Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Ateliê de Cerâmica abre galeria no entorno da Praça da Liberdade

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Uma casa dos anos 1950, cuja fachada chama atenção de quem passa na rua, pela beleza; é o novo endereço do Ateliê

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Ainda no primeiro semestre deste ano, carros e transeuntes que trafegam diariamente pela avenida Bias Fortes começaram a reparar em uma novidade arquitetônica ali, no entorno da Praça da Liberdade. Mais especificamente, em uma casa, digamos assim, até então “desconhecida”. Na verdade, a construção já ocupava o número 225 daquela movimentada via há décadas – a questão é que a fachada não era visível à população por conta de um muro. Tombada pelo patrimônio histórico, a casa, hoje, responde pela nova localização do Ateliê de Cerâmica. Mas, que fique claro: o endereço no qual o coletivo formado por Flavia Soares, Luiza Soares e Daniel Romeiro iniciou sua trajetória, em Contagem, continua em atividade.

Uma casa modernista abriga o novo endereço d'O Ateliê de Cerâmica (Gabriel Castro/Divulgação)
Uma casa modernista abriga o novo endereço d'O Ateliê de Cerâmica (Gabriel Castro/Divulgação)

A diferença é que, agora, a unidade matriz, localizada na Avenida Prefeito Gil Diniz, no Centro de Contagem, concentra a produção do Ateliê de Cerâmica. Ou seja, utilitários e peças de adorno que deram fama nacional ao empreendimento. Por outro lado, a casa na Bias Fortes passou a ser o ponto de recepção e acolhida aos clientes, bem como a sediar uma galeria. Portanto, foi lá que a equipe do Culturadoria se dirigiu para conversar com os três artistas sobre os tempos de mudança que, cumpre frisar, não se restringem ao endereço.

No meio do caminho

De pronto, Daniel Romeiro explicou, à reportagem, a mudança física do Ateliê. “O espaço em Contagem sempre foi uma inspiração, um estímulo para a gente. Digo espacialmente mesmo. E, como o local tem muitas plantas, a gente focava muito na criação de vasos”, comenta ele, sobre as peças produzidas. O designer prossegue lembrando que, mais recentemente, surgiu na cabeça do trio a ideia de buscar um novo espaço. “Que trouxesse mais estímulos para a gente”, complementa. Assim, começaram a visitar casas disponíveis para aluguel. “Na verdade, BH tem um monte de casas maravilhosas desocupadas. Infelizmente, algumas delas estão inclusive deterioradas. Mas essa casa foi uma surpresa”, confessa.

Impossível não se deter diante de tantos detalhes do imóvel localizado na Bias Fortes (Foto: Patrícia Cassese)

Basta visitar o espaço para entender o que Daniel Romeiro quer dizer. Primeiramente, é preciso dizer que casa situada na Avenida Bias Fortes nunca havia tido uso comercial. A edificação integra o Conjunto Urbano Protegido da Praça da Liberdade. De acordo com informações divulgadas à imprensa, foi construída em 1952 como residência do médico Milton Machado Mourão e da artista plástica Gilda Antonina Maria Falci Mourão. “Dos anos 1970 para cá, ficou escondida da população por conta do muro. É uma casa modernista. Um dos poucos exemplares modernistas na cidade que são imediatamente pós-Pampulha. Tem essa arquitetura que é mais escultórica, mais desenhada. Ou seja, não é tão utilitarista”, explica.

Viés modernista

Ainda de acordo com Romeiro, elementos característicos da arquitetura modernista são facilmente detectáveis, como a amplidão dos espaços. É possível citar, ainda, materiais e revestimentos característicos do período, como as pastilhas coloridas e o piso marmorite, com destaque para o piso em vidrotil do vestíbulo (hall). Este detalhe representaria a integração entre arquitetura e artes plásticas vislumbrada pelo modernismo. “Mas a casa também tem um rebuscado, uma liberdade de desenho, uma proposta mais inventiva, mais criativa. Assim, por tudo isso, tem uma relevância muito grande para o patrimônio arquitetônico de BH”.

As pastilhas, um dos elementos icônicos da casa, que agora abriga o Ateliê de Cerâmica (Patrícia Cassese)

Na verdade, a casa que hoje acolhe o Ateliê de Cerâmica já havia passado por uma reforma, na década de 1970. O projeto, de autoria de Álvaro Hardy, fez algumas intervenções pontuais, como o citado fechamento da fachada. Agora, para abrigar o Ateliê, o projeto arquitetônico de restauro e ambientação foi assinado pelo arquiteto Gabriel Castro e o escritório dele, Mobio Arquitetura – que, aliás, também está localizado no imóvel. O salão com teto abobadado é apresentado como o “espaço protagonista ” do Ateliê. É lá que está situada a galeria da nova loja.

