Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Cia Candongas convida o público a interagir na peça “Uiraçu”

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Em cartaz na Funarte MG, “Uiraçu”, da Cia Candongas, propõe uma experiência ainda mais visceral no que tange à junção de teatro e jogos

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Em cartaz na Funarte MG, “Uiraçu”, novo espetáculo da Cia Candongas, adentrou o palco com a proposta de envolver o público até a medula, na apresentação. Assim, ao adquirir o ingresso, o espectador é convidado a entrar no site da peça e, daí, criar um avatar. Trocando em miúdos, uma personalidade própria, que, assim, permitirá o acesso às dinâmicas da brincadeira à qual assistirá no palco. Depois, haverá um sorteio para compor o batalhão de cada um dos personagens da trama: Dadinha, Gentil, Joca, Luz ou Tipé. Assim, cada “jogador” participa defendendo um bando. E é esse desempenho que determinará o destino do líder no espetáculo.

Cena de “Uiraçu”, segunda parte da trilogia proposta pela Cia. Candongas (Aline Teixeira/Divulgação)
Cena de “Uiraçu”, segunda parte da trilogia proposta pela Cia. Candongas (Aline Teixeira/Divulgação)

Estruturalmente, “Uiraçu” é baseada na ideia do jogo Detetive, onde existiam vítima, polícia e o assassino. No que tange ao texto, no livro “A Águia e a Galinha”, de Leonardo Boff. Assim, na versão da Candongas, as vítimas são chamadas de galinhas; enquanto os policiais são os lobos e os assassinos, as águias, Conforme o material de divulgação da iniciativa, a peça acontece em um mundo no qual a população está subjugada a um poder repressor, chamado “Uniformidade”. Este, por sua vez, está associado a outra entidade que lucra com a repressão: o “Mercado Financeiro”.

Repressão

A partir daí, além de reprimir as ações do povo, os vilões limitam até a distribuição de oxigênio, como forma de manter os subjugados sob controle e, assim, acumular mais riqueza Mas, indignados com a situação, na narrativa proposta pela Candongas, algumas pessoas partem para criar um coletivo. O objetivo é que, unidas, organizem uma rebelião contra o poder opressor da Uniformidade. Logo, passam a criar estratégias a partir do “Estatuto Vital”. Vale dizer que o estatuto propõe um modelo de relação entre as pessoas baseado na empatia, no amor e, tal qual, em valores rejeitados pela opressão.

Trilogia

O pontapé inicial para a criação de Uiraçu começou em 2018. Gustavo Bartolozzi, gestor da Cia Candongas, conta que, até o final daquele ano, vigorava, no grupo, a ideia de dar sequência à pesquisa da Cia Candongas no campo do Teatro do Absurdo, da distopia, que surgiu a partir da montagem de “Sísifos” (2017). “A partir deste ponto, (o desejo era) realizar o segundo passo de uma trilogia sobre os temas e, assim, construir uma inovação juntando possibilidades das áreas do teatro e dos jogos”.

À época, tanto ele quanto Claudia Henrique, também da Candongas, estavam estudando temas que se casavam com a dinâmica do que viria a ser a peça. Ela fazia um curso de teatro e tecnologia na UFMG, enquanto Gustavo estudava Gestão de Negócios, tendo o foco do trabalho final dele sido sobre teatro e jogos. Quando finalizaram os estudos, veio a ideia de juntar estes dois mundos: o do teatro e o dos jogos.

Paulo Flores

A montagem “Uiraçu” é dirigida por Paulo Flores, fundador do grupo teatral gaúcho Ói Nóis Aqui Traveiz, o que, de acordo com Bartolozzi, é um baita privilégio. “Um estímulo que nos traz a convicção do poder do teatro como laboratório para estímulo do pensamento crítico que possa desenhar um futuro melhor”. Ainda de acordo com Gustavo, a forma como Flores desenvolve seu trabalho está totalmente alinhada com os temas que refletem a história da Candongas

Após terem peça e jogo testados em diversos ensaios abertos, realizados no Centro Cultural Casa de Candongas, além de um último, já na Funarte MG, veio a estreia. Assim, a Candongas encontrou o público no último dia 27 de setembro. Azeitados, sim, mas nem por isso 100% tranquilos. “É diferente, né?”, pontua Gustavo. “Como se diz popularmente: ‘Treino é treino e jogo é jogo'”. De toda forma, o espetáculo e o jogo transcorreram a contento na estreia. “O maior desafio da inovação passa por uma questão de ‘educação’ do público ou ‘costume’ com as características da experiência”, analisa o gestor.

