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Documentário revela a essência do enigmático Belchior

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Belchior – apenas um coração selvagem teve a estreia nacional no festival “É Tudo Verdade”, com exibições online, e presenciais

Por Adonei Elias | Culturador

Confesso que fui assistir ao documentário “Belchior – Apenas um coração selvagem” esperando por uma biografia do artista, nos revelando detalhes e momentos importantes da discografia, mas aqui não é o caso! O filme de Camilo Cavalcanti e Natália Dias é um relato, em primeira pessoa, do próprio Belchior, sobre as ânsias em relação à música e a vida.

Quem não se encantou com alguma letra de Belchior nos últimos meses viveu uma realidade muito distante das mídias. Isso porque suas mensagens de amor e resistência, como em “Sujeito de sorte” (1976), sampleada por Emicida em “AmarElo” (2019), foi tocada em looping por milhares de pessoas que precisavam de inspiração para atravessar pelo caos generalizado desse país.

Porém, mesmo com toda essa audiência das letras e músicas, Belchior foi e ainda é cercado de mistérios. Passou os últimos anos de vida completamente recluso, abandonando carreira, família, bens, etc. Claro que tudo isso deixou o Brasil inteiro com muitas perguntas, transformando o cantor e compositor num enigma.

Belchior revelado por ele mesmo

O documentário foge da obviedade que seria contar uma biografia como os textos que lemos na wikipedia. Você sabe, aquela ordem cronológica, lotada de datas, com citações de especialistas, etc. Na tela, vemos Belchior, em trechos recortados de entrevistas antigas, contando a própria história e, o mais importante, sob um ponto de vista particular.

Belchior expõe pensamentos sobre “uma visão fictícia do que é o nordeste” que, segundo ele, os sudestinos têm em relação à terra natal. Revela também o que pensa sobre a própria música e a de seu tempo. 

Fã dos Beatles, dos tropicalistas, da bossa nova e de Raul Seixas, o compositor buscava o diálogo com as referências, assim como a ruptura. Nunca quis fazer música para se enquadrar em qualquer movimento. Inclusive, é conhecida a crítica que faz a Caetano Veloso quando o chama em “Apenas um Rapaz Latino Americano” de “um antigo compositor baiano”.

No documentário ele deixa isso ainda mais claro. E se mostra bastante incomodado quando jornalistas e até Elis Regina dizem, na época, que não existem bons compositores novos, depois de Caetano, Gil, etc. A cantora aponta Belchior como exceção, mas ele nega e afirma que apenas não existem do jeito que ela espera.

Elis Regina e Belchior

São pouquíssimas as falas que não são de Belchior. Uma delas é da cantora Elis Regina, intérprete que lançou o compositor para as multidões e, principalmente, para o mercado fonográfico.

O cearense acompanhava uma gravação de Vinícius de Moraes, quando Elis perguntou baixinho “aquele ali é Belchior?”Vinícius fez que sim e ali se apresentaram. Na época Belchior passava por grave dificuldade financeira, inclusive fome. A cantora pediu que ele fosse até a casa dela com um fita, para apresentar suas músicas.

Belchior conta essa história rindo, diz que não ia porque não tinha dinheiro pra fita, nem pra condução. Elis então ofereceu um motorista para buscá-lo e ele disse “pois mande na hora do jantar”. O resultado dessa história nós já conhecemos, que é a gravação da inesquecível “Como nossos pais”, por Elis Regina.

O compositor também explica tudo o que pensava quando escreveu essa canção. E diz que ela, assim como toda a sua obra, não se dissocia de sua própria história.

O documentário não fala sobre o sumiço do compositor, e tá tudo bem!

Claro que o “sumiço” do compositor aumentou ainda mais a curiosidade por esta figura tão ímpar. No entanto, o documentário não fala sobre isso. Poderia ter entrado por um caminho de depoimentos dos colegas, da família, mas a escolha foi de colocar Belchior como o contador de sua história.

O resultado foi um filme extremamente sublime. Claro, grande parte disso se deve ao talento que Belchior tem com as palavras, mas justiça seja feita, o trabalho de edição foi brilhante. Quem assiste quase não lembra que aquilo são recortes. As imagens e o áudio ganharam um tratamento impecável.

Belchior, em 1999, por Cleo Velleda.
Belchior, em 1999, por Cleo Velleda.

Entre uma história e outra, contadas por Belchior, o ator Silvero Pereira declama algumas canções. Apesar do excelente trabalho de interpretação, acredito que as inserções quebram um pouco o ritmo do filme. No entanto, é impossível não se emocionar com tudo o que vemos e ouvimos!

Este conteúdo foi produzido por Adonai Elias

Adonai Elias é redator e web radialista. Graduando em Publicidade e Propaganda (FACHA – RJ), escreve para o Culturadoria e para a revista eletrônica Lugar Artevistas. Todo sábado, às 15h, apresenta o programa “Nasci Para Bailar”, na Matula Web Rádio. Seu Instagram é @adonaielias.m.

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