Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

CCBB BH recebe “Mostra Mulheres Mágicas: Reinvenções da Bruxa no Cinema”

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Após Brasília e São Paulo, BH recebe mostra que investiga como a figura da bruxa foi construída ao longo da história do cinema

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Depois de passar por Brasília e de estar concluindo o ciclo no CCBB SP, a 2ª edição da “Mostra Mulheres Mágicas: Reinvenções da Bruxa no Cinema” chega nesta quarta-feira, dia 24 de abril, a BH. Dessa forma, até 20 de maio, a exibição de 28 obras (de várias épocas e originárias de vários países, como Alemanha, França, México, entre outros não menos importantes) lança foco em formas de representação dos corpos e saberes femininos, que muitas vezes, foram rotulados e estigmatizados. A programação também contempla debates e oficina gratuitos, bem como lançamento de catálogo.

Frame do filme "A Paixão de Joana D'Arc", de 1928, de Carl Theodor Dreyer: um dos destaques da mostra (Captura de tela)
Frame do filme "A Paixão de Joana D'Arc", de 1928, de Carl Theodor Dreyer: um dos destaques da mostra (Captura de tela)

Com curadoria de Carla Italiano, Juliana Gusman e Tatiana Mitre, a programação traz filmes de diferentes gêneros, transitando entre ficção, documentário, experimental e performance. De acordo com o material de apresentação, assim, a seleção percorre a iconografia clássica das mulheres “más”, passando pelas histórias de perseguição no período medieval e no alvorecer da idade moderna, até o resgate da bruxa como símbolo de empoderamento feminino na passagem para o século XXI.

Processo curatorial

Ao Culturadoria, Juliana Gusman contou que o trabalho curatorial foi bem intenso. “A gente teve que passar por diversos títulos, de diferentes contextos, países, modos de produção… E que acionam de formas mais ou menos óbvias esse imaginário da bruxa e da bruxaria”. Na verdade, ela revela que o trio já iniciou o trabalho com algumas diretrizes curatoriais, o que, de certa forma, norteou o processo de seleção dentro de um conjunto muito vasto, interessante e rico, nas palavras dela.

“A bruxa é uma figura extremamente explorada desde o primeiro cinema e, ao longo dessa história, foi ganhando facetas cada vez mais complexas. Assim, a gente teve alguns critérios que nos orientaram para selecionar quais filmes entrariam no recorte que a gente está propondo. A curadoria é um recorte dessas possibilidades de aparecimento da bruxa no cinema, que, claro, não se pretende completo, mas por causa desses critérios a gente quis dar conta minimamente de algumas questões”, elucida.

Eixos

Juliana situa que a mostra é dividida em dois eixos curatoriais. Primeiramente, o Lado A – “A bruxa através dos tempos: imagens clássicas”. “Nele, a gente apresenta os principais tropos que formam os arquétipos das bruxas no cinema”. O segundo eixo, por seu turno, é o Lado B – “Bruxas contemporâneas: corpos indomáveis saberes ancestrais”. “Nele, a gente apresenta os contrapontos que reimaginam politicamente essa figura, e que são pensados sobretudo por cineastas mulheres a partir de perspectivas feministas”.

Para cada um desses eixos, o trio de curadoras teve algumas orientações. “De toda forma, uma questão que foi muito importante em ambos foi a temporal, ou seja, é uma mostra que tem um recorte historiográfico, que pretende fazer esse gesto historiográfico. Assim, era importante que a gente contemplasse pelo menos um título de cada década desde o início do cinema”.

Exemplos

Sendo assim, o filme mais antigo é “A Fada do Repolho, da Alice Guy, que, lembra Juliana, é um filme que tem uma datação controvérsia. “É datado como de 1896 e de 1900, mas, de qualquer forma, é representante desse primeiro cinema”. Já o filme mais contemporâneo é desse ano, de 2024. “Ou seja, a gente quis dar conta, nos dois lados da curadoria, desse recorte temporal e historiográfico, pensando quais foram as principais tendências de representação em cada década do cinema”.

