Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

“Brasil: Versão Brasileira, do Pigmalião estreia no Brasil em 4 de março

Espetáculo é exibido de 4 a 7 de março no canal do YouTube do Pigmalião Escultura que Mexe e explora os delírios de um diretor marionete
Brasil: Versão Brasileira
Foto: Patrice Latour / Divulgação

Um diretor que vira marionete ao tentar criar um retrato do Brasil. É isso que acontece no espetáculo Brasil: Versão Brasileira, do grupo Pigmalião Escultura que Mexe. Trata-se de um documentário fantástico que estreou primeiro na França sob o nome Brésil e ganhou nova dramaturgia na versão brasileira. Na narrativa, um diretor marionete (Eduardo Felix) delira enquanto tenta criar uma obra que retrata o Brasil.

“Ao invés de partirmos de uma verdade absoluta (ou da tentativa dela), partimos da bravata de um marionetista que achava que seria capaz de criar um espetáculo chamado Brasil e acabou ele mesmo transformado em uma marionete. Ou, talvez, se dando conta também de que sempre foi uma marionete, no sentido pejorativo, que, infelizmente, costuma se dar a essa palavra”, explica o diretor Eduardo Felix. Brasil: Versão Brasileira realiza temporada online de 4 a 7 de março, sempre às 20h, no YouTube do Pigmalião Escultura que Mexe. 

Adaptação para o Brasil

De acordo com o diretor Eduardo Felix, a peça não mudou tanto estruturalmente na adaptação da versão francesa para a brasileira. Isso porque “o espetáculo não é só sobre o Brasil, é sobre o ser humano também. Por mais que tenha um discurso proferido ali, existe uma dramaturgia visual paralela a ele, que está na forma desse boneco de estar na cena, do bonequeiro manipulando outros bonecos, enquanto ele mesmo é manipulado”, detalha Felix. 

Mesmo assim, ele frisa que, talvez, o que mudou mesmo foi o Brasil, o país em si. “Porque em 2018, quando estreamos a primeira versão francesa, tínhamos muitos temores,  mas, de lá pra cá, as coisas foram acontecendo de uma forma tão mais extraordinariamente pior do que tudo que a gente podia imaginar. Até os clichês sobre o que é ser brasileiro, o mito do cidadão cordial, da alegria tupiniquim… Tudo isso caiu por terra. Então, tivemos que reconsiderar o que é ser brasileiro pra fazer essa nova versão agora”, completa. 

Dramaturgia

Em cena está uma réplica de Eduardo Felix em tamanho real manipulado por vários atores. Aliado a isso, técnicas de manipulação, jogo cênico no qual hora os atores aparecem ora não e a relação entre fantasia e realidade. Todos os elementos se unem na dramaturgia assinada por Marina Viana. Perguntamos mais detalhes ao diretor sobre ele virar uma marionete, sobre o formato e como tem sido a pandemia para a Pigmalião. Confira as respostas na íntegra. 

– Você propôs o tema da peça e depois acabou se colocando dentro e virando uma marionete. Quais foram os desafios desse formato?

Eu sou muito bravateiro, sabe? 

Eu acho que, pessoalmente, meu desafio principal foi ter que me enfrentar, que enfrentar a minha própria imagem, minha própria voz, minha própria forma de mexer. Sendo que, quando eu propus o tema ao grupo, eu tinha em mente outra coisa, muito diferente, e não imaginava nunca que teria esse desfecho.

Mas, quando eu apresentei a ideia, lá em 2018, já com data marcada para estrear dali a dez meses na França, todo mundo pirou e nós fizemos várias reuniões. Daquelas à moda antiga, presenciais, olho no olho. O tamanho do problema que eu tinha levantado na minha bravata foi se revelando aos poucos e se transformando numa espécie de terapia de grupo. Daí, eu fui pedir socorro para a super dramaturga e atriz Marina Viana, que eu admiro demais. Nas discussões que foram surgindo, das questões ligadas à representatividade, ao papel que eu represento dentro do grupo e dentro da sociedade, acabei virando a marionete do jogo. Eu, marionetista, manipulador, controlador.

Foi muito estranho para mim esse processo, porque eu sou bonequeiro há 20 anos. Sempre fiquei escondido, nas sombras, mudando minha voz, representando fora do meu corpo. De repente, eu me vi exposto, transformado em boneco, e, ainda por cima, um boneco muito realista. Isso acaba criando um jogo com os sentidos da gente e (espero) do público também, porque ao mesmo tempo que é um monólogo, tem um monte de ator no palco dando vida ao personagem. 

Vale destacar que, por mais que seja eu representado ali, foi um texto escrito pela Viana, que obviamente usou coisas que escrevi ou falei, mas são palavras dela também.

Agora, o desafio para o grupo, acho que foi ter que manipular  uma marionete tão grande e pesada (risos), porque imagina só: sou eu em tamanho e medidas naturais, construído com materiais rígidos. Ou seja, é um trabalho muito árduo, mas o resultado final parece até ilusionismo e o boneco fica muito vivo.

– Como tem sido a pandemia para a Pigmalião?

Difícil demais, difícil demais, difícil demais. Acho que essa também é a pergunta mais difícil de responder aqui. O que é isso que está acontecendo com a gente? 

Já passamos por várias fases nessa pandemia, mas acho que a incerteza é o sentimento mais constante e isso tá longe de passar. Só de imaginar que um ano atrás estávamos achando que nós iríamos adiar nossos compromissos para agosto ou outubro e que agora estamos em 2021 fazendo a mesma coisa, dá arrepios em todos os marionetistas e até nas marionetes do grupo!

O desafio maior durante esse período todo acho que é, além de tentar constantemente não enlouquecer, o de continuar existindo, de continuar fazendo nosso trabalho, continuar cumprindo nosso papel de artista. Mesmo que, para isso, a gente tenha que reaprender a se colocar em cena em plataformas ao invés de palcos, de dar oficinas online, de melhorar na marra a linguagem do vídeo. Essas coisas não foram escolhas nossas, mas estamos nos adaptando e aprendendo. Imagino que não dá para passar por isso tudo que estamos passando sem sairmos transformados. Então, estamos também ansiosos para saber em que tipo de jacaré iremos nos metamorfosear até o final disso tudo. Porque vai ter fim!

Brasil: Versão Brasileira
Foto: Patrice Latour / Divulgação

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