Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Nós vimos: ‘Antes que a definitiva noite se espalhe em latinoamerica’

A peça que esteve em cartaz no Sesc Palladium em BH tem textos de autores do Brasil, argentinos e chilenos

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O espetáculo Antes que a Definitiva Noite se Espalhe em Latino América, apresentado esse final de semana em Belo Horizonte é desdobramento da pesquisa do diretor Felipe Hirsch sobre as mazelas que permeiam o processo histórico de construção da América Latina. É o tema dos últimos espetáculos do encenador. Por exemplo: assunto recorrente em A Comédia Latino Americana e A Tragédia Latino Americana (2016), que, infelizmente, não passaram pela capital mineira.

Por essas coisas que só o teatro explica, a peça passou por BH na semana em que a América Latina está pegando fogo. Além das crises permanentes no Brasil e na Venezuela, há suspeitas de fraude na eleição presidencial da Bolívia. Além disso, as eleições argentinas e o povo do Chile participando do maior protesto popular desde a redemocratização do país.

Não é preciso ser nenhum historiador pra saber quais são as mazelas. Nem que o povo latino-americano precisa ser constantemente lembrado delas. É o tema que alinhava as cenas da peça. Os textos foram escritos por diferentes autores do Brasil, Chile e Argentina. O cenário, de Daniela Thomas, é cheio de significados. Vários colchões usados são espalhados pelo palco ou suspensos. O recurso que proporciona instabilidade no pisar para os atores é batido, mas funciona.

Os atos

O primeiro ato se dedica inteiramente a investigar a função da arte, sua (perda de) relevância, concessões para continuar existindo e como ela dialoga com o homem comum. Dessa forma, o destaque vai para um solo da atriz Renata Gaspar. A artista improvisa na pele de uma atriz em crise, inclusive abrindo diálogo com a plateia.

O segundo ato estende a temática e começa com uma cena sobre uma mãe que teve a filha (trans?) assassinada, com direito a um coro remetendo as tragédias gregas. É o grande momento de Débora Bloch. Em seguida, a artista trans Blackyva canta um rap sobre o extermínio dos corpos marginalizados nas favelas brasileiras. “Parem de nos matar!”. A plateia (muito participativa) foi ao delírio.

 

Antes que a definitiva noite se espalhe em Latino América
Foto: Flavia Canavarro / Divulgação

 

Referência a Caetano Veloso

A figura de Caetano Veloso paira sob toda a peça. Além de ser o intérprete original da canção cujos versos dão nome ao espetáculo (Soy Loco por Ti América, de Gilberto Gil e Capinam), o tropicalista é tema do melhor texto do espetáculo, escrito pelo chileno Guillermo Calderón. A cena – feito por Guilherme Weber completamente nu em diálogo com o ator chileno – trata de um Brasil distópico, totalmente ditatorial e violento em que Caetano é assassinado pelo governo. Será tão distópico assim?

Os espectadores mais atentos também perceberam uma referência a Caetano no texto sobre o poeta perseguido por matadores que também se tornam poetas. A cena é feita com o público no palco, espalhado pelos colchões. A voz de Caetano é ouvida em off, no emblemático discurso que ele fez ao ser vaiado após defender É Proibido Proibir no Festival da Canção em 1968. “Vocês não estão entendendo nada”. Será que não estamos mesmo? Será que precisamos recorrer aos poetas pra entender?

Em síntese, o espetáculo Antes que a definitiva noite se espalhe em Latino América é interessante como experimentação cênica (inclusive para os espectadores). A peça arrebata por tratar de temas tão próximos de nós. No entanto, não pude deixar de sentir uma certa obviedade no tratamento da temática. Sobretudo no número que encerra o espetáculo – siga em frente – e que, curiosamente parece ter gerado a maior catarse na plateia. Ainda assim trouxe uma sensação de que ele funciona melhor dentro de um panorama mais amplo sobre a América Latina na obra recente de Hirsch.

Espetáculo visto no dia 26 de outubro de 2019, no Sesc Palladium, em Belo Horizonte.

 

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