Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

“Cinema é uma Droga Pesada”: um filme dentro do filme

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Produção francesa que chegou a ser exibida no Festival Varilux, “Cinema é uma Droga Pesada” entra agora em cartaz na cidade

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Talvez o título brasileiro para o filme “Making Of”, que estreou na quinta-feira, 11 de abril, nos cinemas, possa induzir o espectador a pensar em uma comédia: “Cinema é uma Droga Pesada”. No entanto, o longa do diretor e roteirista Cédric Kahn, distribuído pela Bonfilm, na verdade trata de questões muito pertinentes aos tempos atuais. Na verdade, uma frase dita por um dos personagens capta bem o tom: “Pessoas esmagadas e humilhadas por um capitalismo brutal”. De todo modo, o próprio cineasta usa a expressão “comédia social”.

O ator Denis Podalydès, em cena de "Cinema é uma Droga Pesada’, do diretor e roteirista Cédric Kahn (Bonfilm/Divulgação)
O ator Denis Podalydès, em cena de "Cinema é uma Droga Pesada’, do diretor e roteirista Cédric Kahn (Bonfilm/Divulgação)

A trama tem início mostrando uma cena bastante tensa. Como não há, até ali, uma sinalização de que se trata de um filme dentro do filme, o espectador é induzido a pensar que a narrativa já está se desenvolvendo, na tela do cinema. No entanto, trata-se do set que abriga as filmagens do novo trabalho do personagem Simon (Denis Podalydès). Porém, ali, uma brusca interrupção se faz necessária. É que a equipe percebe que o rapaz responsável por registrar as imagens de bastidores para um posterior making acabou aparecendo na cena. Ou seja, todos os esforços para aquela tomada foram em vão, e será necessário repetir tudo de novo.

Final controverso

Também no início há um acontecimento no set do filme que traz graves implicações. É que, já com as filmagens em curso, os financiadores da produção se dão conta de que o desenlace da história foi alterado. Ou seja, o roteiro por eles aprovado para a obtenção do dinheiro para custear o filme trazia outro the end. E não se trata de uma alteração tênue. No script aprovado, a história – que trata de um grupo de trabalhadores de uma usina que cogitam a possibilidade de autogestão – terminaria com um final feliz. No entanto, o que está sendo filmado prevê um final que, na verdade, é até (bem) mais condizente com a realidade do mundo capitalista – ou seja, sombrio.

E o que pesa na cobrada de posição por parte dos financiadores? É que eles entendem que um final feliz tem mais potencial para alavancar a bilheteria nos cinemas, já que, analisam, ninguém aguenta mais filmes que não apontam para ao menos um esgar de esperança. No entanto, o produtor que trabalha com Simon não abre mão do final mais afinado com o que acontece na vida real.

Impasse

Com o impasse, os financiadores decidem retirar o investimento. Detalhe: assim, de uma só tacada, o filme perde um milhão de dólares. De toda maneira, diretor e produtor, teimosos que só, decidem levar adiante a empreitada, usando, para tal, os 300 mil já repassados. É que o produtor acalenta a esperança de conseguir outras fontes de investimento – na verdade, segundo ele, há vários candidatos. Mas a realidade é bem diferente.

Um figurante no meio do caminho

Paralelamente, Simon começa a prestar atenção em um dos figurantes. Na verdade, um jovem – Joseph (Stefan Crepon) – que se candidatou ao cargo apenas por ver ali uma chance de entregar, ao diretor, um roteiro que escreveu a partir de um episódio real. De início, Simon deixa o material de lado e o convoca para substituir o até então encarregado do making of – aquele, que, como dissemos, apareceu no meio de uma cena, atrapalhando as filmagens. Mas, depois, ao efetivamente ler o roteiro, percebe que o garoto é, sim, muito competente. Não só. Que ele traz dentro de si o vigor que a vida já tirou de Simon.

Diante do impasse de seguir em frente e sustentar o projeto inicial ou voltar atrás e, assim, recuperar o dinheiro dos antigos financiadores, o set continua montado, com a equipe tentando a todo custo diminuir custos. Ou seja, evitando hora extra, cortando cenas do roteiro… Não bastasse, pequenos conflitos se estabelecem no set, como o estranhamento entre a atriz Nadja (Souheila Yacoub, de “Duna 2”/“O Próximo Passo”) e Alain (Jonathan Cohen) ator protagonista, que não aceita muito bem dividir os holofotes.

Paralelo

O mais interessante é o paralelo que se estabelece entre o filme que está sendo rodado e a realidade nos sets. Há, ali, um espelhamento de situações, que, no cômputo geral, apontam para as dificuldades enfrentadas por aqueles que tentam escapar das regras que mantêm o sistema. Na set do filme que está sendo rodado, por exemplo, há o capital querendo impor diretrizes aos realizadores visando o lucro (no caso, a bilheteria das salas de cinema).

No filme dentro do filme, por sua vez, há os líderes sindicais que pregam a união entre o proletariado (e a citada posse da usina, que, a partir daí, funcionaria à base da autogestão). No entanto, há o trabalhador que, isoladamente, está assolado por dívidas e, mais que isso, precisa garantir o pão na mesa no dia seguinte, para não correr o risco de passar fome. Assim, prefere aceitar a indenização que o patrão oferece do que se rebelar. O agora falando mais alto que o futuro.

E mais

Correndo por fora, há outras questões que Simon enfrenta, como o desgaste no casamento, o desinteresse dos filhos… Somando todas as situações, Cédric Kahn realiza um filme que prende o espectador do início ao fim. E por meio do qual obtém êxito na sua assumida pretensão, compartilhada no material de divulgação do longa. “Para mim, essas histórias, ao serem reunidas, se tornam uma comédia social, tendo o cinema com pano de fundo, num mundo que defende causas nobres ao mesmo tempo que reproduz desigualdades sociais”. Uma síntese perfeita.

Serviço

“Cinema é Uma Droga Pesada”

Sala 2 do Centro Cultural Unimed BH Minas

Exibição nos dias 13 e 14/4, às 10h40

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