Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

A filha perdida: a maternidade e a importância da autocompaixão

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Filme dirigido por Maggie Gyllenhaal tem Olivia Colman em mais uma excelente atuação. A filha perdida está disponível na Netflix.

Por Carol Braga | Editora 

Se tem uma coisa que é romantizada na nossa sociedade é a maternidade, né? Ler e ver A filha perdida me fez refletir ainda mais sobre isso, mesmo não sendo mãe. A história escrita por Elena Ferrante e consequentemente muito bem contada por Maggie Gyllenhaal apresenta um ponto de vista real dessa relação. Existe amor, claro, mas também dor. É um processo geral de amadurecimento que todos nós, como filhas e filhos, precisamos dar valor. 

Conheci o livro de Elena Ferrante quando soube da adaptação para o cinema. Ou seja, já li sabendo que haveria um filme sobre ele. Sendo assim, me perguntava como a atriz prestes a estrear como diretora faria para levar para a tela reflexões que são tão íntimas. Na literatura, acompanhamos o fluxo do pensamento da protagonista. No cinema, Olivia Colman (em mais uma excelente atuação) nos presenteia com um silêncio que diz muito. 

Sim, o que eu mais gostei de A filha perdida foram os não ditos, os olhares de observação sagaz, a constante volta no tempo e autocompaixão da protagonista. Tem compaixão também, empatia, sororidade. Como o colega Paulo Camargos ressalta em sua crítica sobre o filme, a literatura de Elena Ferrante é marcada por personagens femininas fortes e que vivenciam embates constantes com as estruturas do patriarcado. Assim é Leda, assim como também devem ser Elena, Olivia e Maggie.

A trama

Olivia Colman interpreta, então, Leda. Ela é uma professora de literatura comparada em férias no litoral grego. Ela viaja sozinha e curte a praia sem a companhia de conhecidos. Em resumo: é muito observadora. Fica de olho em quem está por perto. Deste modo, parece desenvolver dramaturgias próprias para quem, assim como ela, experimenta o lazer diante do mar.

Uma família de napolitanos é a que chama mais atenção. São pessoas expansivas. Se fosse no Brasil, fariam churrasco na praia. Farofeiros, sem rodeios. Leda fica mais atenta aos passos de Nina (Dakota Johnson) e a pequena filha dela. Assim, é como se ela estivesse em um túnel do tempo.

Ver Nina e a garota a faz lembrar da relação com as filhas Bianca e Marta, atualmente com 25 e 23 anos. É uma volta no tempo, nem sempre tranquila, mas cheia de reflexões bastante interessantes. Principalmente para todas as mulheres que são mães e atravessaram, como Leda, um longo período de abdicações. Como bem disse uma amiga querida: tem um espelhamento que é duro.

Julgamentos

Uma história escrita supostamente por uma mulher (pouco se sabe sobre Ferrante), com roteiro adaptado por uma mulher e também dirigido por uma mulher. É claro que não tem julgamento nesse processo, mas tem uma realidade que pode pegar bem fundo. Tem reflexão, observação, os silêncios que já comentei.

A partir de dispositivos banais como o sumiço de uma boneca, Gyllenhaal sustenta uma narrativa tensa. Ou seja, é um suspense psicológico. Ele fala, inclusive, sobre os apagamentos de subjetividades que as mulheres sofrem quando se tornam mães. Imagino que muitas nem tenham consciência sobre isso.

Se A filha perdida revela tantas camadas assim, não há como não considerar este um dos filmes mais interessantes da temporada.

A filha perdida. Foto: Netflix

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