“Planos Desiguais”

Atualmente, a galeria exibe a mostra “Planos Desiguais”, que abarca peças desenvolvidas por Flávia Soares e Daniel Romeiro. Daniel, vale dizer, trabalha com torno, enquanto Flávia, com uma modelagem mais livre, totalmente manual. Uma das novidades é que a mudança para a Praça da Liberdade reforça a disposição do Ateliê de Cerâmica em ampliar a linha de mobiliário.

Uma peça fofa, criada para balizar o novo endereço do Ateliê de Cerâmica (Patrícia Cassese)

“Banco de copos”

De pronto, quem for lá certamente vai se encantar com o banco desenhado pelo próprio Daniel. “Chamo ele de ‘banco de copos'”, comenta Luiza Soares. “É belíssimo”, adiciona. A peça traz vários copos de cerâmica que, juntos, formam o assento, sustentado por uma estrutura de madeira. Esta, por sua vez, é pantográfica – com isso, é possível alterar o formato.

Uma das belíssimas peças de mobiliário criadas por Daniel Romeiro (Foto: Patrícia Cassese)

Luiza diz que o desafio foi criar uma estrutura que impedisse que as peças colidissem entre si. Agora, o Ateliê de Cerâmica estuda a viabilização da produção deste banco para a consequente comercialização. Outro destaque no escaninho do mobiliário são peças que Luiza chama de “bolachas”, e que podem ser empilhadas, gerando uma peça única. Luiza também cita uma outra novidade, a partir de uma provocação feita a Flávia. É que, instigada por Daniel, ela aceitou fechar alguns dos vasos que cria (em grandes dimensões). E, assim, gerou outra peça digna de registro. Ainda de acordo com Luiza, a exposição que vai suceder “Planos Desiguais” vai dar primazia às mesas postas, que são um dos destaques do Ateliê.

Nesta foto, aparecem tanto as bolachas quanto os vasos fechados, feitos por Flávia Soares (Foto: Patrícia Cassese)

Planos

Futuramente, está no horizonte do trio a possibilidade que a casa também abrigue um café, que, aliás, poderia se estender até o pátio, onde fica a piscina do imóvel, que está desativada. “Reativá-la exigiria uma obra muito específica, então, a gente propôs um deck de madeira em seu interior”, comenta Daniel.

A piscina, por ora desativa, recebeu um deck de madeira (Foto: Patrícia Cassese)

Confira, a seguir, outros trechos da entrevista, que envolveu os três pilares do Ateliê de Cerâmica

A mudança

Daniel conta que a iminência da mudança de endereço foi de pronto afetando o trabalho do Ateliê de Cerâmica. “Porque a gente já começou a pensar que novidades ia apresentar, que facetas do nosso trabalho iríamos conseguir explorar. A ocupação do salão como uma galeria de arte também foi um desafio, já que é uma maneira de a gente elevar o nosso trabalho para um olhar diferente do utilitário, que é o que as pessoas reconhecem de imediato”.

Algumas das peças comercializadas no Ateliê de Cerâmica (Foto: Patrícia Cassese)

Assim, ao mesmo tempo que as demandas de utilitários estão sempre sendo supridas, Daniel e Flávia seguem, como ele mesmo diz, “inventando, criando, explorando”. “Então, esse espaço do Ateliê veio para fomentar a produção mais artística, mais propositiva, mais provocativa do Ateliê. Nesse caso, peças que podem ser usadas como mobiliário. São corpos maiores, que têm todo um desafio processual. Isso porque a queima com a qual a gente trabalha no ateliê é muito agressiva, a temperatura é muito alta. Assim, trabalhar com peças grandes é sempre bem complicado, pois sempre existe a chance de perder (o trabalho). O risco é muito maior do que fazer peças pequenas, que são mais, digamos assim, controláveis”.

Atualmente, a galeria recebe a exposição “Planos Desiguais” (Foto: Patrícia Cassese)

Nova etapa

Há pouco mais de dois meses recebendo os clientes no novo endereço, o Ateliê de Cerâmica já constata uma mudança e tanto no cotidiano. “O fluxo (de clientes) é completamente diferente. (Em Contagem) as pessoas baterem à porta, era uma coisa que não existia”, pondera Daniel. Flávia complementa: “Lá, o tempo todo era um esforço para levar as pessoas. Porque a gente sabia que o espaço era muito legal e queria muito que as pessoas conhecessem. Não só para comprar a cerâmica, mas pelo apego que temos ao lugar. Portanto, a gente queria que outras pessoas vissem, frequentassem. Aqui, a casa (em si) está chamando muita atenção”.

