Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Artista D’Lucca faz de uma movimentada esquina de BH o seu ateliê de pintura

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Nascido em Niterói, no Rio de Janeiro, o artista D’Lucca está na capital mineira há três meses, sobrevivendo da venda de suas artes

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Já há alguns anos, quem diariamente (ou de modo eventual) acessa a rua Grão Mogol a partir da avenida do Contorno, nas proximidades da Savassi, sabe que aquele trecho se tornou uma espécie de banca de livros usados a céu aberto. Tudo por conta do trabalho do ex-catador de papel Odilon Tavares.

Artista D'Lucca . Foto: Priscila Natany
Artista D'Lucca. Foto: Priscila Natany

Conhecido como Seu Odilon, ele chegou por ali em meados de 2018, conquistando a simpatia da população, que inclusive o ajudou em um dos momentos mais difíceis de seu percurso: em junho de 2020, um incêndio criminoso destruiu grande parte do acervo.

De três meses para cá, a movimentada esquina abriga um outro morador, que, coincidentemente, também disponibiliza para venda uma produção ligada à cultura. Particularmente, à arte da pintura. E, no caso, própria (a produção).

Trata-se de Lucas Reis, ou melhor, D’Lucca, como é chamado. Aos 32 anos, o moço, que nasceu em Niterói, no Rio de Janeiro, tem feito do endereço a sua morada – ao contrário, portanto, de Odilon, que fica por lá até por volta das 20h, indo, em seguida, para a sua casa, onde passa a noite.

Tal como o informal livreiro, D’Lucca também já conquistou amigos nas cercanias. Não só. Várias pessoas que moram na região ou circulam por ali no dia a dia incentivam o talento do artista diletante por meio da doação de pincéis e tinta.

Com a mochila, Brasil afora

D’Lucca chegou à capital mineira vindo do Sul do Brasil. “Na verdade, venho de um percurso longo de dez anos de viagens”, conta ele, que, neste exato momento, está feliz por ter conseguido o aval para dispor suas telas em uma das paredes externas da loja que fica na calçada onde ele se alojou.

O artista conta que já passou por 11 estados brasileiros (“do Pará ao Rio Grande do Sul”) e dois países da América Latina – Argentina e Bolívia.

No que tange a cidades, conta já ter passado por várias históricas e/ou turísticas, como Ouro Preto e São Tomé das Letras. Sim, as três localizadas em Minas Gerais. “Minas é tipo a minha segunda casa, gosto muito daqui”.

Apreço à arte

D’Lucca conta que sempre gostou de arte. Aos 15 anos, começou a tocar violão. Inquieto,  um dia decidiu colocar o pé na estrada. “Comecei a viajar para tentar agregar uma bagagem artística e cultural boa o suficiente para a minha vida”.

Em meio aos percursos, nas eventuais paradas, D’Lucca ia fazendo música, poesia e artesanato. “Joias também”. Agora, resolveu dar uma pausa maior em BH para, como ele mesmo situa, “se estruturar na arte”.

“Belo Horizonte é uma cidade muito cultural, principalmente no que envolve as artes plásticas. Acho que tem público e uma aceitação boa para isso”, avalia.

Mas não só. D’Lucca confessa acreditar em destino e diz estar sentindo que, aqui, “algo legal vai acontecer”. “Veja, em dez anos, eu nunca havia decidido parar por mais tempo em lugar algum”, diz, reforçando que, se tomou esta decisão agora, é porque seu instinto lhe diz ser o mais acertado.

Artista D'Lucca. Foto: Priscila Natany (1)
Artista D’Lucca. Foto: Priscila Natany

“Basquiat”

Em BH, não demorou muito e D’Lucca foi chamado de “Basquiat”. Certo, o estilo do fluminense não guarda relações claras com o que se tornou referência na trajetória do artista estadunidense de prenome Jean-Michel Basquiat (1960-1988).

Mas é que Basquiat, como se sabe, tornou-se mundialmente conhecido (e venerado) a partir de seu trabalho nas ruas de Manhattan (claro, mais tarde, pelas telas e, ainda, pela amizade e parceria com Andy Warhol).

Outro ponto que certamente aproxima D’Lucca do artista é o fato de ser jovem e extremamente estiloso. D’Lucca usa o cabelo trançado e traz tatuagens no rosto, para citar dois exemplos de estilo.

Work in progress

Quanto a estilo de pintura, franco, D’Lucca diz ainda não ter uma definição sobre sua marca. “Na verdade, ainda estou me encontrando. Talvez um dia venha a desenvolver o meu próprio estilo”.

Tampouco vê temas que se repetem nas suas obras. “Vivo variando. E também, não tenho a teoria, muitas referências visuais. Sou mais autodidata”, esclarece D’Lucca.

D’Lucca afiança nunca ter buscado aprender técnica na internet, por exemplo. “Então, é tudo esforço e tentativa”.

O começo

Ele conta que começou a pintar com os dedos, na cerâmica, há seis anos. “Depois passei para o papel e, em seguida, para a tela”. Para sua surpresa, no primeiro dia, já vendeu um trabalho.

Hoje, ele dá vazão à criatividade em suportes distintos, como MDF, telas, plásticos… “Tudo que eu possa renovar”. Eventualmente, ganha molduras antigas, as quais usa em suas obras.

D’Lucca diz ter particular apreço pelas cores frias, mas confessa que vem se forçando a estudar mais e a trabalhar com as quentes, “mais vivas”.

A venda de trabalhos é diária, e o preço varia conforme a própria necessidade do artista no momento. Perguntado se vê um perfil de público (apreciador de seu trabalho), ele responde: “Não. Engraçado, acho que abrange todo tipo de gente”.

Dia a dia

No geral, D’Lucca diz ser um cara tranquilo, que não esquenta muito. No entanto, em face do barulho da região, tem preferido pintar à noite, quando o movimento de carros, motos e ônibus (agregado à indefectível buzinação que caracteriza os grandes centros urbanos) diminui.

Perguntado se já sofreu algum tipo de preconceito, por estar morando ali, na rua, ele releva. “Olha, sou tão desligado nessas coisas. Se sofri, nem percebi. Ou se percebi, até esqueci”, diz, sorrindo.

A alimentação é obtida com o lucro das vendas ou por meio de lojistas e transeuntes. “Tem dia que dá trabalho para conseguir comer, mas, no geral, sempre dá certo”.

O comércio do entorno, assegura, o recebeu bem. “Acho que veem o meu esforço. Cheguei sem nada, só com papel, colava os desenhos no vidro. Então, as pessoas veem que estou trabalhando, acompanham a minha evolução”.

Eventualmente, D’Lucca também ganha roupas. Ah, sim! E já foi presenteado com alguns livros sobre arte. Aliás, já tem três sobre Basquiat. 

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