Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Dor da perda do pai norteia trama do livro “As Pequenas Chances”

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No romance “As Pequenas Chances”, Natalia Timerman relata, de modo ficcionalizado, o tortuoso processo que precedeu a partida do pai

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Médica psiquiatra, psicoterapeuta, crítica literária, pesquisadora e escritora brasileira. A paulistana Natalia Timerman é tudo isso e mais um pouco. Ou melhor, mais um tanto. Aos 42 anos, completados em fevereiro, ela já está confirmada para a Festa Literária de Paraty, a Flip, que acontece em novembro. Na verdade, foi a primeira autora a ter a participação divulgada pela organização. Desta vez, Natalia vai falar do mais recente título que leva a assinatura dela, “As Pequenas Chances”, obra que inclusive a traz agora à capital mineira: nesta quinta-feira, a partir das 19h, ela conversa com Jacques Fux na Livraria da Rua, onde, claro, também vai autografar o novo livro.

Natalia Timerman, que lança, agora, "As Pequenas Coisas" (Renato Parada/Divulgação)
Natalia Timerman, que lança, agora, "As Pequenas Coisas" (Renato Parada/Divulgação)

Lançado pela Todavia, “As Pequenas Chances” pode, à primeira vista, parecer autobiográfico. Afinal, a personagem principal também se chama Natalia, e, tal como a autora, está, na trama, lidando com as lembranças da morte do pai. Mas Natalia Timerman deixa claro: a narrativa é ficcional. Vamos à premissa: “Enquanto aguarda um voo, Natalia encontra o médico de cuidados paliativos que atendeu seu pai, Artur. A conversa desperta nela toda a experiência da morte dele, ainda próxima e repleta de cicatrizes”.

Cuidados paliativos

Vale dizer que o pai da autora, falecido em 2019, também foi batizado com o nome Artur. E, como a figura paterna de “As Pequenas Chances”, também passou pela fase dos cuidados paliativos antes de partir, por conta de um câncer. Ah, sim. Além da escrita, um “detalhe” faz toda a diferença: a capa, que traz a reprodução de uma belíssima obra que, cumpre frisar, foi feita especialmente para o livro. Trata-se da tela “Natureza Morta com Ovos” (2023), óleo sobre tela de Ana Elisa Egreja.

Capa do livro “As Pequenas Coisas”, que traz a reprodução de uma tela de Ana Elisa Egreja (Todavia/Divulgação)

Para falar mais sobre este livro tocante, que certamente vai fazer o leitor avançar as páginas no afã da fruição da escrita sensível, a reportagem do Culturadoria conversou com Natalia Timerman. Confira!

Você já disse que começou a escrever “As Pequenas Chances” antes mesmo de o livro “Copo Vazio” chegar às livrarias, o que aconteceu em 2021. Assim, queria saber por que este segundo acabou tomando a frente no quesito publicação? Aliás, à revista Cláudia, você disse que cada livro seu tem um tempo de maturação, “de gaveta”… Porventura sentiu que “As Pequenas Chances” precisava de mais tempo? Seria também devido ao fato de a narrativa tocar em feridas não cicatrizadas?

Sim, verdade, comecei a escrever “As Pequenas Chances” antes de “Copo Vazio” ser lançado, mas, de fato, terminei depois. Mesmo “Copo Vazio” teve um longo tempo de escrita e maturação, aliás, até maior, também pelo tempo de resposta de editoras e uma pequena coleção de recusas. Assim, comecei a escrevê-lo em 2015, mas ele só saiu em 2021. De modo geral, acho que a escrita acontece em mais de um momento, e de mais de uma maneira.

Há uma pré-escrita, digamos assim, antes da hora de sentar à frente do computador, enquanto vou colecionando ideias, frases, vontades. Do mesmo modo, há o momento da escrita propriamente dita, que, para mim, é vertiginosamente rápido (eu escrevi as duas primeiras partes de “As Pequenas Chances” em oito dias). E há o depois, quando o texto descansa, fermenta, e eu me distancio dele para depois voltar muitas e muitas vezes até que esteja pronto. Desse modo, esses três tempos são diferentes para cada livro.

Mesmo tendo ficcionalizado partes, como foi o processo de escrita de “As Pequenas Chances”, lembrando o quanto é doloroso não só a perda efetiva do pai da gente, como, tal qual, acompanhar o declínio da saúde de quem tanto amamos?

Veja, durante o processo de adoecimento e morte do meu pai, eu não estava pensando em escrever um livro. Na verdade, eu não estava pensando em nada, mas apenas vivendo, sem recurso algum, toda aquela dor e insuficiência e precariedade. Depois que ele morreu, um dia, de repente, a ideia veio, a partir de um sentimento simples: a vontade de ligar para o médico de cuidados paliativos que esteve tão próximo naquele período tão significativo.

Em uma residência artística, na qual só pude ficar dois períodos de quatro dias, porque meu filho era pequeno, três meses depois da morte do meu pai escrevi toda a parte do luto, dos últimos dias. E tudo estava muito fresco na minha memória. Escrevi diversas passagens chorando. Era doloroso, mas não mais do que a própria vida. Escrever era também a vida.

Sei que você já disse isso antes, em entrevistas, mas queria que falasse sobre essa mescla ficcional com elementos vivenciados que, em linhas gerais, gerou “As Pequenas Chances”… Como foi, na sua cabeça, fazer esse amálgama? E também queria que falasse sobre o conceito que levantou, na já citada entrevista à revista Cláudia, o da “literatura de filiação” (ainda que tenha pontuado entender que o livro que está lançando não se alinharia 100% a esta vertente que, como lembrou, foi cunhada na França, por Dominique Viart)…

Esse amálgama não foi feito na minha cabeça, foi feito na página, pelos meus dedos, com o meu corpo. A escrita talvez seja essa junção. A cabeça está presente sim, claro, mas não é dona do processo, para o qual há primordialmente que se abrir passagem. O conceito de narrativa de filiação é muito bonito: o texto lacunar, não cronológico, escrito a partir do legado de uma falência por um ancestral, e cuja escrita é necessária para se chegar a si, para se compreender no mundo. Gosto de pensar que “As Pequenas Chances” dialoga com isso.

Natalia, você falou que a leitura é um hábito que te apraz tanto quanto a escrita. Sendo assim, o que anda lendo? E como está a sua vida, neste momento?

Agora, estou lendo o ótimo “Um Crime Bárbaro”, de Ieda Magri, num ritmo muito mais lento do que o livro me pede. Minha vida tem sido a alternância de muita alegria com alguma apreensão. Lançar um livro é muito gostoso, quase euforizante, e isso é muito diferente de escrever. Estou sem tempo para escrever coisas que quero, sem disponibilidade psíquica para ler, e sinto imensa falta disso, de calma. Recentemente, me veio inclusive uma vontade de parar todo esse processo. Algo do tipo: ‘Vamos esquecer todos que esse livro (“As Pequenas Chances”) existe?’. ‘Vamos descansar disso um pouco, mundo e eu?’. Mas é óbvio que isso não é possível.

Serviço

Natalia Timerman conversa com Jacques Fux

Livraria da Rua (Rua Antônio de Albuquerque, 913, Savassi)
Entrada franca

Livro “As Pequenas Chances” (Editora Todavia)

208 páginas. R$ 69,90

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