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“Antes assistíamos a televisão. Agora assistimos uns aos outros”, Ailton Krenak na abertura da 15ª CineOP

Evento reforçou o poder do encontro, celebrou Ouro Preto, o cinema como patrimônio e comemorou os 35 anos da Rede Minas

Por Jaiane Souza *

04/09/2020 às 10:18 | *Colaborador

Publicidade - Portal UAI
Sérgio Pererê e Mayí na performance de abertura da 15ª CineOP. Foto: Leo Lara / Universo Produção

Já estamos acostumados a falar que as cerimônias de abertura do Festival de Cinema de Ouro Preto são emocionantes. Mas a deste ano foi especial. A 15ª CineOP está em ambiente 100% digital por causa da pandemia, mas com a mesma missão: proporcionar programação gratuita, abrangente e destacando o cinema como patrimônio. 

A transmissão da abertura foi pelo site da CineOP, (assim como todas as atividades serão) e manteve Ouro Preto como estrela do evento, celebrando a preservação, memória e cultura da cidade. Para isso, convidou personagens característicos Ouro Preto, como o poeta Marcelinho Xibil. Teve ainda, os artistas Eduardo Moreira e Eda Costa. Eduardo leu trechos das Cartas Chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga e fez intervenções inspiradas em outros autores, assim como Eda Costa.

A parte musical ficou por conta de Sérgio Pererê e Mayí. Os músicos interpretaram canções de Pererê que dialogam com a formação social e racial do Brasil, como Rosário dos Pretos, e Mais uma vez, de Flávio Venturini e Renato Russo.

Debate inaugural

O debate inaugural recebeu Ailton Krenak, liderança indígena, escritor e filósofo, e Tadeu Jungle, roteirista e diretor de cinema e um dos criadores da TVDO, um dos destaques da 15ª CineOP. 

Com a temática “Cinema de Todas as Telas”, o bate-papo foi voltado para o papel da televisão como instrumento de comunicação, educação e diálogo com o cinema. “Eu fui educado pela escola, mas eu tenho certeza que o cinema e a TV que eu vi também me educaram. A partir do audiovisual eu aprendi e me tornei quem eu sou hoje”, declarou Tadeu Jungle. 

A TVDO, criada do Brasil nos anos 1980, foi pioneira e vanguardista quando investiu em linguagem experimental e que fugia da hegemonia estabelecida até então. Por meio das artes visuais e poesia, criou outras formas de narrativa para o audiovisual. “A TVDO não via diferença entre as telas. A gente considerou que o audiovisual é uma ferramenta de transformação. Uma das mais eficazes porque é democrática na medida em que grande parte dessa produção é gratuita e está cada vez mais acessível”, destacou Jungle. 

A fala de Ailton Krenak foi emocionante e contundente. Aos 66 anos, quase a mesma idade da televisão no Brasil, como ele mesmo frisou, ele busca fazer uma demarcação da tela. Isso mesmo, sempre acompanhou as lutas indígenas pela demarcação de terras e pensou em avançar também para as telas. “Pensando esse dispositivo como um importante ativador de consciência das pessoas, de grupos da nossa sociedade que não ouviram os índios em outros lugares; que só iam escutar se nós invadíssemos a tela na casa deles”, comentou. Para isso, desde sempre imaginou como atuaria de maneira empática, que provocasse reflexão por parte das pessoas.

Representação do índio na televisão

Kernak defende uma entrada respeitosa na casa das pessoas, tendo em vista que a aparição do povo indígena em programas de auditório, por exemplo, sempre teve uma abordagem desrespeitosa, ‘caricaturizada’ e estereotipada. A TV sempre teve um papel de controle na sociedade e isso não foi diferente nas aldeias de acordo com ele.

“O aparelho ficava no centro da aldeia, era controlado o horário e o conteúdo, até que houve uma explosão dessa tela. Quando os indígenas descobriram que podiam fazer autoimagem”, relembra. Um exemplo dessa ampliação é filme Já me transformei em imagem, de Zezinho Yube, documentarista da cultura do seu povo e assessor especial dos Povos Indígenas do governo do Estado do Acre.

Em suma, Ailton Krenak quer cada vez mais ocupar o espaço audiovisual do Brasil e do mundo a partir da produção de afeto. “Essa perspectiva de invadir as telas implica num esforço de organizar as nossas comunidades espalhadas pelo Brasil para produzir conteúdo, porque antes a gente assitia televisão, agora assistimos uns aos outros”, conclui.

Aqui você confere a abertura completa e o Debate Inaugural.

15ª CineOP

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Confira o show completo.

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