Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

“Sonhei-te” reúne os poemas-sonho da artista Ana Rocha

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Nome à frente da Polvilho Edições, Ana Rocha lança neste sábado, 15 de junho, a “família Sonhei-te”, composta por livro de poesia, carimbos, pôster e coleção de cerâmica

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Foi durante o período mais tenso da pandemia de Covid-19, quando o país vivia o isolamento social, que a artista e poeta Ana Rocha passou a anotar, no celular, assim, que despertava, versos derivados dos sonhos que tinha. Ou seja, poemas-sonho. “Na verdade, sempre sonho muito, mas, nos últimos tempos, na correria do dia a dia, acabava não tendo o hábito de anotar. A pandemia me possibilitou despertar com mais calma, sem ter que sair correndo para resolver alguma coisa. E, assim, anotar os sonhos virou um hábito”, rememora ela.

Capa do livro "Sonhei-te", de Ana Rocha, que será lançado neste sábado, 15 de junho, na Polvilho Edições, na Galeria São Vicente (Marcos Leão/Divulgação)
Capa do livro "Sonhei-te", de Ana Rocha, que será lançado neste sábado, 15 de junho, na Polvilho Edições, na Galeria São Vicente (Marcos Leão/Divulgação)

Ela conta que anotava trechos dos sonhos de forma muito despretensiosa, mas já em versos. “E, quando me dei conta, tinha muitos sonhos registrados. Aí, em algum momento pensei que essas anotações poderiam dar um livro”. E deu! Portanto, neste sábado, dia 15 de junho, a partir das 11h, Ana Rocha lança, no estúdio da Polvilho Edições, na Galeria São Vicente, seu mais novo livro de poesias e ilustrações “Sonhei-te”. São, ao todo, 24 poesias.

E, ainda, uma nova coleção de cerâmicas, intitulada Aqui Jaz uma Caminha, com 24 peças. Ela é composta por camas manufaturadas em cerâmica de alta temperatura, com lençóis, travesseiros e colchões removíveis. Do mesmo modo, estarão à venda, por lá, o cartaz “Dormitório” (tiragem de 200 exemplares) e os carimbos “despertar” e ‘adormecer”, pertencentes ao que ela chama de família gráfica “Sonhei-te”.

O pôster Dormitório, que também será apresentado no evento de sábado, 15 de junho (Marcos Leão/Divulgação)
O pôster Dormitório, que também será apresentado no evento de sábado, 15 de junho (Marcos Leão/Divulgação)

Poemas-sonhos

“Sonhei-te” é o quarto livro de poesia de Ana Rocha. Os dois primeiros, “Queloide – Poemas Cicatriciais” e “Niebla – Poemas Sedimentais”, explica ela, dizem respeito a infortúnios amorosos e são de poesia visual. “Depois veio ‘Primeira Pessoa’, com memórias de infância em versos livres, quase esquemáticos”. Habitualmente, o conteúdo dos livros da artista nasce mesmo da edição dos escritos dela espraiados em cadernos de formatos variados. “Escrevo muito em caderninhos, desde a adolescência”, diz ela, que, como já assinalado, retomou a prática na pandemia.

Nascida em São Paulo, Ana Rocha está radicada em BH desde 2009, tendo criado a Polvinho em 2012 (Gustavo Haack/Divulgação)
Nascida em São Paulo, Ana Rocha está radicada em BH desde 2009, tendo criado a Polvinho em 2012 (Gustavo Haack/Divulgação)

“Assim, uma inspiração onírica, registrada ao despertar, sem nenhuma pretensão”, brinca Ana. “Mas acho que os sonhos dizem muito sobre o que estamos vivendo, não é? Angústias, desejos, medos, saudade, faltas, lembranças…”, elenca. Já sobre a seleção das poesias que entrariam no livro, Ana conta que ela se deu a partir de um processo de lapidação dos poemas-sonhos. “Desse modo, pouco a pouco construíram uma narrativa que, vale dizer, pela falta de numeração das páginas, uma vez embaralhada, estará desfeita. Ou seja, o número 24 não serviu a nenhum propósito”.

Licença poética

O título do livro – “Sonhei-te” -, explica Ana, é “uma baaaaita licença poética”. “Foi com essa conjugação (inventada) que iniciei todos os poemas durante as anotações originais. E, assim, pensei que nenhum título poderia ser melhor que esse”, pontua.

Ana lembra, ainda, que o poema de apresentação do livro diz

não há regência
nem concordância
verbal que deixe
o versinho dormir
lençóis acesos
engomam desejos
emaranham o peito
rogam por ti
para cada poema
uma cama
para cada cama
uma falta

Objeto livro

Perguntada sobre que palavras usaria para definir o tipo de poesia ao qual se filia, Ana Rocha responde: “Há muitos anos encontrei nos livros de artista uma maneira de materializar meu trabalho. Acho que sou uma artista que (também) escreve, mas não filiada a nenhum tipo de poesia ou algo do gênero. Mais do que pela poesia, me interesso pelo objeto livro”, esclarece.