No lado A, a curadoria procurou filmes que abarcassem três pontos importantes da representação da bruxaria. “E aí a gente tem uma vertente muito frutífera, que são os filmes de terror. Produções que vão representar a bruxa como esse símbolo, como essa encarnação da mulher monstruosa. A bruxa, ela é a versão feminina da monstruosidade por excelência. Assim, a gente buscou vários filmes dentro desse recorte”.

Década de 60

Neste escaninho, está, por exemplo, “Viy – O Espírito do Mal”, de Konstantin Yershov e Georgi Kropachyov, que é um clássico do cinema soviético dos anos 1960. Tal qual, o britânico “A Filha de Satã”, também da mesma década, que, lembra Juliana, foi muito prolífica para o cinema de horror. “E tem ‘O Espelho da Bruxa’, de Chano Urueta, que é um filme mexicano de 1962. Então, um primeiro recorte foi pensar essas variações geográficas da bruxa no cinema de horror”.

Por outro lado, a mostra também se propõe a colocar em relevo outra faceta da figura da bruxa: a de símbolo de sedução, aqui representado na programação pelo filme “Casei-me com uma Feiticeira” de René Clair (frame abaixo). “Que, aliás, vai ser um filme que vai inspirar representações subsequentes”.

No universo da comédia

Neste caso, Juliana se refere à presença da figura da bruxa na comédia romântica, que, aponta, é bastante forte nos anos 1940 e 50. “E segue sendo uma corrente que vai inspirar produções principalmente a partir dos anos 1980 e 90. Ou seja, a figura dessa bruxa mais ‘leve’, mais sedutora. E que também vai inspirar representações na cultura audiovisual de uma forma mais ampla, como na série televisiva ‘A Feiticeira'”.

Caça às bruxas

Por fim, ainda no bojo do primeiro eixo, a curadoria quis incluir filmes que tratassem dos processos históricos de caça às bruxas. Neste caso, situa Juliana, há dois filmes fundamentais. Primeiramente, o francês “A Paixão de Joana D’Arc”, de Carl Theodor Dreyer”, clássico do cinema mudo, de 1928. “Fala do julgamento de Joana D’Arc, que foi queimada como uma bruxa herege no século XV”.

E, ainda, o também francês “As Feiticeiras de Salém”, de Raymond Rouleau, de 1957. “Que trata do processo que aconteceu em Salém, já no século XVII, em que a gente vai ter uma perseguição bastante específica às mulheres. Então a gente tem, no lado A, filmes de diferentes décadas que dão conta dessa bruxa, da romântica e da bruxa histórica. E aí cabe destacar também que, dentro da vertente do horror, há um título muito especial, que é ‘A Praga’ do José Mojica Marins, o lendário Zé do Caixão”.

Made in Brasil

Ou seja, um representante brasileiro da tradição de representação das bruxas. “O Brasil não foi um país tão engajado com essa figura em termos cinematográficos. A gente tem algumas bruxas específicas na história do cinema, mas certamente o Mojica é uma figura incontornável para pensar esse terror no contexto do Brasil”, contextualiza Juliana Gusman.

Feedback

Perguntada sobre o feedback aferida nas praças pelas quais a iniciativa já passou (no caso de São Paulo, reiterando, ainda em curso), Juliana conta esteve presencialmenter em ambas. “E foram experiências muito incríveis. Em Brasília, um público numeroso. Sessões lotadas, muitas pessoas de várias idades, de gerações distintas, interessadas, por diferentes motivos, nesse tema. Aliás, a gente teve a oportunidade de ter um debate com a professora Mariana Souto sobre o filme ‘Medusa’, da Anita Rocha da Silveira, que foi incrível. Instigou muito a plateia. E também foi uma experiência única, assistir aos filmes coletivamente, principalmente com a presença, na plateia, de tantas mulheres, o que, aliás, me chamou muita atenção”.

