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Acesso a acervos e preservação de arquivos estão em xeque, o que fica são “cinematecas imaginárias”

Realizadores falaram da importância da preservação para a construção de novos filmes a partir de produções antigas no cinema nacional

Por Jaiane Souza *

07/09/2020 às 16:30 | *Colaborador

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Filme A jangada Welles, de Petrus Cariry e Firmino Holanda. Crédito: Iluminura Filmes

Os realizadores brasileiros que reconstroem filmes ou criam novas narrativas a partir de obras produzidas anteriormente encontram, entre as diversas dificuldades, o desafios de acessarem acervos e materiais preservados. Este assunto esteve em discussão no debate “Revisão, reconstituição ou reapropriação de filmes interrompidos ou perdidos”, que fez parte da programação da 15ª CineOP.

“O que eu fiquei mais assustado durante o processo foi a dificuldade para conseguir os arquivos e ter acesso, sendo pago ou não. Fiquei pensando em como é bom os cineastas criaram uma espécie de arquivo porque ninguém sabe como ficar isso de agora em diante”, disse Petrus Cariry, diretor, ao lado de Firmino Holanda, do filme A jangada Welles

Ao lado de Petrus esteve Reinaldo Cardenuto, co-diretor de Acabaram-se os otários, e Vitor Graize, realizador do filme Olho de gato perdido. Os outros dois diretores relataram problemas parecidos, mesmo os filmes tendo abordagens diferentes. 

Cinematecas imaginárias

Em co-direção com Rafael de Luna no filme Acabaram-se os otários, Reinaldo Cardenuto também pesquisa cinema e é professor do Departamento de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense. De acordo com ele, quem pesquisa cinema vai se deparar com uma catástrofe, que é a quantidade de filmes que desapareceram ou foram interrompidos. “Diante de tantos títulos que surgem nas nossas pesquisas, a gente cria uma espécie de cinemateca imaginária com aquilo que nunca teremos condições de assistir porque se perdeu ou nunca foi realmente realizado”, disse Reinaldo. 

Acabaram-se os otários, por exemplo, foi construído a partir de fragmentos do filme de Luiz de Barros, o primeiro longa-metragem com som da história do Brasil. “Tentamos, 90 anos depois, recuperar todos os vestígios remanescentes do filme que estão espalhados em cerca de 10 arquivos brasileiros”, explicou Cardenuto. A partir disso, os diretores compuseram uma versão do que imaginam que foi o filme, tentando manter a dinamicidade e o humor característicos da obra original, mas com narrativa própria. 

preservação

Filme Acabaram-se os otários, de Reinaldo Cardenuto e Rafael de Luna. Crédito: Departamento de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense

Soluções por meio de fragmentos

“É melhor você fazer a reconstituição do modo que ela é possível do que você ficar aguardando uma condição não precária, que talvez nunca chegue, e que não permita que a gente não devolva esse filme para a esfera pública”, destacou Reinaldo. E talvez esse seja um caminho interessante para a concepção de novas narrativas. No caso de A jangada Welles, por exemplo, Firmino Holanda e Petrus Cariry fizeram questão de realizar um curta mesmo com outras produções existentes, como as quatro obras de Rogério Sganzerla a partir de projeto de Orson Welles realizado no Brasil. 

Welles esteve em território brasileiro em 1942 para filmar o documentário É tudo verdade (It’s all true) sobre os jangadeiros cearenses e o carnaval carioca. No entanto, o projeto foi interrompido com o fim do contrato com o estúdio RKO Pictures. Dessa forma, o que seria uma espécie de continuação de Cidadão Kane (1941) e Soberba (1942) se perdeu. Em 1985, alguns negativos foram achados. Assim, Richard Wilson, Bill Krohn e Myron Meisel fizeram o documentário É tudo verdade – Um filme inacabado de Orson Welles (1993). 

Reencenações também são uma possibilidade para a reconstrução e alimentação dessa cinemateca imaginária. O filme Olho de gato perdido, de Vitor Graize, é um exemplo disso. O filme foi feito para o programa DocTV, usa entrevistas e encenação para relembrar um faroeste filmado em super 8. O longa teria sido gravado em 1975 no Espírito Santo, mas nunca se soube se o filme de fato existiu. A dúvida acabou apenas em 2017, quando Graize encontrou o diretor Ailton Claudino de Barros e conseguiu uma cópia do filme.

Veja a seguir a conversa completa sobre o assunto! 

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