fbpx
Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

‘Baronesa’ abre Mostra Aurora com potência e polêmica

Por Carol Braga

24/01/2017 às 13:28

Publicidade - Portal UAI
Cine Tenda lotado para a sessão de 'Baronesa'. Foto: Jackson Romanelli/Universo Producao
Cine Tenda lotado para a sessão de 'Baronesa'. Foto: Jackson Romanelli/Universo Producao

Cine Tenda lotado para a sessão de ‘Baronesa’. Foto: Jackson Romanelli/Universo Producao

A Mostra Aurora começou desnorteando os espectadores que marcaram presença no Cine Tenda em Tiradentes. Aliás, o conjunto de projeções de segunda-feira foi marcado pela força do cinema dirigido por mulheres. Em especial, Baronesa, longa de Juliana Antunes e o premiado curta Estado Itinerante, de Ana Carolina Soares (texto em breve).

Candidato ao troféu Barroco, Baronesa é o primeiro filme da vida de Juliana. Fora da curva, ela não passou pelo curta, caminho mais convencional na carreira de um cineasta. A produção é forte como um soco e bastante polêmica.

Baronesa é classificado como um filme de gênero híbrido. Isso significa que o tempo todo você se pergunta o quanto daquilo que vê na tela é ficção ou documentário. Juliana Antunes e equipe se instalaram na Vila Mariquinha e registraram lá a rotina de Andreia e Leidiane (a Leid), amigas e vizinhas. Baronesa é a vida delas.

A pesquisa começou com uma curiosidade. A diretora observou que vários ônibus que passam pelo centro de Belo Horizonte levam a bairros com nome de mulher. A equipe resolveu embarcar em todos eles para ver até onde iam. Assim chegaram ao destino onde conheceram as personagens.

Andreia e Leid vivem no Bairro Juliana, zona norte de Belo Horizonte, onde existe uma guerra de tráfico. Andreia quer mudar para o Baronesa, o bairro vizinho. Enquanto junta dinheiro fazendo unha para construir a nova casa, compartilha sua visão de mundo, seus afetos, seus desejos e seu vazio com a câmera de Antunes.

É incrível como a diretora consegue se fazer invisível. Isso dá mais força para cada uma das cenas. Coloca o espectador na dúvida constante: peraí, estou vendo um documentário ou uma ficção?

Embates, debates

Durante o debate, a cada pergunta é como se Juliana tivesse seguido mais a intuição do que a razão. “Empalavrar” o que está na tela parece ser é uma tarefa pesada demais para ela. Difícil ou até impossível para dar conta do que foi o processo de Baronesa e no que o filme se tornou.

O docudrama não teve roteiro. Sua verdade está na relação construída com as personagens. Como também foi abordado durante o debate, em ótima colocação de Tatiana Carvalho Costa, Baronesa obriga o espectador “comum” ver modos de vida que são desconhecidos das classes dominantes.

Da diretora também. Com humor e deboche Leid conta que quando Antunes chegou na favela para filmar levou a tiracolo um kit de primeiros socorros no caso de tomar um tiro. A caixinha continha merthiolate, esparadrapo, faixa e anti-inflamatório. A informação corrobora o fato de Juliana, a cineasta, ter encontrado no Juliana, o bairro, um mundo muito diferente do dela.

Cena do filme 'Baronesa', que concorre a Mostra Aurora. Foto: Universo Produção

Cena do filme ‘Baronesa’, que concorre a Mostra Aurora. Foto: Universo Produção

Elogios

A força de Baronesa contaminou o debate. Nas Mostras de Cinema de Tiradentes o tradicional encontro da equipe dos filmes com o público é marcado por embates, muitas vezes conceituais. No caso do filme de Juliana Antunes, a plateia elogiou  – muito – e a equipe teve pouco a dizer.

Os apontamentos sobre implicações sociais e até mesmo jurídicas que entraram no filme apareceram em menor número do que depoimentos sobre os atravessamentos despertados.

