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Em ‘Aqueles olhos verdes’, Jose? Trajano narra a vida de um personagem singular

José Trajano narra a vida de um homem que cai de amores por Jandira e por uma pequena cidade no interior fluminense
José Trajano. Foto: Fabio Setimio
José Trajano. Foto: Fabio Setimio

“Zé Reis nunca chutou uma bola, era gordinho e sem jeito para jogar, mas nunca vimos sujeito tão fanático por futebol”. Em Aqueles olhos verdes, José Trajano narra a vida de um personagem singular, Zé Reis, um solteirão que cai de amores por Jandira e por uma pequena cidade no interior fluminense, Rio das Flores, para onde se muda para tomar conta da fazenda recém comprada pelo irmão.

O romance começa em clima de conspiração em 1938: a fazenda serviria de esconderijo para um inimigo político de Getúlio Vargas. O irmão de Zé Reis, Vicente, é um dos cabeças da Ação Integralista Brasileira, os “anauê”, com seu fascismo à brasileira inspirado em Mussolini. Apesar do irmão, Zé é um profundo admirador de Getúlio. Imagine só.

Trama

A partir daí seguimos o desenrolar dessa e de muitas outras situações protagonizadas por esse personagem encantador. Em paralelo à história de Zé Reis está a História do Brasil, do final dos anos 1930 até a primeira metade da década de 1960, na prosa deliciosa de José Trajano. Aqueles olhos verdes tem a cadência da fala, com muito ritmo e fluidez na leitura: escutamos a voz inconfundível de Trajano no desenrolar das peripécias de seu personagem.

O autor reescreve a História do país ao redor de seu protagonista. Momentos decisivos da política e da cultura brasileira são trazidos por ele ao longo da narrativa: o Estado Novo, o retorno de Getúlio – nos braços do povo – e seu suicídio, a inauguração de Brasília, a Rede da Legalidade de Brizola, a conquista dos Estados Unidos por Carmem Miranda, o surgimento da bossa nova, a opulência dos cassinos e do teatro de revista. E, claro, o futebol.

Passam pelas páginas do livro o primeiro jogo da seleção brasileira em terras internacionais transmitido via rádio no país, escutado com ansiedade pelos habitantes de Rio das Flores, a derrota na Copa de 1950 e a vitória redentora na Copa de 1958, além de clássicos decisivos de campeonatos nacionais e um sem número de craques inesquecíveis. Mas, quando o assunto é futebol, o destaque da narrativa fica para o pequeno Rio das Flor Futebol e Regatas – assim mesmo, no singular – time criado por Zé Reis, que viveu momentos de glória em competições estaduais no Rio.

Aqueles olhos verdes tem gosto de cerveja gelada e tira-gosto em um boteco numa cidadezinha do interior. Sentado na mesa está um narrador que desenha esse personagem adorável de olhos esverdeados, que viveu muitas vidas em uma só. Na última linha do romance, José Trajano coloca um sorriso em nosso rosto.

Encontre “Aqueles olhos verdes” aqui

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura


Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro. Seu Instagram é @tgpgabriel

José Trajano. Foto: Fabio Setimio
José Trajano. Foto: Fabio Setimio

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