Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Coisa mais linda: temática relevante em embalagem turística

Segunda temporada da série brasileira na Netflix continua discussões sobre o machismo estrutural da sociedade

A temática abordada pela série Coisa mais linda é tão, tão, tão importante que me parece delicado fazer qualquer observação contrária à produção. Falar sobre feminismo, mostrar os avanços e as conquistas da luta das mulheres por igualdade merece sempre muito destaque. E é isso que Coisa mais linda volta a fazer muito bem na segunda temporada já disponível na Netflix.

Mas, se deixamos a temática – inquestionável – de lado, há sim alguns elementos na série que me incomodam. Sim, este texto é o meu particular ponto de vista. Sendo assim, o que me deixa com pé atrás em relação a Coisa mais linda é a embalagem turística que o ambiente do Rio de Janeiro dos anos 1960 ganha. Um amigo querido tem uma expressão que traduz bem: “macumba pra turista”. Com direito a trilha sonora de alto nível.

Embora esteticamente bonita, a direção de arte e a fotografia da série me passam uma áurea de artificialidade. Acontece com você também? Acho isso uma pena pois no quesito atuação e roteiro, sobretudo como a questão da mulher é retratada, Coisa mais linda brilha

Coisa Mais Linda. Foto: Netflix/Divulgação
Coisa Mais Linda. Foto: Netflix/Divulgação

Segunda temporada

Um caso de feminicídio abre a segunda temporada. Senti falta de uma discussão mais profunda sobre o tema. Sobre este assunto, uma das cenas mais marcantes é quando as amigas Malú (Maria Casadevall), Adélia (Pathy Dejeus) e Thereza (Mel Lisboa) discutem o que poderiam ter feito para evitar que a coisa chegasse ao ponto que chegou. É um mea-culpa que todos deveríamos fazer.

Aquela coisa de que briga de marido e mulher não se mete a colher é antiga, ultrapassada e não faz o menor sentido no tempo em que o número de casos de crimes cresce 22% em 12 estados durante pandemia. Não dá para ficar calada.

Temáticas

E aos poucos, a trancos e barrancos, as mulheres vão tendo cada vez noção clara disso. Isso fica bem claro nos diálogos. É quase uma palestrinha a cada cena. Em todos os episódios há o “despertar” feminista de uma mulher. Apesar disso, eu tive a impressão de que a segunda temporada avança pouco na discussão do universo de temas que escolhe trabalhar em relação à primeira leva de episódios.

É, sim, mais forte e contundente no enfrentamento à sociedade machista e seus sintomas estruturais crônicos. Mas senti falta de um aprofundamento. Não sei se estou conseguindo ser clara. Há um avanço interessante também no modo como as mulheres entendem e discutem a própria sexualidade. Mas, não caberia avançar um pouco mais na reflexão do tema bissexualidade?

Mel Lisboa

Imagino que cada mulher que assista às temporadas de Coisa mais linda se identifique mais com uma ou outra personagem. No meu caso, Thereza, papel de Mel Lisboa, é a preferida. Ela não precisar lidar com os meandros do empreendedorismo – o que cabe a Malu e Adélia -, mas é uma mulher madura. Embora tenha tentado se adequar, enfrenta o machismo estrutural: procura emprego sem autorização do marido, se abre a novas experiências. Mel Lisboa explora muito bem todas as nuances que a personagem lhe oferece.

Apesar da estética “turística” e didatismo exagerado, Coisa mais Linda sempre será uma série defensável pelo tema que escolhe abordar. Tudo que fala sobre a mulher e as conquistas femininas entra na categoria do “quanto mais, melhor”.

 

Coisa Mais Linda. Foto: Netflix/Divulgação
Coisa Mais Linda. Foto: Netflix/Divulgação

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