A atriz Camila Pitanga foi uma das que mais falou. Como todos ali presentes, se mostrou visivelmente impactada. “Quando se manipula vida, pessoas, fico muito curiosa em querer entender até que ponto a vida real estava dominando o fazer, até que ponto havia previsão, roteiro. Como se faz um roteiro quando a Leid e a Andrea estão no seu dia-a-dia?”

O uso da imagem das crianças, os filhos de Leidiane, foi a questão mais polêmica. O filme tem outras como abuso sexual, drogas, sistema carcerário. Qual o limite da ética para o cinema? Qual o nível de consciência sobre estas implicações ao escolher o que entra ou não na versão final? São perguntas que ficam.

“Não tem como evitar. É a vida real mesmo”, ressaltou Andrea. “É a vida que a gente vive, a vida que a gente gosta de viver”, disse Leid. “O que faz o cinema diante dessa cena? Acho que filma”, conclui Juliana Antunes.

Baronesa é um filme tão potente que apenas um debate não dá conta de todas suas arestas. Fica para o tempo a tarefa de cuidar de todas as reverberações que ele provoca.

 

Culturadoria viaja a convite da Mostra de Cinema de Tiradentes

photo

“Ara Pyau – A Primavera Guarani”: A resistência dos povos indígenas brasileiros

Os responsáveis pela construção da nossa civilização concentraram toda sua atenção na organização política e social. Mas se esqueceram de um detalhe importante: os povos que viviam no território anteriormente. Aos olhos dos governantes e líderes burgueses, os indígenas parecem não passar de um inconveniente, uma pedra no caminho para o progresso e o acumulo […]

LEIA MAIS
photo

Confira dicas de filmes sobre personagens negros que mudaram a história

Histórias inspiradoras de superação, quebras de preconceitos e determinação. É assim que começamos o especial dessa semana em homenagem ao Dia da Consciência Negra, comemorado todo 20 de novembro. Nosso objetivo aqui é trazer para você exemplos da representatividade negra que marca, também, a história das artes. Ao longo da semana, você também confere aqui, […]

LEIA MAIS
photo

Se você ainda não começou, por que deveria ver La Casa de Papel?

Nove dos melhores ladrões da Espanha são convocados por um professor para assaltar a Casa da Moeda do país. O objetivo? Fabricar o próprio dinheiro e ter mais de seis dígitos na conta bancária. Eles estão em busca do “assalto perfeito”. A série de televisão La Casa de Papel foi produzida, inicialmente, para o formato […]

LEIA MAIS
photo

Happy: um documentário sobre a busca pela felicidade

Happy Entre as perguntas mais antigas que os seres humanos se fazem, definitivamente, está “O que é a felicidade?”. Tem mais uma:  “como faço para ser feliz?”. Apesar de todo avanço tecnológico que testemunhamos diariamente, essas duas perguntas ainda não foram respondidas. Diferentemente do que se poderia imaginar, o desenvolvimento econômico, científico e social não […]

LEIA MAIS
photo

Quem é MC Tha e por que foi ousado ela aparecer no Bar da Neca?

MC Tha Que há uma renovação em curso na música brasileira é inegável. Não se pode negar, também, que essa troca de pele passa por estilos que até então eram vistos com preconceito por boa parte do público. Especialmente os amantes da MPB. Sim, as recentes surpresas brotam muito mais do funk, do rap e […]

LEIA MAIS
photo

Banho de Sol volta ao cartaz para única apresentação em BH

É natural que cada espectador tenha uma relação particular com obras artísticas. Agora, é curioso quando há um sentimento comum de impacto. As intensidades podem variar, é claro, mas fato é que desconheço uma só pessoa que tenha saído inerte de Banho de sol, a nova peça da Cia Zula de Teatro. Por isso, repito […]

LEIA MAIS