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Breve Festival supera problemas e surpreende com diversidade de estilos

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Sob forte desconfiança do público, por conta de mudanças de última hora, o Breve Festival trouxe à Belo Horizonte performances marcantes

por Caio Brandão | Repórter

Belo Horizonte, ao longo do tempo, se tornou um solo fértil para festivais. Compondo um circuito recheado, o Breve Festival foi o grande evento deste último sábado, erguendo um line-up variado, que foi desde o punk até o piseiro.

Alcione no Breve Festival Foto_ Caio Brandão
Alcione no Breve Festival Foto_ Caio Brandão

O evento foi uma verdadeira maratona de shows, e o Culturadoria conta tudo para você!

A brasilidade como protagonista

Não é novidade para ninguém a capacidade da música brasileira de assumir várias facetas. Sendo assim, esse leque de estilos foi devidamente representado no festival.

Luedji Luna teve a responsabilidade de abrir os trabalhos no Breve, e entregou uma exibição carregada de sentimentos e reflexões. Além da performance tecnicamente maravilhosa da cantora, houve a proposição de várias ponderações sobre o amor e seus significados.

O contexto sociopolítico brasileiro é um dos mais complexos que existem, e o encaixe de uma emoção como o amor nesse panorama é algo que provoca reações viscerais. Tendo isso em vista, esse raciocínio permeou a performance de Luedji, já dando uma prévia de tudo que estava por vir.

Outro nome que talvez estivesse fora do radar do público em um sentido mais amplo, mas que, quem conhece, sabia que entregaria uma grande exibição, foi o rapper Black Alien. Incorporando fundamentos do boom bap na sonoridade, a apresentação engajou o público sem muito esforço, digna de um dos maiores rappers brasileiros.

Além disso, a cantora Liniker proporcionou ao público um dos shows mais marcantes do Breve. Presença de palco, uma voz estonteante, carisma transbordando: Liniker tem todas as qualidades de uma estrela, e a tendência é que cada vez mais pessoas estejam cientes disso. A artista é uma verdadeira força da natureza!

Liniker no Breve Festival Foto Caio Brandão
Liniker no Breve Festival Foto Caio Brandão

Variações de estilo

Arriscando, mas mantendo a coerência, a organização do Breve trouxe sonoridades que foram representadas de maneira singular. A primeira delas foi o piseiro, personificado por uma das maiores sensações da música brasileira atual, João Gomes.

Não chega a ser complexo deduzir as razões pelas quais o piseiro dominou o Brasil. Ostentando percussões sinestésicas, linhas de baixo que transbordam groove, e a sanfona típica do forró, o estilo inova ao mesmo tempo em que assimila elementos clássicos da música nacional.

Considerando tudo isso, coube a João Gomes, autoridade no assunto, representar o gênero no Breve. Já era esperado que fosse um ótimo show, e de fato foi, mas o que surpreende é que o cantor se transformou em uma espécie de rockstar.

Bastava um olhar, um gesto, coisas mínimas, para fazer a plateia delirar, principalmente a parcela que estava colada na grade. O sentimento que o artista evocava nos fãs mais próximos do palco só pode ser definido como histeria – no bom sentido, claro. Tudo isso é um testamento ao talento de João Gomes, bem como ao potencial gigantesco do piseiro.

Outro caso parecido, mas diametralmente oposto no que diz respeito ao estilo, foi o Planet Hemp. Sendo uma das grandes bandas do rock brasileiro, a fusão do rap com o punk foi um tratamento de choque que acabou com qualquer esboço de uma zona de conforto.

Porém, a reputação que acompanha o Planet Hemp não se formou à toa, e eles mostraram isso no Breve. Mosh pits, bateção de cabeça, movimentos frenéticos: a música pesada foi manifestada com louvor no Breve, contando com intervenções politicamente carregadas que edificaram ainda mais a exibição incendiária.

João Gomes no Breve Festival Foto_ Caio Brandão
João Gomes no Breve Festival Foto_ Caio Brandão

Entre tantos brasileiros, surge uma estrangeira

A única presença estrangeira entre os artistas que se apresentaram veio na forma da britânica Joss Stone. Consagrada pela mistura de soul e R&B que configura a sonoridade clássica da cantora, Stone possui uma técnica vocal absurda. Logo, o show foi incrível, já que ela estava claramente se divertindo no palco.

