico do Grupo Corpo, Paulo Pederneiras; o ator David Junior ;a cartunista Laerte; o comunicador e palestrante AD Junior; o escritor Marcelino Freire; podcast As Perennials; o cineasta Helvécio Ratton; a dupla do canal Soltos SA; o escritor, músico e compositor Zé Miguel Wisnik; o articulador cultural Rodrigo França; o empreendedor e montanhista Gustavo Ziller; a drag queen e professora Rita Von Hunty; o psiquiatra, escritor e jardinista Alexandre Valverde; o músico e compositor Marcelo Jeneci; o fotógrafo, escritor e colunista Roger Cipó; o empreendedor Facundo Guerra, além dos jovens: Fernando Sverner, Matheus Angel e Tomás Novaes. Perdeu algum episódio?

Além disso, muito obrigado aos especialistas que passaram pelo quadro “Lugares Comuns”: Ricardo Goldenberg, Malvina Muszkat e Ana Canosa; e à todos parceiros, parceiras e parceires, em especial ao Culturadoria, e aos ouvintes que nos apoiaram e continuam espalhando o almasculina pra mais gente!

Paulo Azevedo (@pauloazevedooficial) é ator e comunicador, idealizador do podcast almasculina.

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