Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Morre, aos 82 anos, Aderbal Freire Filho

Gostou? Compartilhe!

Diretor, dramaturgo, ator, apresentador, tradutor. Aderbal Freire Filho deixa um legado imensurável no cenário cultural brasileiro

Patrícia Cassese | Editora Assistente

O universo das artes cênicas lamenta, nesta quarta-feira, a partida o diretor Aderbal Freire Filho. Nascido em Fortaleza, mas radicado no Rio de Janeiro de 1970, Aderbal, que atualmente estava com 82 anos, era casado com a atriz Marieta Severo. Fez algumas presenças pontuais como ator, em produções como “Tapas & Beijos” (Rede Globo) e na série “Confissões de Adolescente” (Cultura). Também foi apresentador do programa “Arte do Artista”, da TV Brasil, que inovou ao adotar o conceito de obra aberta. Nas entrevistas, os convidados eram instigados a refletir sobre aspectos da arte.

Aderbal Freire Filho: diretor, ator e dramaturgo faleceu nesta quarta-feira, aos 82 (Daryan Dornelles/Divulgação)
Aderbal Freire Filho: diretor, ator e dramaturgo faleceu nesta quarta-feira, aos 82 (Daryan Dornelles/Divulgação)

Foi, ainda, tradutor, tendo sido responsável pela versão para o Brasil de “A Paz Perpétua” (Editora Cobogó), de Juan Mayorga. A obra, que mistura elementos de teatro e fábula, aborda, através de quatro cachorros, temas como filosofia, autoridade, política e violência.

Trajetória marcante

Aderbal Freire Filho foi um dos criadores do Centro de Demolição e Construção do Espetáculo (1989-2003), além de ter sido membro do conselho diretor do Festival Ibero-americano de Teatro, em Cádiz (Espanha). Como diretor, deixou sua assinatura em adaptações brasileiras de obras de autores icônicos, como Bertold Brecht, Ibsen, Shakespeare, Tchekhov e outros não menos importantes. Foi, ainda, um dos idealizadores do Teatro Poeira, junto a Andrea Beltrão e Marieta Severo. O espaço foi inaugurado em 2005.

Repercussão

Nas redes sociais, muitos artistas lamentaram a perda. Caso de Matheus Nachtergaele, que escreveu, no Instagram: “Tão lindo era o Aderbal Freire Filho! Tão fundamental na cena do nosso Teatro! Tão príncipe era o Aderbal! Nossa família do Teatro Brasileiro está sendo duramente golpeada pela partida de artistas de estofo gigante. Ficamos mais órfãos, mas para sempre inspirados! Obrigado, príncipe suave e sábio dos nossos tablados, por tudo! Estou sem palavras….um beijo no coração de Marieta, no coração de cada amor teu…..um beijo grande em nós: te amamos”.

Gigante

A jornalista Daniela Name foi outra a se expressar: “(Aderbal Freire Filho) Foi o homem mais bonito que eu conheci. Por dentro e por fora. Coração e cabeça. Alma? Se houver, também era (é) linda. Os silêncios e os olhares tão fundos quanto as palavras. A desenvoltura que só os gigantes têm com a empatia, o apreço pelo diálogo e pela partilha. Se, no colégio, tive o primeiro lampejo de paixão pelo teatro, foi sem dúvida assistindo a Aderbal que nasceu o amor. Ele me deu o entendimento do que é encenar, adaptar, transpor o texto para essa experiência incrível que é ver o palco de um lugar na plateia. Isso mesmo quando não havia palco, como no seu Getúlio caminhante e fantasmático pelas salas do Palácio do Catete”.

E prosseguiu: “Hoje gostaria de ser mais velha, para tê-lo visto estrear como ator em um ônibus ou dirigindo Marília Pêra em ‘Apareceu a Margarida’. Gostaria de ter achado uma foto de “A prova”, com Andreia Beltrão. Não rolou. Catei outras e só depois vi que poderia ter encaixado “O púcaro búlgaro”, “Céus”, “Hamlet”, “Senhora dos afogados”. Tanto em tantas, sempre. Nunca estive em um espetáculo mediano dirigido por Aderbal. Nunca deixei o teatro depois de uma peça dele imersa em trivialidades. Sempre recebi de presente dias e dias de digestão simbólica da arte. Às vezes meses. Às vezes pela eternidade: ainda penso na sua “Moby Dick”. Jamais poderei agradecer o bastante”.

E mais

O ator Chico Diaz também deixou público o seu sentimento: “Mestre! Meu mestre! Mestre de todos nós! Tudo ensinou …obrigado obrigado!!”. Como Nachtergaele, a atriz Helena Ranaldi foi outra a se referir a tantas perdas recentes. “O teatro vai ficando órfão com a partida de tantos diretores importantes. Obrigada pela imensa contribuição Aderbal! Um beijo carinhoso para minha querida Marieta”.

Funarte

A Funarte divulgou nota lamentando “profundamente” a morte do diretor, ator e dramaturgo cearense Aderbal Freire-Filho, aos 82 anos, nesta quarta-feira, 9 de agosto. “Um dos maiores diretores de teatro do Brasil, o premiadíssimo Aderbal Freire-Filho foi mestre de diferentes gerações de atrizes e atores deste país”.

A Fundação Nacional de Artes lembrou que, em 2016, Aderbal Freire Filho subiu aos palcos do Teatro Glauce Rocha, administrado pela Funarte, com a montagem “Depois do Filme”, contemplada no programa Cena Aberta – Funarte 2016. Além de ser o autor do texto e de dirigir o espetáculo, Aderbal interpretou todos os papéis.

E não foi a primeira vez que ele atuou e dirigiu uma obra, seguiu a nota. O texto lembra que, em 1977, Aderbal dirigiu “A morte de Danton”, de Georg Büchner, em que atuou como Robespierre. Em 1993, contracenou com Christiane Jatahy em “Ay, Carmela”, de Sanchis Sinisterra, cuja direção dividiu com o autor. Em 2000, foi o protagonista de “Luzes de Bohemia”, de Ramón del Valle-Inclán. E ainda substituiu outros atores em muitas peças que dirigiu, como “Mão na Luva”, “Tio Vânia” e “A Prova”.

“Mas a estreia mesmo na vida artística como ator foi em ‘Diário de Um Louco’, de Nikolai Gogol. A primeira direção foi com ‘O Cordão Umbilical’, de Mario Prata, em 1972”. No ano seguinte, fundou o Grêmio Dramático Brasileiro e, em 1989, o Centro de Demolição e Construção do Espetáculo (CDCE). “Foram muitas obras, conquistas e contribuições às artes e à cultura brasileira nessa jornada. A Funarte se solidariza com a família, amigos e fãs de Aderbal Freire-Filho”.

Aderbal Freire Filho sofreu um AVC em 2020. Depois de passar um bom tempo hospitalizado, teve permissão para ir para a casa, onde foi montado um home care. Em entrevista ao Universa/UOL, no ano passado, Marieta Severo contou que o casal estava passando a pandemia em Engenho Nogueira, quando Aderbal teve que voltar ao Rio, para resolver assuntos burocráticos. Em uma conversa por telefone, ela percebeu que o companheiro estava estranho. Foi o momento que ele estava tendo o AVC. Marieta solicitou ajuda, o que, de acordo com ela, na citada entrevista, pode ter sido fundamental para que não tivesse chegado a óbito naquele momento.
,

Gostou? Compartilhe!

[ COMENTÁRIOS ]

[ NEWSLETTER ]

Fique por dentro de tudo que acontece no cinema, teatro, tv, música e streaming!

[ RECOMENDADOS ]