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“Baixo Centro”: Uma melancólica declaração de amor à BH

Por matheusbongiovani*

26/01/2018 às 18:34

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Abertura da sessão de Baixo Centro, na Mostra de Cinema de Tiradentes. Crédito: Jackson Romanelli/Divulgaç

A solidão em meio à multidão, a dificuldade de conquistar os espaços, a necessidade de ocupá-los e a busca pelo sentimento de pertencimento são temas que poderiam ser trabalhados em qualquer grande centro urbano.

Apesar de possuir sua universalidade, Baixo Centro é um filme que definitivamente dialoga mais intensamente com os belo-horizontinos. Ao escolher a cidade como cenário, os diretores Ewerton Belico e Samuel Marotta se aproveitaram de um momento ímpar na história da capital mineira.

Nos últimos anos, diversos grupos sociais tem ocupado a cidade e reivindicado os espaços urbanos. O que tem transformando o cenário e deixado a cidade mais com a cara de seu povo.

O filme

Quem embarcar nessa experiência esperando imagens institucionais dos pontos turísticos da cidade deve se decepcionar. Ao invés do conjunto arquitetônico da Pampulha, temos aqui a praça Raul Soares, o viaduto Santa Tereza e a Avenida Augusto de Lima durante a madrugada.

Os registros noturnos possuem um propósito específico. Lançar um olhar aos indivíduos marginalizados dos centros urbanos. O bêbado que invade o show durante o duelo dos Mc’s, ou o morador de rua que fala consigo mesmo.

Baixo Centro é um filme sobre pessoas perdidas, que tentam desesperadamente se encontrar. Mais uma vez não temos uma dramaturgia convencional. O filme faz várias experimentações de linguagem. Há uma belíssima sequência que retrata a aproximação de um casal no viaduto Santa Tereza, feita exclusivamente com fotografias. Uma referência ao desejo humano de eternizar os momentos.

Em vez de narrar trajetórias de personagens, Baixo Centro apenas apresenta recortes, fragmentos. Isso se reflete fortemente no texto. Os diálogos são substituídos por monólogos e desabafos carregados de sentimentos. O engajamento do público depende fortemente da identificação com tais experiências.

No debate realizado após a exibição, os diretores Ewerton Belico e Samuel Marotta afirmaram que a intenção era, de fato, transformar Belo Horizonte em um personagem. “É sobre o fracasso da utopia da cidade como um espaço integrador. Mas também sobre como essa utopia se entranha na vida das pessoas, e se mantém viva com a experiência concreta”, explicou Ewerton.

Um dos destaques do filme – que se enquadra no gênero ficção – é o elenco. Alexandre da Sena, Cris Moreira, Marcelo Souza, Bárbara Colen e Renan Rovida demonstraram compreender bem a visão dos diretores e entregaram performances naturalistas impressionantes.

A transformação de Belo Horiznte em cenário para uma série de encontros e desencontros é fascinante. A poesia visual criada pela dupla de diretores é eficiente o bastante para fazer até mesmo um belo-horizontino afastado há apenas uma semana, para cobrir uma mostra de cinema, sentir saudades de casa.

*Viajou a Convite da Mostra de Cinema de Tiradentes

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