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Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Cinco aprendizados sobre Djonga no lançamento do disco ‘Ladrão’

Rapper mineiro lançou o terceiro disco em um Km de Vantagens Hall lotado na noite do dia 21 de abril

Por Carol Braga

21/04/2019 às 22:36

Publicidade - Portal UAI
Foto: Carol Braga/Culturadoria

O único artista de rap que eu vi ao vivo foi Criolo. Ou seja, tenho pouquíssima experiência nesse quesito. Eu quis ver Djonga. Talvez já tivesse a sensação do que ele representa. Também do quanto é importante ouvir o que ele tem a dizer. Mais que isso: ver e estar a aberta a tudo o que ele tem a me mostrar. Sou mulher, branca, de classe média. Sendo assim, “lugar de fala” não existe aqui. Mesmo assim, fui em busca de “um lugar de escuta”. Saí bastante impactada na noite do dia 21 de abril.

Logo na fila de entrada já me incomodei. Percebi que a tradicional revista de segurança estava mais rigorosa. Eu era a única branquela em meio a poderosas mulheres negras conscientes de seus corpos. Pedi a uma colega que observasse, quando fosse a minha vez, se o critério da revista seria o mesmo. Para nosso espanto, bastou dizer que era jornalista e eu sequer fui revistada. Assustei.

Perguntei: mas você não vai me revistar? Fiquei no vácuo. Um absurdo. Gente, estamos em 2019, em um show de um cara com um discurso contundente contra o racismo e outros temas urgentes da nossa sociedade e não existe igualdade sequer na protocolar revista. Até quando vai isso? Senti vergonha.

Noite simbólica

Naquele momento me dei conta do quanto realmente é simbólico Djonga lançar Ladrão, o terceiro disco da carreira, no “coração da Savassi” em um “lugar de boy”. O show estava marcado para 17h. Dessa maneira, às 17h20 o ator Yuri Marçal, um dos principais nomes da nova safra de Stand Up do Brasil, abriu a parada. A noite de importante tom político começou com humor. A comédia faz pensar e isso é ótimo.

Foram 120 minutos de muito aprendizado e, como já disse – de escuta. Djonga se concentrou no repertório de ‘Ladrão’ mas não deixou de lado canções mais antigas. A música dele é tão potente que eu fiquei felizmente surpresa em ver como as pessoas cantam cada palavra com afinco. Confira a seguir, cinco outros pontos que chamaram mais atenção. Abre alas pro rei!

 

Foto: Carol Braga/Culturadoria

 

Ninguém solta a mão de ninguém

Acredito que o combate de problemas estruturais da sociedade, tais como o racismo, o machismo, por exemplo, se dá em cooperação. Por isso, emociona ver o modo como o público reage a cada frase dita por Djonga. Ali existe uma comunidade de verdade. Pessoas que usam a música para questionar posturas antigas e propor mudanças. Ao ver Djonga em uma conexão tão grande com seu público e com seus amigos, percebe-se a necessidade – e a força – do coletivo.

Djonga se cerca dos amigos. Convida Yuri Marçal para abrir a apresentação misturando humor e política. Presta atenção na potência disso! Depois, abre o palco para nomes como o carioca Felipe Ret, MC Caio e a revelação Sidoka. O carinho como cada um foi recebido por Djonga e pela plateia revela a nítida corrente de colaboração que existe ali. A força dela só vai aumentar.

 

Papo reto

Se o rap de Djonga é um papo reto, quando sobe ao palco estabelece a mesma relação com a plateia. Durante o show isso só foi crescendo. É uma energia impressionante e um ambiente de muito respeito. Arrepiei em diversos momentos. Há uma troca genuína e acredito isso que tenha a ver com a forma como o artista aborda – de maneira cruamente poética – temas que estão ligados ao cotidiano daquelas pessoas. As mensagens são diretas ao falar, por exemplo, sobre a morte dos negros, sobre o preconceito que sofrem diariamente, sobre a preconceituosa postura dos brancos, sobre os abusos que as mulheres negras sofrem. Até quando fala sobre relacionamento amoroso Djonga é autêntico.

As letras merecem ser escutadas e também lidas. É curioso perceber o quanto Djonga é sofisticado nas referências, mas não perde a conexão com quem deseja. Para se ter uma ideia, cita filmes de Glauber Rocha, fala em Oscar Niemeyer, Henfil e Shakespeare para potencializar a comunicação sem subestimar quem ouve.

 

Ancestralidade

Djonga tem um respeito imenso pelo lugar de onde veio e também pela família. Tanto que ele terminou o show com um discurso sobre a importância das raízes. A fonte de energia dele está na relação que constrói com a avó, com os pais, com o filho. Isso fica claro nas músicas e ele também fala sobre isso nos vídeos. Se a mensagem está bem explícita na letra de Bença, ficou ainda mais forte na hora em que ele levou todos eles para o palco. A personificação daquele amor em família dá ainda mais contundência ao que ele fala. Obviamente foram extremamente aplaudidos. Um dos pontos altos do lançamento do disco “Ladrão” no Km de Vantagens Hall.

 

‘Fogo nos racista’

A frase da música “Olho de Tigre” é a que estampa a camiseta vendida no show. É também com ela que Djonga começou a apresentação. Depois tirou, ficando sem camisa e apenas com duas guias de Umbanda. ‘Fogo nos racista’ é uma frase bastante significativa além de ser, obviamente, simbólica. Ocupar aquele palco, por exemplo, não deixa de ser um modo de atear fogo nos racistas mesmo. Durante o show Djonga contou sobre as vezes em que precisou estar na Savassi e presenciou lidar com brancos segurando bolsa ou fechando a janela do carro. “Olha onde eu tô. No palco, no palco, no palco da região deles. Eles precisam entender que os filhos deles me amam. As filhas deles me amam. Trabalhei pra isso”, disse, antes de ser ovacionado.

 

Posicionamento político

Ainda com as cortinas fechadas, Djonga disparou o discurso. “Que porra de país é esse? Dá 80 tiros e fala que confundiu”. Depois disso, o público só abriu portas pro rei.  Ninguém estava ali para esconder posicionamento político. Dessa maneira, foram várias as críticas ao presidente Jair Bolsonaro. “A verdade é que as pessoas não gostam de você. Eu também não”, disse. Foi só a primeira alfinetada. Yuri Marçal foi além. “Tivemos um presidente que não tinha um dedo, mas sem cérebro é demais”.

Já mais para o final do show foi o próprio Yuri que voltou ao palco com uma máscara do tipo usada pela organização racista americana Ku Klux Klan (KKK). Ela foi arremessada para a plateia e totalmente destruída em uma roda de bate cabeça.  Mais uma cena muito simbólica para marcar esse histórico lançamento de ‘Ladrão’.

 

Fica a dica: confira a crítica do show por Ângela Faria do Estado de Minas!

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