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Cinema na quarentena: as impressões sobre O poço, filme da Netflix

Longa utiliza elementos de horror para causar choque e reflexão

Por Thiago Fonseca *

03/04/2020 às 15:32 | *Colaborador

Publicidade - Portal UAI
Foto: Netflix / Divulgação

Um filme sensorial, com críticas sociais e que nos faz refletir sobre o que estamos vivendo. São essas as impressões que ficam após assistir O poço, de Galder Gaztelu-Urrutia, nova produção original espanhola da Netflix. O longa lançado em março, é cheio de camadas, interpretações marcantes e um enredo que bate em cada um de maneira distinta. Em resumo, a trama conta sobre a rotina de algumas pessoas em uma prisão vertical. A comida é distribuída de cima para baixo. Assim, quem está nos andares de cima come à vontade. Quem está mais pra baixo, passa fome.

Com menos de um mês no catálogo da plataforma, o longa já figurou entre os top 10 dos mais assistidos no Brasil. Tal sucesso se dá ao roteiro que prende a atenção. O final ambíguo e pouco explicativo abre caminho para diversas interpretações. Um filme que explora do horror para causar reflexões.

Enredo

A história começa quando Goreng (Ivan Massagué) acorda na prisão ao lado de um senhor. À medida em que conversa com o companheiro de andar, vai descobrindo detalhes de como a prisão funciona. Assim como nós espectadores, ele também não sabe de nada. Tudo vai sendo revelado aos poucos.

O local é feito de vários andares, com um vão central, por onde um banquete desce uma vez ao dia. A plataforma fica parada em cada andar por dois minutos. O problema é que os presos são trocados de andar aleatoriamente a cada mês. Este é o ponto central da trama.

Se em um mês você esta no primeiro andar, comendo o melhor, no próximo você pode estar comendo as sobras, ou até mesmo nada. Isso desperta os sentidos mais primitivos nas pessoas que estão lá. Ações que provocam agonia em quem esta assistindo e nos prende.

 

Metáforas

De cara, é possível enxergar que o longa faz críticas ao egoísmo, à falta de empatia e até reflete simbolismo religioso. Desperta em quem esta assistindo uma agonia, ao ver como as pessoas podem agir quando passam fome. Em algumas cenas, por exemplo, é possível ver canibalismo, assassinatos, humilhação.

O paralelo com a realidade dos sistemas econômicos atuais seria uma das maiores críticas do filme. Uma solução encontrada pelo protagonista é repartir a comida, de forma que todos consigam se alimentar. Mas convencer as pessoas a isso é difícil. Quem está em cima, além de desperdiçar, pisa e cospe na comida. Prejudicando o que está em baixo. Sendo assim, o filme explora a natureza egoísta do ser humano. Além disso, mostra que você precisa estar em cima para ferrar quem está em baixo. Na vida real, a comida seria comparada ao dinheiro.

Outras duas metáforas merecem destaque. A primeira é a de que o sistema corrompe as pessoas. Por melhores que elas sejam, vão agir conforme o meio obriga. Em O Poço, a regra é sobreviver. A segunda é a religiosa. Goreng é considerado um Messias, que tenta salvar todos. Os sete pecados também são mostrados no filme, por meio dos objetos levados pelas pessoas. Antes de entrar na prisão cada um tem direito de levar consigo apenas um objeto à sua escolha. Tem gente que leva mala de dinheiro e etc.

ALERTA: O texto continua com SPOILERS

Foto: Netflix / Divulgação

O meio é a mensagem

O sucesso e as repercussões em torno do filme se dão pelo final da trama. O plano de Goreng é mostrar à Administração que seria possível que a plataforma voltasse ao primeiro andar ainda com alguma comida. Dessa forma, chamar atenção e provar que o ser humano não está totalmente preso ao sistema. Mas no meio disso tudo, o personagem, junto com um parceiro de cela, descobre que existe uma menina no último andar.

Ela tornou-se então, a mensagem e seria um motivo para a Administração mudar a conduta. Mas o que nos gera dúvida é se a menina realmente existe: poderia ter nascido ali ou sido levada como um objeto. Ou é uma ilusão de Goreng?

Para tentarmos entender O Poço, podemos usar a teoria de Marshall McLuhan, de que o meio é a mensagem. A expressão quer dizer que nós recebemos mensagens de formas diferentes dependendo de como elas nos são apresentadas. Independentemente da forma como a mensagem seria enviada, há o risco de não ser interpretada da mesma maneira. Sendo assim, talvez ela não seria interpretada pela administração do modo como o protagonista planejou.

Uma prova disso, poderia ser a cena que a Panacota aparece com um fio de cabelo na cozinha. Poderia ser o doce que chegou lá em cima com um fio de cabelo do protagonista, mas que não foi entendido. Em resumo, O Poço é um filme que não tem final certo ou errado, é interpretativo. Um longa que tem objetivo de ser pesado, de chocar e não em passar uma mensagem com início, meio e fim. Tarefa para você, espectador. Óbvio! 😉

 

 

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