Foto: Guto Muniz/Divulgação
09 out 2018

Cinco tópicos sobre ‘Outros’, nova peça do Grupo Galpão

Toda estreia do Grupo Galpão é precedida de um agradável encontro com os atores. Em geral, ao chegar a este ponto, os discursos sobre a peça estão prontos. Pois o café da manhã para falar sobre Outros, a 24ª peça da Companhia, foi marcado também por diversos momentos em que os próprios artistas comentavam entre eles sobre elaborações recentes do trabalho. Foram insights que apareceram naquele instante. O que isso significa?

Que Outros (2018) é uma peça em processo. Não tem discurso pré-definido. Talvez não tenha um discurso, mas vários. Não é porque estreia no dia 19 que as elaborações terão um fim. Quem sabe será o contrário? É bem capaz que o público gere outras questões. A temporada vai até o dia 18 de novembro, no Galpão Cine Horto.

“Hoje é eticamente inviável promover experiências no teatro em que a plateia fique isenta. Ela precisa formular alguma coisa, se colocar em estado de afetação”. O comentário do diretor Marcio Abreu, não deixa de ser uma provocação a espectadores passivos. Outros é um espetáculo sobre “a necessidade de ruptura com pensamentos e estruturas arraigadas que já não devem mais nos representar”, conforme descreve o material de divulgação. Confira a seguir cinco pontos destacáveis em Outros.

 

Foto: Guto Muniz/Divulgação

 

Continuidade sem continuar

Maƒrcio Abreu dirigiu o Galpão em Nós (2016). “É uma peça que nos trouxe muitas inquietações, questões que ficaram abertas e achamos importante continuar a parceria”, conta o ator Eduardo Moreira. Segundo ele, o primeiro impulso seria levar para o palco um texto que já estivesse pronto. Pesquisaram novos autores da França, da Rússia. Mas chega uma hora, de acordo com o ator Antônio Edson, que a nova peça parece ir, naturalmente, se apresentando.

Foi neste momento em que todos perceberam que era preciso, uma vez mais, estreitar os laços com a performance, escrever o próprio texto. Convidaram pesquisadores para interlocuções, entre eles, por exemplo, a performer Eleonora Falcão. Os atores se jogaram no improviso. Descobriram outros temas importantes a se abordar, como a questão do público e do privado, da urgência da escuta.

Apesar de seguir o mesmo caminho de Nós, o diretor diz que as duas peças não tem continuação no sentido narrativo. “Mas quem viu vai encontrar rastros”, diz.

 

Verticalidade na performance

“O Marcio não vem para montar um espetáculo, mas para te estimular e descobrir junto com o grupo o que fazer, como fazer”, revela Antônio Edson. Foi assim que todos descobriram que era preciso sair da sala de ensaio. Durante um mês os atores do Galpão fizeram performances em pontos diferentes de Belo Horizonte. Acompanhamos uma delas e você pode conferir aqui.

Se para a atriz Fernanda Vianna o processo se revelou muito libertador, Júlio Maciel destacou o fato dos artistas terem se distanciado do papel de protagonistas. “Estávamos na rua para ouvir as pessoas. Isso enriqueceu muito o trabalho”, afirma ele. Todo o material coletado inspirou o texto final. O Grupo garante que as performances movimentaram um tipo de sensibilidade de escuta.

 

Um novo modo de olhar a rua

Dessa forma, o Galpão, muito conhecido por ser um grupo também de teatro de rua, experimentou olhar para o espaço urbano de outra maneira. Não seriam mais os emissores de algo, mas exercitaram a escuta. Em uma das performances, carregavam pelo centro de Belo Horizonte e também por São Paulo uma mesa. Paravam e convidavam os cidadãos para uma conversa.

Todo a elaboração desse material foi virando dramaturgia na sala de ensaio, com o aprimoramento do texto feito pelo próprio Marcio Abreu, Eduardo Moreira e Paulo André.  Ao partir para a rua, e trazer os temas de lá, Outros radicaliza a experiência de relação com a sociedade. “Um entendimento do que seria a dimensão política na arte. Outros é consequência e consciência de um processo criativo que continua”, explica o diretor.

O próprio Marcio Abreu reconhece que dada a proximidade com a performance, esta é uma peça de “estrutura titubeante”. “Tenta se erguer e tomba. Nos coloca radicalmente fincados no presente, com tudo que ele tem de complexo, de difícil, de patético. É uma consciência radical dessa agora insuportável”, diz.

 

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Afeto, amor e carinho

Mas por mais que o presente tenha se tornado a cada dia mais complexo, não significa que não haja afeto. Ainda mais quando se fala de Grupo Galpão. Todos os exercícios que estimularam a criação de Outros procuraram estimular a criação de materiais de natureza diversa por parte dos atores/autores.

Por exemplo, durante dois meses do processo de montagem a atriz Teuda Bara esteve internada em um hospital. O diretor pediu que os atores escrevessem cartas para Teuda, a partir de algumas orientações. Ela respondeu todas elas. O material estimulou dramaturgia.

O mesmo foi feito com as canções que compõe a trilha sonora da peça. Pela primeira vez na história do Galpão as músicas são criações originais dos atores, agora também compositores. “O objetivo do Marcio era tirar a gente de uma escrita racional”, comenta Lydia Del Picchia. Ao todo fizeram 13 músicas, sendo que cinco estão na versão final da peça.

 

Aberto ao risco

Quem entra na sede do Grupo Galpão, se depara com o texto de Outros pregado em uma parede. Na outra, uma série de indicações. Em resumo: a dramaturgia está pendurada ali.  Essa imagem dá um pouco a dimensão da trajetória da criação e também do quanto há de abertura nesse processo de elaboração. Tem risco? Claro que tem.

Segundo o ator Eduardo Moreira, sempre teve. “Chegamos a um ponto em que o que nos interessa é renovar, experimentar, buscar riscos. O Galpão nunca foi um grupo que se contentou em vestir carapuças”, diz. Desde que se encontrou com Marcio Abreu, o Grupo Galpão faz um teatro mais conectado com questões do nosso tempo. É performativo e sempre existe risco nisso.

Agora, veja bem que curioso, tanto durante a entrevista coletiva, como neste texto, discorremos mais sobre o processo do que sobre o produto. Ou seja, a peça. Eu não sei te dizer se a peça tem uma narrativa, linear ou não. Sei que os atores – Antônio Edson, Beto Franco, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia, Paulo André, Simone Ordones e Teuda Bara – ficam em cena o tempo inteiro. “Não tem coxia?”, perguntei. “Essa peça é uma coxia”, me respondem quase que coletivamente.

 

Foto: Fernando Lara/Divulgação

 

 

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