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Breve Festival: olhando por diferentes pontos

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Problemas na organização do Breve Festival, primeiro grande evento de BH após reabertura da cidade, não impediram a festa de ser alegre, viva e diversa

por Letícia Finamore | Culturadora

Voltar a frequentar festivais de música parecia uma realidade tão longínqua, embora o desejo estivesse sempre por perto. Como será o retorno a eventos com tantas pessoas, shows, espetáculos, exposições? Pouco a pouco o mundo foi voltando às atividades, museus foram reabertos e eventos começaram a ser remarcados. O Breve Festival, planejado para ser realizado em 2020, teve de ser adiado em razão da pandemia – e chegou com tudo quase dois anos depois de sua primeira data marcada. Em resumo: foi o maior evento em BH no período “pós-pandêmico”.

Com uma line up de diversas atrações, o Breve matou a sede do público que ansiava por vivências assim como as que eram presenciadas antes de março de 2020. O evento, transmitido em rede nacional pelo canal TNT, se mostrou plural, de modo que abordou diversos gêneros, públicos, interações e experiências. Mais do que um festival de música, o Breve dispôs instalações artísticas em vários pontos do Mineirão.

É claro que viraram points “instagramáveis” para as fotos das pessoas que transitavam entre um palco e outro. O próprio estádio de futebol se tornou uma obra de arte: luzes de todas as cores foram projetadas na arquitetura externa do Gigante da Pampulha. Tais monumentos e projeções eram agradáveis aos olhos, e conversavam com o evento de forma natural e ornamental.

Estrutura

O que não era bonito de ser visto, no entanto, era o chão do festival. Com o passar das horas, latas e garrafas inundavam a passarela do público, que nem mesmo era capaz de depositar o material reciclável em lixeiras. Além de serem poucas, elas ficaram escondidas, tímidas, e quase não eram vistas. Algumas, quando encontradas, transbordavam de dejetos, e mesmo com o tempo não eram trocadas.

Este não é o único ponto negativo. Mesmo com um mapinha divulgado nas redes sociais do festival, os palcos eram mal indicados – principalmente o Radar. A intenção deste era, justamente, “colocar no radar” artistas em início de carreira ou pouco difundidos na capital mineira. Com placas que indicavam “saída” ao invés de “palco”, as atrações tiveram que se contentar com uma quantidade menor do que ansiavam. 

Rotas

Além dos dois palcos situados na esplanada – Breve e Amstel – e do Radar, localizado meio nível abaixo, um terceiro, o Breve Clube, estava dentro do Mineirão. O clima era de outro festival, completamente diferente. Não por causa das atrações, unicamente do gênero eletrônico, mas por toda a experiência de estar dentro do Mineirão. O público podia usar os banheiros e bebedouros da parte de dentro do estádio. Mas nem todos os visitantes sabiam, o que criava enormes filas, apesar de organizadas, em torno dos banheiros químicos localizados logo na entrada do estádio.

A possibilidade de utilizar banheiros com melhor estrutura é atraente, porém eles não dispunham de sabonete ou álcool em gel, itens essenciais para o combate à pandemia. Perguntei a alguns seguranças, enfermeiros e funcionários do bar onde poderia encontrar um pouco de álcool em gel para limpar minhas mãos: ninguém sabia me responder.

Não levar álcool em gel não era despreparo de minha parte. Afinal, gostaria de economizar no peso. O que eu não imaginava era que, em um evento com as proporções do Breve, eu não contaria com a ausência de um dos itens que mais utilizamos nos últimos dois anos.

Mais atropelos

Os problemas de organização também podiam ser vistos no que diz respeito às vendas de produtos. A “moeda” do festival era um cartão: ao chegar no evento, era preciso adquirir por R$7. A partir dali, você depositava o valor que quisesse para, enfim, gastar no festival com comidas, bebidas, cigarros eletrônicos e demais produtos. Dava para recuperar o valor investido no final ou então trocar por uma garrafa de água.

Eu preferi trocar pelo valor, uma vez que a água estava quente. Tive a sorte de conseguir realizar a troca, pois alguns de meus amigos que não estavam comigo no momento de devolução do cartão não conseguiram informações que os guiasse aos pontos de troca. Mais uma vez, os funcionários do evento não receberam as devidas instruções para tirar as dúvidas do público e guiá-lo.

Enfim, a música

Assim como mencionado anteriormente, as atrações eram plurais, desde o funk à MPB, passeando entre o público jovem e o nem tão jovem assim. Era possível ver diferentes idades e públicos circulando pelo festival, o que realmente preencheu a alma do Breve. Tal qual a questão etária, variados eram os estilos de roupas, olhares, cabelos, calçados, passos de dança e companhias. O festival contou com um público abrangente, diverso e animado, que não poupou a voz ao cantar com os artistas.

Como os shows são simultâneos, é preciso abrir mão de algumas atrações para presenciar outras. Dos que presenciei, menciono aqui os que tiveram maior engajamento de público: Duda Beat, Gal Costa, Ludmilla e Grande Encontro. Era quase impossível mergulhar no mar de gente, mas era realmente agradável ficar ali no meio. Vozes uníssonas cantavam músicas de múltiplas décadas – emocionante! Creio que, assim como eu, outros presentes no evento também puderam se arrepiar. 

Djonga no Breve Festival. Foto: BS Fotografias
Djonga no Breve Festival. Foto: BS Fotografias

Arte e política

Menos de um mês após a realização do Lollapalooza, o Breve Festival também foi palco de manifestações contrárias ao governo. Os protestos foram puxados por artistas e continuados pelo público. Vários eram os artistas que incentivaram os gritos e várias foram as vozes que deram continuidade. O som uníssono não pertencia apenas às canções performadas, mas também à revolta da plateia. 

A manifestação mais simbólica dentre todas as que foram realizadas ao longo do festival foi a de Djonga. O rapper belorizontino subiu ao palco acompanhado de seus dançarinos, todos vestindo a camisa amarela da Seleção Brasileira de Futebol. Desde as últimas eleições presidenciais, em 2018, a “canarinho” passou a ter cunho político e representar grupos direitistas e seus ideais. Com suas letras fortes, Djonga retirou o peso de vestir uma camisa da Seleção Brasileira.

Agora, ela retorna ao seu posto inicial, e recupera o respeito que a camisa de uma equipe pentacampeã mundial carrega, respeito esse que nada tem a ver com política. Em ano de eleições e Copa do Mundo, Djonga se prepara para unificar o que antes foi separado. Ao mesmo tempo ele se opõe fortemente aos ideais pregados pelo governo atual.

Mesmo com claros problemas estruturais, o Breve Festival foi um respiro para os amantes da arte. Toda a glória do evento ficou por conta dos artistas que, em parceria com um público insano por viver o “agora”, como diz o slogan do festival, parecia fazer vista grossa para os defeitos e olhar apenas para o bom, para o que há muito não era visto.

O próximo Breve está marcado para abril de 2023. O público anseia por mais música, mais arte, mais vida e (por que não?) por mais organização.

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