Você sabe como funciona o processo de curadoria de uma orquestra?

Orquestra Filarmônica de MG

Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Rafael Motta/Divulgação

É outubro de 2016 e o diretor artístico da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, maestro Fabio Mechetti está de olho nas respostas que começa a receber por e-mail. Não, elas não tem nada a ver com a temporada de 2017. É 2018 que ocupa a mente do maestro.

É com uma consulta à agenda daqui, uma articulação de lá, atenção ligada nos desafios artísticos que determinado solista pode trazer ao grupo que pouco a pouco as programações vão tomando forma. Detalhe: a diferença de dois anos é mínima se comparada aos padrões de orquestras internacionais.

Escolher nomes, obras e principalmente a forma como elas serão apresentadas ao público ao longo do ano são algumas das atribuições da direção artística. Isso é curadoria. “Sempre parto primeiro da questão artística”, conta Mechetti. Isso significa que ele começa a delinear uma temporada, pensa sobre o que determinada obra ou período pode oferecer à orquestra. “A intensão é sempre aprimorar naquilo que deixamos de fazer”, revela.

A Orquestra Filarmônica de Minas Gerais faz em 2017 sua décima temporada. Começa nos dias 16 e 17 de fevereiro, com obras de Liszt e Mahler. Serão 57 concertos divididos em cinco séries. No time de solistas convidados, destaque para nomes nacionais e frequentes da Filarmônica. O pianista Nelson Freire e o violoncelista Antonio Meneses, por exemplo, estarão de volta à Belo Horizonte.

Entre os compositores homenageados estão nomes pouco populares como Zoltán Kodály (Hungria, 1882 – 1967), Johann Stamitz (Boêmia | República Tcheca, 1717 – 1757), Francisco Mignone (Brasil, 1897 – 1986), Ferde Grofé (Estados Unidos, 1892 – 1972), Georg Philipp Telemann (Alemanha, 1681 – 1767), Jorge Antunes (Brasil, 1942) e José Maurício Nunes Garcia (Brasil, 1767 – 1830). Haverá também um grande destaque do período Barroco nos concertos da chamada “Fora de série”.

Maestro Fabio MechettiEssa escolha, por exemplo, tem a ver com os princípios curatoriais que Fabio Mechetti procura seguir. Ele estava acostumado a ouvir do público pedido de obras de compositores como Vivaldi e Bach, representantes, respectivamente do Barroco italiano e alemão. “O repertório não utilizado passa a ser instrumento para a melhora técnica da orquestra”, aponta o maestro.

Segundo ele, as obras do período Barroco se caracterizam por formações menores, o que não é o caso da Filarmônica. “Neste caso cria um ambiente de mais atenção. Quanto mais se reduz a orquestra, mais os indivíduos são importantes”, destaca.

A possibilidade evolução técnica da Filarmônica é algo que perpassa cada escolha de Fabio Mechetti. A melhora é lógica: a Orquestra tem a própria sede, toca mais, com isso os músicos aprimoram suas habilidades e os desafios que lhes são postos podem ser maiores.

Com 35 anos de carreira como regente, Fabio Mechetti já passou por sete orquestras, sendo cinco nos Estados Unidos, uma na Malásia e a Filarmônica de MG.  A diferença que ele percebeu entre elas é que nos dois países pelos quais passou havia uma tendência a buscar repertório mais popular. “Nos Estados Unidos a venda de ingressos representa 40% do orçamento. Então é importante programar o que vende”.

A Malásia adotou o mesmo sistema. Na avaliação do maestro este é um caminho menos interessante. Não se cultiva o público para que vá aprendendo pouco a pouco a gostar daquele universo, mas oferece aquilo que se presume ter uma aceitação maior.

“É um princípio que é o inverso do que estamos fazendo aqui”, conta. Como Fabio Mechetti não encara a Orquestra Filarmônica  como um repositório de obras conhecidas. Além do repertório clássico, fomenta o novo. O concurso Tinta Fresca revela anualmente novos nomes da composição erudita nacional.

O próximo plano do diretor artístico é criar a Filarmônica Jovem e a Academia para os instrumentistas. “É aí que vamos formar os futuros músicos”, aposta Mechetti.

 

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