Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Cia Circunstância estreia “El Grande Circo Firinfinfim”

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Com direção de Rodrigo Negão e a presença de convidados especiais, espetáculo da Circunstância estreia nos dias 13 e 14 de julho em Belo Horizonte

Equipe Culturadoria *

Para comemorar os 20 anos de trajetória, a Cia Circunstância estreia, neste sábado e domingo, dias 13 e 14 de julho, o espetáculo “El Grande Circo Firinfinfim”. A peça é inspirada no livro “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, do pensador, ambientalista, filósofo, poeta e escritor brasileiro Ailton Krenak, mas aliada à linguagem circense, principalmente no que tange à palhaçaria. Assim, a história flagra uma trupe de circo mambembe e propõe, com pitadas inclusive de humor, novas perspectivas sobre a estrutura social ocidental. No sábado, o espetáculo se realiza na Ocupação Dandara, no bairro Trevo, com intérprete de Libras. Já no domingo, às 15h30, no Quilombo dos Luízes. A entrada é gratuita em ambos os casos.

A nova montagem da Cia Circunstância estreia neste sábado, 13 de julho (Lina Mintz/Divulgação)
A nova montagem da Cia Circunstância estreia neste sábado, 13 de julho (Lina Mintz/Divulgação)

Logo no início do processo de montagem do novo espetáculo, a Cia Circunstância convidou Krenak para ministrar uma palestra sobre o livro que inspirou a proposição da criação da peça. A atriz Dagmar Bedê conta que o grupo percebeu como as ideias na obra trabalhadas dialogavam, de certa forma, com a lógica da palhaçaria. Especificamente, na ideia de que, mesmo com tudo parecendo perdido, ainda há esperança. Mas não uma esperança tola, frisa ela. “Não que num passe de mágica tudo se recomponha com a força do pensamento. Mas, sim, acreditar que podemos deixar a vida mais leve e promover pequenas mudanças cotidianas para que a realidade seja menos dura e mais colorida. E esse caminho se faz também através da arte – em especial, do circo”, pontua ela.

Premissa

Além de Dagmar, o elenco do espetáculo traz Diogo Dias, também da Cia Circunstância, e os artistas convidados Manu Pessoa, Michelle Sá e Rafael Bottaro. A peça, que fala sobre o último dia antes do fim do mundo pela visão de uma trupe circense, leva ao palco figuras icônicas do circo brasileiro. Ou seja, a rumbeira, o domador, a equilibrista, o mágico e o malabarista faz-tudo. A estética é inspirada no filme “Bye Bye Brasil”, de Cacá Diegues, no qual uma trupe mambembe roda o interior do país. Desse modo, os artistas se envolvem em situações que combinam contradições entre o moderno e o tradicional. Tudo permeado por pautas como o aquecimento global, a devastação ambiental ou o extermínio dos povos originários. 

Em cena, a atriz Michelle Sá faz o papel do mágico Din Din Don Don. Só que, em vez de uma varinha mágica, ela possui um berimbau e, do chapéu dela, saem coisas que ecoam temas pautados no pensamento de Krenak. “Como, por exemplo, o fato de estarmos inseridos numa sociedade que não se integra aos outros seres vivos. Assim, é uma montagem que mistura – na minha opinião, de maneira interessante – as linguagens do circo e a filosofia do pensamento de Krenak”, revela.

Dramaturgia

Artista da cena, dramaturga e pesquisadora, Idylla Silmarovi conta que, ao se deparar com o livro de Ailton Krenak, entendeu a responsabilidade de pensá-lo numa perspectiva cênica, com enfoque na palhaçaria. “A primeira questão que abordo – e que para mim é basilar no livro – é quando Krenak fala que adiar o fim do mundo é contar mais uma história. E temos várias, como a colonização e a escravidão. Só no planeta Terra aconteceram cinco processos de extinção em massa, e o nosso fim do mundo é mais um fim de um organismo que é o planeta, que possui bilhões de anos”, ressalta.