Impossível não se encantar com os detalhes de cada cômodo, como um dos banheiros (Patrícia Cassese)

Campeã de vendas

Flávia conta que os utilitários ainda são o forte em termos de vendas do Ateliê de Cerâmica. “O que mais vende, de fato, são as peças pequenas. Na verdade, as xícaras sempre foram as campeãs. São charmosas, as pessoas gostam. É um ícone do ateliê”, afiança. No caso do mobiliário, o público é mais específico, situa Daniel. “Porque, na maioria das vezes, não é nem um objeto ‘de mercado’, vai mais para campo da arte”.

Outras das peças do Ateliê de Cerâmica, dispostas no novo endereço (Foto: Patrícia Cassese)

Preço final

Evidentemente, no que tange ao preço ao consumidor final, os utilitários são também as peças mais acessíveis no Ateliê, inclusive pelo fluxo de produção, que é maior. “Mas cerâmica é caro, não tem jeito”, pondera Daniel. “É uma área muito complexa. Até culturalmente, porque a gente inclusive tem dificuldade em precificar as coisas. Por muito tempo, aliás, a gente perdeu dinheiro. É que, além dos materiais serem caríssimos, quando a gente vai fazer um pedido, se depara com as flutuações dos preços, que é absurda”.

A história do Ateliê

Como vários outros empreendimentos mundo afora, foi o dedo do acaso que resultou no surgimento do Ateliê de Cerâmica. Vinte e poucos anos atrás, Flávia Soares cursava Design de Ambientes na transição da antiga Fuma para UEMG. “Lá, tive dois semestres de aulas de cerâmica. A professora, vale dizer, era muito interessada, mas a escola, à época, não oferecia muito”, lembra Flávia. Um dia, a citada professora levou, com o intuito de mostrar aos alunos, um trabalho que estava fazendo em seu ateliê. “Eram uns quadradinhos coloridos, e, com eles, ela estava montando uma roupa, tipo um colete. Tudo costurado com argolinhas. Vi aquilo e fiquei enlouquecida, apaixonada. Era uma paleta linda! Lembro que tinha um pouco de verde, azul… E, ali, decidi que queria fazer cerâmica”.

De pronto, Flávia procurou o ateliê de Erli Fantini, um dos nomes mais reconhecidos da cerâmica brasileira. “Assim, comecei a produzir coisas para mim mesma, muito pensando nas plantas que já cultivava. Mas, claro, fazia um pouco de tudo, porque estar em um ateliê estimula. Cada aluno chega com uma ideia”, rememora. Logo, as amigas de Flávia já queriam comprar os vasos produzidos por ela. Ao mesmo tempo, foi deixando o paisagismo, sua profissão primeira, de lado, pelas dificuldades intrínsecas à atividade. “Era um trabalho difícil, pesado. Aí, eu também já tinha forno, assim como minhas amigas queriam fazer cerâmica… Então, comecei a dar aulas. E não parei mais”.

O escritório, que traz vários detalhes originais da fundação do casarão (Foto: Patrícia Cassese)

No DNA

Os filhos foram entrando nesta história quase organicamente. “Eu, por exemplo, fui de tabela”, conta Luiza, animada. “Quando vi a primeira peça que ela levou para casa, talvez ainda da primeira queima, falei: ‘O que é isso? Foi você mesma que fez? Não é possível!’. Assim, na outra aula, já fui com ela”, lembra.

No subsolo, o interessado pode acompanhar a exibição de um vídeo que esquadrinha o processo de criação das peças do Ateliê (Foto: Patrícia Cassese)

Tempos depois, Luiza foi morar no Rio Grande do Sul, onde ficou por cerca de dois anos. “No finalzinho, minha mãe passou um tempo lá, comigo, e o Daniel acabou ficando aqui, cuidando das plantas e dos gatos, no Ateliê de Contagem. Quando voltei de mala e cuia, ele já tinha ocupado o espaço, fazendo torno”, diz ela, com o olhar parceiro de Daniel. Mesmo porque, se o talento está no DNA, a cumplicidade também é elemento de liga para a parceria dar tão certo.

Serviço

Ateliê de Cerâmica

Avenida Bias Fortes, 225, Praça da Liberdade

Ligações e WhatsApp: (31) 33983733.

[email protected]

Funcionamento: 

Seg-sex: 10h às 18h

Sábados: 10h às 13h

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