O carinho do público pareceu pegar Stone desprevenida, pois suas reações eram facilmente lidas como surpresa. Então, é claro que a artista fez questão de retribuir o amor, se declarando para o público com um português praticamente perfeito. Portanto, Joss comemorou 20 anos de carreira em grande estilo!

Os pesos pesados

O line-up do Breve contou com verdadeiras instituições da música brasileira, e foram elas que construíram a lista de atrações mais esperadas, a começar por Alceu Valença. Trazendo o forró para o festival, Valença regeu a plateia com seu carisma. 

Tendo enormes sucessos como “Anunciação”, “Tropicana” e “La Belle de Jour” no catálogo, o pernambucano proporcionou ao público uma energia única no evento. A apresentação foi exatamente o que se esperava: ritmos contagiantes marcados pela alegria.

Ludmilla chegou ao Breve com uma carreira longeva e consolidada, carregando consigo o status de popstar dentro do panorama musical do Brasil. Assim, a cantora representou o funk no festival como um dos nomes que ajudaram a posicionar o gênero no mainstream.

Previamente conhecida como MC Beyoncé, Ludmilla construiu uma performance que faz juz à diva homenageada em seu antigo nome artístico. Coreografias complexas, abundância de hits e personalidade forte: a cantora não deve nada às estrelas do pop mundial, e o show foi uma evidência clara disso.

Óbvio que carisma é algo imprescindível para qualquer grande estrela, mas a energia que ronda Péricles é única. Chega a ser fascinante como uma estrela tão aclamada e querida no Brasil inteiro consegue passar, com tanta facilidade, um sentimento de intimidade.

Péricles evoca uma energia parecida com a de um tio distante, mas muito amado, que você só vê de vez em quando. O que eu quero dizer com isso é que gostar do cantor é extremamente orgânico, como se fosse algo intrínseco ao ato de ser brasileiro, é simplesmente impossível não gostar dele.

O resultado? Um showzão! Uma pena que tenha começado tão tarde, quando uma parte considerável do público já tinha se cansado e/ou ido para casa.

A experiência chamada Alcione

Agora, temos que falar do grande momento do Breve. O instante em que uma entidade agraciou a nós, meros mortais, com sua presença. Alcione subiu no palco, e o que aconteceu na sequência foi mesmerizante. 

Maravilhosa, lendária, arrebatadora, a “Marrom” é tudo isso, e quem contestar esse fato só pode ser maluco. Irrefutavelmente a grande performance da noite, Alcione esbanjou um carisma absurdo, uma voz icônica e músicas históricas, como um ser de outro plano, cuja presença chega a ser difícil de processar para um humano comum.

Sendo assim, em todos os intervalos entre músicas, o barulho no Mineirão era ensurdecedor: milhares de pessoas, unidas em um só sentimento, que era a mais pura intenção de viver ao máximo aquele momento. Gente chorando, sorrindo, dançando, um amplo leque de emoções intensas que se complementavam.

Enfim, Alcione provou mais uma vez seu status como um dos maiores nomes não só da música brasileira, mas também mundial. Um verdadeiro privilégio para o público.

Organização

Temos que falar do elefante na sala aqui. As múltiplas alterações de line-up e de horários, incluindo uma literalmente na véspera, foram eventos que causaram um forte desdém em quem comprou o ingresso. Logo, a expectativa para Breve realmente não era das melhores.

Contudo, ao conversar com o público presente, os relatos foram positivos. A turbulência prévia ao início do festival foi um problema, isso é consenso, mas o evento em si foi satisfatório. 

Claro que imprevistos aconteceram: algumas filas longas demais para os banheiros, o som um pouco baixo em alguns momentos para quem estava no fundo da pista, mas nada que transformasse a experiência em algo que não valeu a pena.

Os pagantes, no final das contas, pareciam satisfeitos com a maneira que o Breve se deu, levando em conta apenas o que aconteceu no dia do festival. Assim, agora resta aguardar se nas próximas edições essas mudanças de última hora voltarão a acontecer, já que, ao menos em 2023, elas foram o único motivo de reclamações mais pesadas.

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