Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Montagem afrofuturista encerra temporada nesta sexta, 3 de maio

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Inspirado na ancestralidade de mulheres negras, o espetáculo afrofuturista (que conquistou o Prêmio Leda Maria Martins) se despede de BH

O espetáculo “EX-MAGINATION” encerra a nova circulação em Belo Horizonte nesta sexta, 3 de maio, às 19h30. Na ocasião, será apresentado no Ilê Wopo Olojukan, no bairro Providência. A peça – com entrada gratuita – conta a história de uma alienígena. A personagem inicia uma jornada de autodescoberta na Terra após aterrissar, sem memória, em terreiros da Grande BH. Passando em casas, quintais e quilombos para entender sua missão de vida, será ajudada pelo afeto e respeito existentes no futuro afrofuturista do planeta. 

Atriz que encena o monólogo afrofuturista, Michelle Sá pontua: “Mais uma vez, estamos conseguindo levar o teatro para fora do palco tradicional. Estar nos espaços negros, nos quilombos e terreiros transforma e torna o teatro acessível”, brinda ela.  

Cena do espetáculo, que encerra a nova circulação em BH nesta sexta, 3 de maio, no Ilê Wopo Olojukan (Mayara Laila/Divulgação)
Cena do espetáculo, que encerra a nova circulação em BH nesta sexta, 3 de maio, no Ilê Wopo Olojukan (Mayara Laila/Divulgação)

Sinopse

Com a dramaturgia de Nívea Sabino, o espetáculo realiza uma viagem encantada. Assim, nela, o planeta Terra se encontra no estágio de evolução sonhado por muitas pessoas. Ou seja, um lugar em que o amor e a convivência pacífica entre seres diferentes prevalecem. A alienígena negra cai na Terra vinda do planeta LSP-44. Trata-se de uma dimensão em que a ganância e a intolerância instauraram uma crise biológica e social. Aliás, quadro que em muito se parece com a realidade de nossas sociedades.

Ela é uma cidadã da sociedade de mulheres lésbicas, as Gingas. Desse modo, fugindo de guerras, racismo, violência de gênero, falta de água e homofobia, inicia uma jornada. Assim, perambula por terreiros onde a fé e união entre pessoas negras são as bases da sobrevivência. Nestes lugares ancestrais, encontra o acolhimento, amor, afeto, além do contato com a terra, água e as plantas que fertilizam a busca pelo autoconhecimento.

Projeto

Desde a concepção, o projeto afrofuturista já previa a itinerância. Assim, a cada lugar no qual o espetáculo aterrissa, histórias, memórias e geografias são incorporadas como elementos de cena. Desde a primeira temporada, a obra teatral se ancora nos múltiplos significados da palavra “terreiro”. Desse forma, traz, à tona, as histórias, a fé e vivências herdadas desta formação geográfica e familiar negra. 

Os terreiros, que são as bases da cultura do samba, pagode, candomblé e umbanda, compõem o espetáculo como cenografia e fonte de conhecimento. A partir dos elementos que constroem um terreiro, o espetáculo afrofuturista ” cria seu mundo de ficção afrofuturista. Ou seja, plantas, pedras, árvores, águas, famílias e animais. Nesta nova fase, a nave inicia uma trajetória sobrevoando lugares marcados pela resistência ao racismo religioso, ambiental e cultural.

O Ilê Wopo Olojukan

O Ilê Wopo Olojukan foi fundado em 1964, pelo Babalorixá Carlos Ribeiro da Silva (1933-1997), o Carlos Olojukan. Na verdade, foi o primeiro terreiro de candomblé fundado na cidade. Em 1995, o local foi tombado como Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte. Atualmente, sob a liderança do herdeiro Babalorixá Sidney D’Oxossi, o terreiro se mantém como um dos espaços de salvaguarda da cultura tradicional negra da cidade. Assim, uma referência na preservação do culto da nação de candomblé Ketu. 

Animado para receber o espetáculo afrofuturista, o Babalorixá Sidney D’Oxossi afirma a importância da parceria dos espaços religiosos com a cultura. “O terreiro é um espaço político que vai muito além da questão religiosa. Desse modo, é de suma importância que nós, povos de terreiro, estejamos abertos à cultura. É uma forma de pessoas que não fazem parte da nossa religião virem conhecer o espaço sagrado. E, assim, possam quebrar os preconceitos que sofremos. Mostrar que estamos engajados na produção cultural e política da cidade”, diz.

O mundo que queremos

Ao buscar os espaços negros para transformar em palco, o espetáculo realiza uma jornada afrofuturista no presente, em busca do passado, mas também pensando no futuro. “Ter a oportunidade de estar nestes espaços do sagrado é muito importante. Trata-se de um lugar de passagem o qual a peça se propõe e, desse modo, convida a população para conhecer. São lugares que têm a cultura do cuidado com a terra, a água e as plantas. Assim, temas que atravessam o espetáculo e nos convocam a refletir sobre o mundo que queremos,” afirma Nívea Sabino.  

Conversa de terreiro

Todo o processo de criação do texto, da cenografia e sonoplastia está baseado em diálogos com as lideranças e comunidade dos locais em que a peça será apresentada. “Nós queremos proporcionar um encontro, uma conversa”, afirma Michelle Sá. Com esse objetivo, ao fim de cada apresentação é realizado o momento batizado como “conversa de terreiro”. Ou seja, a equipe de produção e as lideranças da comunidade conversam com o público sobre a história do território. Nesta sexta, 3 de maio, a conversa ocorrerá com o babalorixá Sidney D’Oxossi.

Prêmio Leda Maria Martins

Em 2023, o espetáculo foi premiado pelo Prêmio Leda Maria Martins na categoria Performance do Tempo Espiralar. A premiação leva o nome da Rainha de Nossa Senhora das Mercês do Reinado de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá. Dramaturga e pesquisadora do campo das artes, reconhece trabalhos notórios no teatro, poesia e performance. Michelle Sá se orgulha do prêmio: “Certifica que estamos no caminho certo de uma investigação cênica”.

Ela acrescenta que o reconhecimento conecta com a criação afrofuturista em “que a ancestralidade de fato nos apresenta um tempo espiralar”. Isso, “através do acesso às memórias do passado aqui no presente, mas também nas projeções de outras possibilidades”. Em tempo: A montagem tem o fomento da Secretaria Municipal de Cultura de BH, através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura no Edital Multilinguagens (FUNDO) – Projeto nº  0319/2023. 

Serviço

Temporada de Circulação Gratuita 

Quando. Sexta, 3/05, às 19h30

Onde. Ilê Wopo Olojukan (Rua Dr. Benedito Xavier, nº2030, bairro Providência)

Quanto. Gratuito.

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