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Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Cinco pontos sobre a exposição Retratistas do Morro na CâmeraSete

Exposição conta com 47 fotografias de dois fotógrafos do Aglomerado da Serra. Acervo pode ser conferido até o dia 4 de abril

Por Thiago Fonseca *

17/02/2020 às 09:13 | *Colaborador

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Foto: Afonso Pimeira, um dos artistas em exposição

João Mendes começou a fotografar aos 15 anos. Já Afonso Pimenta, aos 13. Ambos na década de 1970. Dessa forma, por anos dedicam a vida e a profissão a registrar o cotidiano dos moradores da Comunidade do Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte. Hoje, quase cinquenta anos depois do início do trabalho, as fotografias ganham as galerias da CâmeraSete – Casa da Fotografia de Minas Gerais, em exposição Retratistas do Morro que revela a história recente da fotografia brasileira.

A curadoria é do artista visual, pesquisador e empreendedor cultural Guilherme Cunha. Em síntese, as 47 obras em exposição são o resultado de um programa de pesquisa, composto de várias etapas. Um trabalho que começou há cinco anos. “As imagens narram uma história de invisibilidade e fazem parte da história recente da fotografia. São narrativas que nunca foram contadas. Em resumo, as fotos revelam outras versões da história das metrópoles e das populações de favela no Brasil, contadas a partir das experiências e visões de mundo de seus próprios moradores”, explica Guilherme.

Nas galerias da exposição é possível encontrar retratos 3×4 e de formatura, feitos por João no período entre 1975 a 1979, e imagens de Afonso, feitas em 1980, sobre eventos, cotidiano, como por exemplo, bailes de soul e festas. João foi percursor da fotografia no aglomerado. Afonso foi um discípulo de João. Ambos construíram uma história por meio de fotografias de fatos cotidianos de onde moravam. Até hoje exercem a profissão.

Atenção no olhar

Os trabalhos dos fotógrafos podem ser conferidos, gratuitamente, até o dia 4 de abril, na CâmeraSete – Casa da Fotografia de Minas Gerais. O espaço que passa despercebido na Praça Sete é um dos equipamentos da Fundação Clovis Salgado. O prédio já abrigou, por exemplo, o Instituto Moreira Salles. O visitante, ao desbravar a exposição Retratistas do Morro, tem que atentar o olhar para pontos importantes do acervo. Confira cinco características importantes da exposição Retratistas do Morro.

retratistas do morro

Retratatos 3×4 feitos por João Mendes – Foto: Thiago Fonseca / Culturadoria

Feições e traços do rosto dos fotografados

Logo na entrada da mostra os retratos 3×4 nos surpreende. Foram realizados para documentos e a impressão é que os fotografados conversam. Dessa forma, a expressão e o brilho no olhar de cada um chamam atenção. Segundo João, muitos deles foram fotografados pela primeira vez na vida e a emoção logo tomou conta. A técnica utilizada também contribui para o efeito. “Como não tinha dinheiro para comprara refletor, usava uma caixa de papelão com uma lâmpada, o que realçava a iluminação. São rostos de uma população miscigenada, trabalhadora e que luta. Em resumo, cada foto conta uma história por trás do clique.

Relação de amor e laços familiares

Em meio a gestos fotográficos que não implicam uma abordagem profissional, os fotógrafos captam diferentes realidades familiares e seus movimentos cotidianos: casamentos, nascimentos, batizados, jogos de futebol, velórios, formaturas e bailes. A foto de destaque da exposição Retratistas do Morro, por exemplo, é da festa de aniversário de Renatinha. “Fotografei o casamento dos pais dela e acompanhei toda a infância. Virei amigo da família”, relembra Afonso. A proximidade e os laços criados com moradores dão às fotografias um caráter intimista e especial. Isso é transpassado ao visitante. A emoção toma conta e nos faz viajar por memórias de um passado. Além disso, demonstra como era a vida e o cotidiano das pessoas.

Registro de uma cultura particular

Com uma câmera Yashica Mat, João fez milhares de fotografias de crianças e adolescentes com becas e em formaturas. Registros que celebra o percurso de diferentes períodos escolares. Já afonso, começou a se consolidar nos registros dos bailes de soul da Comunidade da Serra. Ao longo da década de 80, ele acompanhou os movimentos culturais que traziam a afirmação e força da identidade cultural negra em BH. Sendo assim, o segundo andar é dedicado a essas fotografias. A junção do trabalho dos dois mostra como os rituais e as festas são importantes para a comunidade e para construção de história e identidade.

História invisibilizada

Ao percorrer o acervo da exposição Retratistas do Morro, o visitante descobre que Afonso e João encontraram espaço para registrar memórias da população diante da desigualdade, afirmando a potência de uma memória afetiva e a imagem como um local também de escuta. Com uma história contatada pelos próprios moradores, a exposição nos mostra uma comunidade diferente das reveladas em páginas policiais dos jornais. “João e Afonso possuem uma trajetória artística que ultrapassa a noção do documental, e passa a ser biográfica. Ambos representam suas trajetórias de vida, lutas e conquistas, entrelaçadas ao cotidiano de moradores do Aglomerado da Serra, que são seus pares, já que eles também moram no local”, conta o curador.

Pesquisa e estudos

Por fim, além de despertar sensações, a exposição revela um importante acervo para a pesquisa sobre a fotografia brasileira. Segundo Guilherme, “João e Afonso construíram uma iconografia inédita, das poucas ainda preservadas, em que é possível acessar, por meio da imagem, mudanças nos cenários social, político, econômico e cultural ocorridas nas favelas do Brasil ao longo dos últimos quase 50 anos”. Só foi possível o acervo chegar em uma exposição graças ao trabalho de pesquisa do curador, que há cinco anos trabalha com os dois fotógrafos. Agora, está à disposição, de estudiosos e de pesquisadores, por exemplo. Um rico trabalho que mostra o avanço da fotografia, técnicas utilizadas e conta diversas histórias.

Fotografias do cotidiano no aglomerado da Serra / Foto: Thiago Fonseca / Culturadoria

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