Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Crítica em diálogo: a força do encontro entre a literatura e o teatro em ‘A peste’

Por Carol Braga*

22/08/2018 às 17:00

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Foto: Renato Mangolin / Divulgação

Artaud, Stanisláviski, Grotowski foram alguns dos pensadores do teatro do século XX que confiaram no poder da cena politizada. Para eles, uma peça de teatro também poderia – e até deveria – ter a missão de conduzir o espectador a uma tomada de consciência política. Quem nos conta isso é a autora Marie-Claude Hubert no livro ‘As grandes teorias do teatro’.

Me recorro a ele pois foi justamente esta a sensação que tive depois de ver ‘A Peste’. O monólogo com Pedro Osório, direção de Vera Holtz e Guilherme Leme Garcia, recupera o teatro como lugar de reflexão. No caso, o que me soou mais forte foram provocações sobre alienação, certa apatia social, que se instala nas pessoas diante de cenários graves.

Em outras palavras, o que A peste – a peça – faz durante 50 minutos é oferecer diversos estímulos metafóricos com o objetivo de despertar a consciência política no espectador. Convenhamos que, nem sempre, este é um processo tranquilo ou confortável. É muito bom que não seja mesmo.

 

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Adaptação

O espetáculo é uma adaptação para os palcos do livro homônimo de Albert Camus. Nele, a partir do fato de ratos espalharem uma peste mortal, o escritor, metaforicamente, fala sobre a importância da resistência. Como resistir? Quem resiste?

É por isso que a história se aplica a outros contextos. Camus parte de algo concreto, ficcional para dizer como cada um reage a contextos que podem ser tanto de guerra, como cenários fascistas ou ditatoriais.

Sendo assim, o maior desafio da peça A Peste é transportar esse nobre propósito inscrito na literatura para a sala de espetáculos. A opção da direção foi a de explorar o que poderia haver de teatral ali. No caso, o texto. A narrativa tem um peso.

Se a literatura trabalha principalmente com a imaginação do leitor, a experiência que eles reproduzem no palco também conta com isso. Ou seja, é a forma como o ator Pedro Osório narra os fatos que prendeu a minha atenção.

Outros elementos

O cenário se resume a uma faixa de linóleo branco em meio a um breu, tendo em um dos lados um monte de carvão. A principal movimentação que ele faz durante a peça é transportar os pedaços de tocos de madeira de um lado para o outro.

Me perguntei o que tal limitação poderia significar. O sufoco, a falta de esperança, a impossibilidade de fuga? Sabe aquela coisa de não saber bem para onde fugir? Pois é!

A medida em que o ator avança no texto, aquele único elemento do cenário – o monte de carvão – se desdobra. Ora é rato e em outro momento é gente, são restos. Representa a morte. É bonito quando um espetáculo respeita a capacidade do público criar significados que extrapolam o que nos foi dado. Se a equipe de A peste faz isso muito bem com o cenário, o mesmo não ocorre com a sonorização, por exemplo.

Se a iluminação, principalmente lateral, valoriza os gestos do ator, a trilha sonora marca os momentos de tensão. O ator, inclusive, usa microfone talvez para intensificar o discurso em uma outra parte. Ou seja, o recurso técnico sublinha, a meu ver mais do que o necessário, as pausas e pontos onde interessa à direção que a plateia aprofunde sua própria reflexão.

 

Foto: Renato Mangolin / Divulgação

Crítica em diálogo

O Culturadoria tem procurado estimular o diálogo crítico. Por isso, sempre que vamos publicar uma crítica teatral convidamos alguém da equipe do espetáculo a responder o nosso texto. Dessa maneira, Pedro Osório, gentilmente, topou nosso desafio.

Resposta de Pedro Osório

Carolina, muito obrigado por abrir o diálogo, acredito que uma peça se abre a esse momento de diálogo, sempre. Seu olhar toca em pontos convergentes. Tivemos muito estudo sobre a obra do autor. O movimento cênico foi inspirado no mito de Sisifu. Não sou bom de escrita, me sinto um peripatético, sempre caminhando e refletindo…

O conceito é filosófico e dialogado com o público. O carvão representa essas fogueiras acesas, a pedra de sisifu… Sou ator, narrador. Meu trabalho se realiza em cena e só. A trilha, a direção o figurino e o cenário vem pra provocar a imaginação deste lugar ficcional e real de peste diária e atemporal. Os exilados..de hoje. Nos, os abstraídos. Esse alerta foi o que me motivou. Obrigado pelo olhar e carinho. Pedro Osório.

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