Em São Paulo, um dos encontros já sinaliza um desdobramento: a criação de um grupo que, por seu turno, pretende formar um clube de leitura sobre o tema. “Então, estou percebendo essa reverberação”. Já em Brasília, ela enfatiza as oficinas, que, lembra, foram muito prestigiadas. Já quanto as exibições, Juliana comenta: “Vi as pessoas dando risada em certas horas, em outras, senti constrangimentos, incômodos. Espero que em BH a gente também tenha essas oportunidades de estar juntos e juntas, pensando nesses filmes e extrapolando a própria mostra”.

Atividades especiais

Na capital mineira, também haverá atividades especiais. Na abertura, por exemplo, haverá um bate-papo após a sessão (leia abaixo, no serviço). Do mesmo modo, haverá sessões comentadas nos dias 4, 16 e 17 de maio. No dia 4, às 16h, o artista jomaka conduzirá um debate sobre o filme “Orlando, Minha Biografia Política” (2022), de Paul B. Preciado, que foi produzido como uma carta cinematográfica à Virginia Woolf. Abaixo, frame do filme.

No dia 16, às 18h30, “O Espelho da Bruxa” (1962), de Chano Urueta, será comentado pela pesquisadora, crítica e podcaster Yasmine Evaristo. Já no dia 17, às 14h, a curadora Tatiana Mitre conversará com o público infantil sobre o “A Fada do Repolho”, de Alice Guy. Tal qual, sobre o clássico “Branca de Neve e os Sete Anões” (1937), de David Hand, Perce Pearce, William Cottrell, Larry Morey, Wilfred Jackson e Ben Sharpsteen. 

Oficina gratuita

No dia 18 de maio, sábado, às 14h, a professora e pesquisadora Roberta Veiga conduzirá a oficina gratuita “Como o feminismo e a bruxaria se enlaçam: por um inventário cinematográfico de feitiços e feiticeiras”. No curso, será traçada uma história das bruxas no cinema, que será a todo tempo atravessada e perturbada por uma perspectiva feminista.

Desse modo, a ideia é construir um inventário com cenas, performances e imagens, desses filmes-arquivos da mostra. Tal qual, de outras obras da primeira mostra “Mulheres Mágicas” e para além do cinema, de modo a estabelecer um diagrama tipológico dessa figura. Pessoas acima de 12 anos poderão se inscrever através de formulário no site e redes sociais da mostra. 

Online

A 2ª edição da “Mostra Mulheres Mágicas: Reinvenções da Bruxa no Cinema” também contará com uma programação online. Ela acontece entre os dias 26 de abril e 05 de maio. Assim, os filmes “Rami Rami Kirani”, de Lira Mawapai HuniKuin e Luciana Tira HuniKuin (2024), e “Para Sempre Condenadas”, de Su Friedrich (1987), estarão disponíveis gratuitamente para todo Brasil no site http://www.mulheresmagicas.com.

em BH, além da abertura no dia 24 com o filme A Paixão de Vana Dark, em que eu e outra curadora da amostra, Carla Italiano, que junto com a Tatiana Mitter, são as idealizadoras da amostra, a gente vai comentar o filme A Paixão de Vana Dark, do Karl Dreyer. No dia 4 de maio a gente vai ter um debate comentado do Orlando, minha biografia política.

Confira mais no site do projeto

Serviço

Mostra Mulheres Mágicas: Reinvenções da Bruxa no Cinema

Quando. 24 de abril a 20 de maio – De quarta a segunda. Horários de acordo com a programação.

A sessão de abertura, no dia 24/04, às 18h30, terá a exibição do filme “A Paixão de Joana D’Arc“. Após a exibição, as curadoras Carla Italiano e Juliana Gusman conduzirão um debate sobre o filme.

Onde. Teatro II Centro Cultural Banco do Brasil BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários)

Classificação indicativa: de Livre a 16 anos. Consultar programação.

Ingressos: R$10 inteira / R$5 meia, disponíveis no site ccbb.com.br/bh e na bilheteria do CCBB BH

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