Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

BH capital dos videoclipes: cenário independente e pulsante

Na série de reportagens especiais sobre o mercado de clipes em BH, abordamos aqui a força criativa do mercado mesmo com baixos orçamentos.
Ulisses Passos. Foto: Arquivo Pessoal
Ulisses Passos. Foto: Arquivo Pessoal

Por Aldine Mara | Culturadoria Lab videoclipes

Se, por um lado, a produção de videoclipes em BH aumenta, por outro, o orçamento para as produções nem sempre acompanha o crescimento. Muitos trabalhos são feitos de forma independente, com os chamados “baixos orçamentos”, ou dependem de editais para tirá-los do papel. 

“Quando a gente trabalha com orçamentos altos e retorna para trabalhar com orçamentos baixos, sentimos a diferença. Em teoria, é mais fácil, pois você já sabe onde pode pisar. Mas ficamos o tempo todo nos cobrando muito, porque eu podia pôr isso ali, e acaba que não tem condição financeira. Mas não é impeditivo de realizar, já que o simples nem sempre será pior que o garboso”, ressalta Ulisses Passos, produtor da cantora Adriana Araújo. “Hoje, para ter dinheiro na cultura, é só via de edital, seja de empresa, seja público, para conseguir angariar essa grana”, completa.

De acordo com dados repassados pela Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte, no Edital 2020 da Lei Municipal de Incentivo à Cultura – Fundo Municipal de Cultura, foram apresentadas 20 propostas na categoria “produção de álbum musical em quaisquer formatos/suportes (inclusive DVD) e produção de videoclipes”. Dez dessas iniciativas pretendiam gravar clipes. Três projetos foram aprovados, sendo que um deles propunha a realização de videoclipe. 

Em 2021, o edital recebeu 98 propostas para a mesma categoria, quase cinco vezes mais do que no ano anterior. 

Câmera, luz, ação e vanguarda

Se, em algum momento, artistas de BH precisavam sair da cidade para criar vídeos musicais de alta qualidade, o cenário mudou. Agora, os profissionais do audiovisual têm mostrado, na prática, competência e criatividade para a tradução imagética de canções.

“Belo Horizonte é um dos mercados que tem mais a crescer na área de videoclipes, porque há muitos profissionais excelentes. Gente capaz de fazer produções hollywoodianas, morando em bairros vizinhos, ali na comunidade da Serra, aqui no Floresta, em Santa Tereza. Sabe aquela história de o quintal do vizinho ser mais verde? Vamos olhar para o nosso, pois garanto que não se arrependerão”, diz a figurinista Camila Duarte. 

Ainda que unir música e imagem continue como uma das possíveis definições de videoclipes, a função estratégica do formato, para os artistas, é um pouco diferente das ambições dos tempos de MTV. Se, naquela época, eles eram usados para como mais uma forma de divulgação dos álbuns, atualmente, acompanham a tendência dos singles.

“Hoje, os alguns artistas fazem algo legal: lançar um EP com quatro, cinco músicas, em que os clipes já dialogam entre si, ou são contínuos. Todos contam uma história atrás da outra, ou, então, têm um elemento que passa por todos os singles. O audiovisual, o videoclipe, pega a música e amplia em não sei quantas mil vezes as possibilidades de se trabalhar artisticamente”, explica o produtor Orlando Junior.

Mais formatos e múltiplos acessos

Possibilidades artísticas e de formatos: esperar seu clipe favorito passar na TV também ficou nos tempos de MTV. Basta, afinal, ter acesso à internet e procurar as redes sociais dos artistas. Contudo, o que deixou mais fácil de ver – e rever – gerou outro item na lista de possibilidades, quando se trata de produzir clipes, mesmo que no meio do processo.

“O único estúdio que a gente conseguiu, com a verba que cabia no orçamento, era muito pequeno. A gente tinha uma parede muito pequena para dividi-la, e pintar nas duas cores da paleta. O diretor Vito Soares e a Belle de Melo tiveram uma ideia: vamos gravar o vídeo na vertical. Assim, precisa-se de menos espaço, e a coisa é inovadora. Fiquei com certa resistência, mas pensei: o picolé é na vertical, o próprio nome já fala. É isso!”, conta a diretora artística Camila Buzeli, ao lembrar a ousada – e moderna – solução encontrada pela equipe para a gravação do clipe “Picolé”, do Rosa Neon.

Estrutura

E não é só criatividade que a produção belo-horizontina tem para mostrar. Mudar a estrutura do mercado precisa fazer parte desse roteiro. “A gente sempre questionava essa não representatividade dentro das mídias. Era uma coisa muito comum entre nós três, mulheres pretas, corpas pretas e moradoras de periferia. Diante dessa não representatividade, tanto na frente quanto atrás das câmeras – e é muito importante a gente falar isso –, não queremos representatividade como corpos e corpas pretas só na frente da câmera, mas, sim, produções assinadas por pessoas pretas. Isso é transformar essa linguagem cinematográfica legítima”, reitera a produtora Natalie Matos, da Renca Produções.

Em abril deste ano, o clipe “Tudo no menu”, de Matheus Brant, trouxe pessoas LGBTQIA+ à direção, ao roteiro, à produção e ao elenco, reforçando a importância da diversidade e da representatividade. O Culturadoria falou desse projeto aqui.

Videoclipe de Matheus Brant, Tudo no Menu. Foto: Ceres Canedo/Divulgação
Videoclipe de Matheus Brant, Tudo no Menu. Foto: Ceres Canedo/Divulgação

Aldine Mara é jornalista formada pela UFJF. Já atuou em assessorias de comunicação, produção de eventos, audiovisual e fotografia. Hoje, está a frente da Sorriso CRIA, produtora de conteúdo digital. Participou do 1º Laboratório Culturadoria de Jornalismo e Crítica Cultural.

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