Cerâmicas

Foi durante a faculdade de Belas Artes que Ana Rocha teve o primeiro contato com a cerâmica. No entanto, ela aponta que, apesar de gostar de frequentar as aulas, não foi a disciplina que fez os olhos dela brilharem. Porém, já há algum tempo pensava em voltar a fazer umas experimentações. “Só que nunca encontrava tempo”. Mais uma vez, foi durante a pandemia (“trancada e sozinha em casa”) que deu início a uma série de miniaturas de camas e cadeiras.

A ideia era fazer 40 peças, em alusão à estimativa do que, na cabeça dela, seria a quarentena instituída. “Quanta inocência e desinformação”, pontua ela, hoje. Porém, as miniaturas também diziam muito sobre ausência & espera. “Desde essa época, pois, tenho estado imersa na cerâmica, produzindo muito. E o projeto de agora é uma tentativa de unificar um pouco a produção editorial com os outros trabalhos que realizo em paralelo à Polvilho”.

Desdobramentos

Recapitulando, a ideia das camas de cerâmica despontou com a série de miniaturas pandêmicas, mas, mais tarde, junto à construção do livro “Sonhei-te”, que ela lança agora, surgiram as camas que Ana também apresenta a partir deste sábado. “Que são maiores (que a primeira leva), desmontáveis… Um outro projeto mesmo. A produção do livro com a série foi concomitante, então, ao longo do processo é que fui elaborando tudo, tanto a obra e seus desdobramentos (carimbo, pôster) quanto a série de cerâmicas”.

Peças da série Aqui Jaz uma Caminha (Marcos Leão/Divulgação)
Peças da série Aqui Jaz uma Caminha (Marcos Leão/Divulgação)

Perguntada se as peças de cerâmica serão comercializadas na Polvilho, ela lembra que, na verdade, mesmo as que foram produzidas durante a pandemia foram colocadas à venda, o que volta a acontecer agora.

Outra foto das peças em cerâmicas feitas por Ana Rocha (Marcos Leão/Divulgação)
Outra foto das peças em cerâmicas feitas por Ana Rocha (Marcos Leão/Divulgação)

Polvilho

Perguntada sobre como está, neste momento, a Polvilho, Ana lembra que o modus operandi da casa independente, hoje reconhecida como “a editora das famílias gráficas”, se deu em um processo gradativo. “(Tal qual) cada vez mais consciente e estruturado, em que todos os livros publicados foram recriados em cartazes, carimbos, bandeiras e outros desdobramentos. Assim, formando as respectivas famílias gráficas (como ela gosta de nomear). Ou seja, é o conteúdo de cada publicação que norteia a criação dos desdobramentos”, elucida.

Dois carimbos também compõem a família "Sonhei-te" (Marcos Leão/Divulgação)
Dois carimbos também compõem a família “Sonhei-te” (Marcos Leão/Divulgação)

Sobre o fato de o estúdio estar, hoje, situado na Galeria São Vicente, Ana Rocha lembra que durante quatro anos operou no Mercado Novo, comercializando não só o trabalho da Polvilho, mas de dezenas de editoras e artistas do Brasil e latino-americanas. “Mas, apesar da alegria e da importância de trazer essas produções para a cidade, a exaustão de tocar um negócio desse sozinha fez com que eu repensasse o modelo. Desse modo, optei por ter uma operação mais enxuta, apenas com meu trabalho autoral”.

Outro desejo era que o espaço fosse, além de loja, um ambiente de trabalho/ateliê. “E, hoje, o estúdio na Galeria São Vicente se configura exatamente assim”, brinda Ana. Em 2022, a Polvilho completou dez anos de vida, e, assim, foi lançado o catálogo Década, uma belíssima edição de 544 páginas, ricamente ilustrada que, como assinala a jornalista Flávia Denise de Magalhães, “é um convite para mergulharmos no universo vivo de desdobramentos editoriais de Ana Rocha e sua Polvilho”.

A artista

Ana Rocha é natural de São Paulo, mas está radicada em Belo Horizonte desde 2009. Formada em artes visuais pela Belas Artes de São Paulo (CUBASP) e pós-graduada pela Escola Guignard (UEMG), há mais de dez anos investiga, coleciona e produz livros de arte. Em 2012, criou a Polvilho Edições, editora independente vocacionada para o trabalho autoral.

Serviço

Lançamento da família gráfica “Sonhei-te” e da coleção de cerâmica Aqui Jaz Uma Caminha, de Ana Rocha

Neste sábado, dia 15 de junho, a partir das 11h

Onde. Polvilho Edições – Galeria São Vicente (Avenida Amazonas, 1.049, sobrelojas 55/56, Centro)

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