A dramaturga entende que a humanidade lida com esse fim do mundo como se fosse o fim de tudo. Neste sentido, a proposta também é brincar um pouco sobre isso. “Alguns fins de mundo que o espetáculo abarca são reais, já aconteceram. E outros são sonhos. Me recordo de uma fala de um ativista do povo Lakota (NR. Ela se refere a um discurso de Russell Means, em julho de 1980, no Encontro Internacional de Sobrevivência de Black Hills, realizado no estado de Dakota do Sul, EUA), na qual afirmava que, para que a América possa viver, a Europa precisava morrer. E aí, no contexto do livro do Ailton, existe um ponto que fico analisando, que são mundos que precisam acabar de fato para que outros possam seguir vivos”, reflete.

Trabalho coletivo

Muitas das ideias que pavimentaram o novo espetáculo da Cia Circunstância foram propostas pelo coletivo e contaram, em grande parte, com textos de autoria de Idylla. No entanto, todos os integrantes da companhia trabalharam com a composição. Idylla também ressalta o trabalho de Rodrigo Negão, que, aponta, foi fundamental no processo. E também a compreensão de que seria um espetáculo de palhaçaria. “Não foi um texto que eu escrevi de gabinete e entreguei para a Circunstância. Foi criado em sala de ensaio. E tudo foi acontecendo a partir de uma mediação dos desejos, tendo em vista que o elenco e a direção eram, digamos assim, a mesma pessoa”, diz.

“No fim das contas eu espero com esse texto a gente consiga honrar também, em alguma medida, a trajetória do Ailton Krenak. E, desse modo, demonstrar o nosso respeito pelo trabalho dele, pelo pensamento dele. E também honrar a tradição circense das famílias do circo, das pessoas que seguem fazendo a rua viva, adiando o fim do mundo. A arte não vai resolver os problemas, mas eu espero que a gente plante esse pensamento pelo menos na rua. Contar mais uma história na praça pública e ganhar, sei lá, mais três minutos de vida”, destaca Idylla.

Direção cênica e musical

Rodrigo Negão, citado por Idylla, seria, a princípio, um dos atores da peça. No entanto, em função de uma lesão no joelho, não pode integrar o elenco desta montagem. E, assim, assumiu a direção cênica e musical.  “El Grande Circo Firinfinfim”, da Circunstância, conta ele, trabalhou, basicamente, com músicas de conhecimento popular. “A partir da provocação das propostas do elenco, a ideia foi construir uma direção musical que fosse ‘fácil’ ao ouvido do público. Do mesmo modo, que tivesse uma aderência intuitiva, uma relação afetiva com a equipe”. Neste sentido, ele situa que a sua função esteve muito voltada a organizar esse material, bem como estabelecer um cronograma de trabalho cotidiano. E, ainda, achar os tons de cada cena, “propor movimentações, tirar algumas monotonias”.

Sinopse

Na trama do espetáculo da Cia Circunstância, o Circo Firinfinfim recebe, de um grande trapezista, a incumbência de espalhar aos quatro cantos uma grande notícia: o fim do mundo já começou, e há muito tempo. Assim, está em cada árvore arrancada, em cada terra tomada, em cada sonho abandonado. Mas como não dá mais tempo de sermos pessimistas, os palhaços do Firinfinfim, se inspiram na obra de Krenak para viajar pelo tempo e, desse modo, tecer ideias sobre como adiar o fim do mundo.

(* construção de texto a partir de material recebido pela assessoria de imprensa do espetáculo)

Serviço

Espetáculo “El Grande Circo Firinfinfim”Cia Circunstância

Onde e quando

13 de julho, às 15h30, no Ocupação Dandara (Rua dos Quilombos, 132, Bairro Trevo)
14 de julho, às 15h30, no Quilombo dos Luízes (Rua Artur Ferrari, 140)

Quanto. Entrada é gratuita.

Intérprete de LIBRAS no dia 13 de julho

*Mais informações no Instagram @ciacircunstancia e no site https://ciacircunstancia.com.br/.

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