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Reações políticas acaloradas marcam abertura da Mostra de Tiradentes

22ª Mostra de Cinema de Tiradentes começou com homenagem à atriz Grace Passô e exibição do filme Vaga Carne

Por Thiago Fonseca *

19/01/2019 às 11:48 | *Colaborador

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Leo Lara / Divulgação - Grace Passô recebeu na cerimônia o troféu Barroco

Quem foi à abertura da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes, nesta sexta-feira, dia 18, para ver Grace Passô ser homenageada sentiu-se em casa. Afinal, foi uma ode a toda geração dela. A cerimônia foi marcada por diversos atos políticos, apresentações artísticas e exibição do média-metragem ‘Vaga Carne’, com direção de Ricardo Alves Jr. e de Grace.

Quem abriu a noite foi Nath Rodrigues do Coletivo Negras Autoras. Ela entrou tocando violino e cantou Insubmissa, de Maíra Baldaia. No telão, foram exibidas fotos des outras edições da Mostra. Barulhista também fez parte da performance com suas mixagens. Em seu discurso, Raquel Hallak diretora geral da Mostra, afirmou que o evento só acontece com a participação e ressaltou o período de incertezas que a arte passa.

Discurso político

“Abrimos o calendário do cinema brasileiro de mãos dadas. Estamos em um percurso complexo e desafiador cenário de incertezas e mudanças. A Mostra depende de patrocínio e é preciso ter entendimento por parte dos governos e da sociedade que a cultura é alimento da alma e negócio que gera renda”, disse no discurso.

Ainda segundo Raquel, a Mostra é uma manifestação da diversidade da nação. “Nesta edição, os filmes abordam o corpo como presença. E a arte é que nos faz mais humanos e tolerantes com as diferenças e presentes. O evento ainda é um encontro de gênios da criação do cinema brasileiro. Dessa forma, A vida pede mais cinema, coragem, diversão e arte”, ressaltou.

Manifestações políticas deram um tom polêmico ao evento. Dessa maneira, gritos de ‘Lula Livre’ e ‘Ele não’, por exemplo, ecoaram no Cine-tenda. Principalmente quando Carlos Henrique Guedes, o Coronel Guedes, secretário executivo do Governo de Minas falou ao microfone. As vaias não permitiram que ele finalizasse o discurso, que brevemente destacou a importância do festival para o Brasil.

Uma ode a Passô

Uma mulher que exala poesia. A homenagem da Mostra à artista representa a celebração de mais de um dos múltiplos frutos de Grace. Porque ela não é somente uma atriz. Não é somente uma diretora. Não é somente uma escritora. É uma artista. Em sua carreira desenvolveu trabalhos permeados por conflitos contemporâneos.

Mesmo iniciado sua carreira nos palcos foi no cinema que ganhou notoriedade mundial. Prêmios, já soma aos montes. Em síntese, uma mulher fora da curva. Para a homenagem, a Mostra preparou uma performance com atrizes próximas a Passô. Pinçou, por exemplo, poéticos fragmentos de textos como Por Elise (“Sou forte como um cavalo novo, com fogo nas patas, correndo em direção ao mar”) e Amores Surdos (“Tem coisas que foram feitas para se conviver com elas”). Além disso, entrevistas sobre a carreira e pensamento da artista foram exibidos no telão.

Afetos

Ao receber o troféu Barroco ao lado da mãe, Valdete Paes Souza, Grace compartilhou a homenagem com os parceiros presentes. “Isso é o resultado diretos do nosso trabalho e reflexões. A gente vive em um momento de um levantamento de vozes conservadoras, opressivas, machistas e tentativas de limitação de nossas existências. Um corpo não pode ter limite e a política existe para que os corpos existam no mesmo espaço. Os governos necessitam se responsabilizar por um festival como esse”, afirmou.

Emocionada, a mãe da artista, também discursou bonito. “No Brasil é caro fazer arte. Sendo assim, a gente tem que sair de casa e ir ver cinema, teatro e tudo de arte. É isso que desenvolve o homem. Vamos fazer arte. Viver melhor. O homem não precisa só de dormir e comer. Precisa fazer muito mais. A arte colabora muito. O país sem arte, morre”, disse antes de receber muitos aplausos.

 

Valdete Paes Souza, mãe de Grace Passô recebe o troféu Barroco com a filha. Foto Beto Staino/Universo Produção

Vaga Carne transcriado

O média-metragem de Vaga Carne abriu oficialmente a Mostra de Cinema de Tiradentes. É um filme  fora do convencional. Em suma, uma verdadeira experimentação de linguagem em consonância com as propostas da Mostra.

Quem já assistiu a peça e leu o livro sabe que Grace se divide entre dois personagens: uma voz e um corpo. Dessa maneira, a tal voz é um ser incorpóreo capaz de invadir diversas matérias. Uma voz que fala, fala e fala a procura de significados, do mundo e de sua própria fala. Em resumo, o filme, assim como a peça que dá origem a ele, também teve radicalidades de linguagem.

Mostra de Cinema de Tiradentes

O tema desta edição é Corpos Adiante. Sendo assim, até o dia 26 de janeiro, a Mostra exibirá 108 filmes sobre a produção contemporânea do cinema brasileiro. Clique aqui e confira a programação completa.

*A equipe do Culturadoria viajou a Tiradentes a convite da Mostra

 

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