Processo

E mesmo tendo a Candongas chegado à estreia com a percepção de ter conseguido superar os desafios (“ou resolver os problemas dramatúrgicos e tecnológicos”) impostos pela proposta de inovação, a precaução ditou uma medida adotada. Assim, há uma equipe de produção e uma de programação do jogo executando o espetáculo. “Todos com grande conhecimento das questões mais levantadas pelo público e pelas coordenações da Candongas”, situa Gustavo Bartolozzi.

In loco

Gustavo ressalta que, habitualmente, quando qualquer pessoa se dispõe a encarar um jogo pela primeira vez, inevitavelmente se vê diante do desafio de aprender as regras do mesmo para só depois ir a campo. “No caso da plateia do teatro, geralmente não temos o costume de ler ou aprender as regras com antecedência. Compramos o ingresso e vamos. No máximo, o espectador procura saber sobre o tema do espetáculo ou questões de interesse. Neste caso em particular, por enquanto, mesmo com tutoriais nas redes sociais da Candongas, estamos ensinando o jogo à plateia antes e durante a peça. Mas acreditamos que, logo, logo, as especificações interativas já serão apreendidas por grande parte das pessoas”.

Uma coisa é certa: “É muito divertido ver as pessoas interagirem com outras que não conhecem. (Tal qual) rirem entre si, tentarem influenciar o direcionamento do espetáculo e muito mais. Vários retornos que temos convergem no sentido de que as pessoas desejam voltar para jogar melhor e influenciarem mais o espetáculo”, brinda o gestor da Candongas.

Equipe

No elenco, além de Gustavo Bartolozzi que também é ator, estão Helena Marques, Wesley Simões, Drica Chaves e Rodolfo Goular. O texto da peça foi escrito pelo Núcleo de Dramaturgia da Candongas, formado por Bartolozzi e Guilherme Theo, com orientação Anderson Feliciano. Para Gustavo, as principais provocações do espetáculo centram-se tanto no aspecto lúdico como parte integrante da encenação quanto no conceito dramatúrgico da peça. “Esta foi uma das grandes buscas dos dramaturgos. Logo, fazer com que o espetáculo e o jogo fossem completamente integrados, dependentes um do outro. Assim, que se justificassem e se somassem. Que construíssem sentido juntos, formando uma só obra de arte interativa. Isso foi feito”, avalia.

Já em relação ao público, Gustavo diz que o que a Candongas deseja transmitir pode ser resumido na ideia de que sim, podemos sonhar. “Sonhar com o melhor para si, para o outro e para o mundo. E que para isso é necessário movimento, interação. Em outras palavras, exercer cidadania. Como está no livro ‘A Águia e a Galinha’”.

Leonardo Boff

Como dito no início da matéria, a maior referência para a construção do texto do espetáculo “Uiraçu”, da Cia Candongas, foi o livro “A Águia e a Galinha”, de Leonardo Boff, citado por Gustavo na última fala. Na obra, o autor relata uma fábula utilizada por James Aggrey (educador social e líder político da república de Gana, na África Ocidental). Gustavo aproveita para citar uma pequena passagem do livro:

“… E Aggrey terminou conclamando:
– Irmãos e irmãs, meus compatriotas! Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus! Mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E muitos de nós ainda acham que somos efetivamente galinhas. Mas nós somos águias. Por isso, companheiros e companheiras, abramos as asas e voemos. Voemos como as águias. Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem aos pés para ciscar…”

“Como diz no Uiraçu: ‘“Que as galinhas criadas para não brilhar/Tenham dignidade e liberdade de sonhar/
Batam suas asas e ganhem altura no ar/Pois as galinhas também merecem voar”.

O Projeto “Uiraçu” é realizado pela Cia Candongas com patrocínio da Lei de Incentivo à Cultura, Lei Estadual de Incentivo à Cultura, Cemig, Governo de Minas Gerais e copatrocínio da Copasa.

Serviço

Temporada “Uiraçu” – Cia Candongas

2ª semana: de 5 a 8 de outubro
Horário:
– quinta a sábado (5 a 7/10), às 20h
– domingo (8/10), às 19h
Onde: Funarte (Galpão 4) – Rua Januária, 68 – Centro
Capacidade: 120 pessoas
Classificação etária: a partir de 16 anos
Duração: 1h20
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)
Vendas: https://www.sympla.com.br/evento/espetaculo-uiracu/2157895
Cia Candongas: https://uiracu.ciacandongas.com.br/
Tutorial do jogo: https://www.youtube.com/watch?v=emkRMO7xmwE

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