27 jan 2018

21ª Mostra de Tiradentes chega ao fim anunciando chegada de uma geração cheia de talentos

Um festival de cinema têm significados diferentes para as pessoas que passam por ele. Para a imprensa, significa trabalho. Para os realizadores, é uma oportunidade de apresentar suas obras. Já para o público, é uma chance de ter acesso a filmes que dificilmente serão encontrados em outros lugares.

A Mostra de Tiradentes, além de reunir indivíduos com objetivos específicos, se destaca por promover uma interação entre eles. Não é todo dia que se vê um filme sendo discutido tão profundamente quanto nas sessões de “Encontro com os filmes”, por exemplo. Críticos, fãs e cineastas, reunidos para promover uma necessária democratização do audiovisual. Uma área historicamente elitizada no país.

Graças à definição do tema “Chamado Realista” para a mostra deste ano, o cenário político atual, questões raciais, de gênero e até mesmo existenciais foram muito presentes ao longo da programação. Como não poderia deixar de ser, afinal, tratam-se de realidades no cenário brasileiro.

Ao longo dos nove dias de programação, foram exibidos mais de 100 filmes brasileiros em pré-estreias nacionais, nos espaços Cine-Praça, Cine-Tenda, Cine-Lounge e Cine-Teatro. Atendendo a um público estimado de 35 mil pessoas, segundo a organização.

Públicos de todas as idades passaram por Tiradentes. Mas foram os jovens profissionais do audiovisual, com ideias inovadoras, muito assunto e disposição que se destacaram. Muitos deles buscavam apenas uma oportunidade para mostrar seus talentos. Exercitando gêneros e reinventando estéticas, formas e linguagens.

O contato direto e constante com tantas obras e profissionais serviu ao propósito de reascender a paixão pelo cinema no público. Que passa a fazer uma reflexão sobre os filmes e seus atrativos.

“Lembro mais dos corvos”: a luta dos transexuais contra a exotificação

Além da experiência sensorial e da qualidade da narrativa, bons personagens são fundamentais para o sucesso de um filme. Conhecer a fundo e acompanhar a trajetória de um individuo é o que provoca real engajamento do público.

Nenhum outro filme exibido na mostra Aurora foi tão bem sucedido nesse aspecto quanto  “Lembro mais dos corvos”. Trata-se de uma simples conversa com a atriz Julia Katharine. Uma mulher transexual, que se abre de forma inspiradora para o público neste documentário de Gustavo Vinagre.

Apesar de sua simplicidade, o longa nos permite conhecer profundamente o universo dessa personagem. Seus traumas, preferências e paixões. Tudo isso utilizando uma certa realidade ensaiada como linguagem. A forma com que o diretor filma este grande diálogo é brilhante. Chama atenção a cena da aproximação dramática que ele faz no exato momento em que Julia usa a palavra “pedofilia” pela primeira vez, demonstrando pleno domínio de sua narrativa.

Um dos momentos mais marcantes do debate realizado após a exibição, foi o momento em que Julia tomou o microfone para esclarecer que a superação do preconceito só será completa quando a transsexualidade deixar de ser usada para definir os indivíduos. “Não sou uma atriz trans. Sou uma mulher trans, e meu ofício é ser atriz”, desabafou.

 

 

“Rebento”: o prazer de se tentar decifrar um personagem

Rebento, do diretor André Morais, último filme exibido na mostra Aurora, também é muito calcado em sua personagem principal. O longa se inicia com uma sequência fortíssima. Maria (Ingrid Trigueiro)  leva seu bebê ao rio para matá-lo, minutos após dar a luz. A partir daí, somos convidados  a passar este dia com a personagem  e tentar compreendê-la.

Seria uma crítica à interferência do estado no corpo da mulher? Uma referência à depressão pós-parto? Todas as hipóteses são válidas. Aqui, ao contrário de “Corvos”, temos uma personagem principal que fala pouco. Ela entrega mais ao espectador através de seus olhares e atitudes do que de palavras. “Em vez de tentar responder o porquê, eu resolvi investir no mistério”, justificou o diretor.

Trata-se de um filme no estilo “road trip”. A melhor oportunidade que o espectador tem de decifrar essa personagem é analisando a forma com que ela reage a cada uma das figuras que cruzam o seu caminho.

Quanto à linguagem empregada, chama atenção a forma com que o André parece se interessar mais pelos detalhes, pelas partes do corpo de Maria, do que por planos convencionais do rosto. Além disso, ele acredita e investe fortemente na força de suas imagens. A cena em que ela se olha no espelho pela primeira vez após a realização do abominável ato é simplesmente memorável.

*Viajou a convite da Mostra de Cinema de Tiradentes

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